Artigo | Dia do escritor: reflexões sobre o escrever — Sophia Bicudo

De acordo com o dicionário digital Michaelis, escritor é o “indivíduo que escreve”; “autor de obras escritas, sejam literárias, sejam culturais, científicas etc., em especial, textos de ficção”. Ainda segundo esse dicionário, escrever, dentre outras coisas, significa “representar por meio de caracteres ou sinais gráficos”; “expressar-se por escrito”; “contar algo (narrar, descrever) com palavras escritas; descrever, narrar”; “fixar em; gravar, inscrever”; “produzir textos, de qualquer natureza, como escritor”. Embora essas definições componham algumas “verdades” sobre o escritor e o ato de escrever, não abrangem diretamente aspectos relevantes a respeito de ambos. Por essa razão, o presente texto objetivou, aproveitando o ensejo do dia do escritor (25 de julho), trazer algumas reflexões importantes concernindo tanto quem escreve, quanto o próprio ato de fazê-lo. 

Se, como dizia Monique Wittig (2022), “o escritor precisa de matéria-prima [linguagem] para começar seu trabalho tanto quanto um pintor, um escultor ou um compositor” (p. 111) e, nesse sentido, precisa da gramática, a qual Audre Lorde (2020) afirma que “não é arbitrária, que ela serve a um propósito, que ela ajuda a dar forma às nossas maneiras de pensar, que ela pode ser tão libertadora quanto restritiva” (p. 117), a escolha das palavras, pelo escritor, precisa ser atenta e minuciosa: palavras diferentes (re)constroem discursos diferentes. 

Assim, o escritor, imerso na escolha entre reproduzir formas existentes ou parir novas formas (WITTIG, 2022), descobre repetidamente no fazer (incluindo desde o pensar até o marcar o papel) que “as palavras são tudo na escrita” (WITTIG, 2022, p.110) porque a linguagem não é neutra, mas sim suscita/sustenta/subverte discursos (GUANAES-LORENZI, 2014), de tal maneira que gesta e pari a(s) realidade(s). Dessa forma, as palavras são concomitantemente coisas materiais e significam algo ((WITTIG, 2022), não sendo possível “dissociar forma de conteúdo, pois partilham da mesma forma: a forma de uma palavra, uma forma material” (WITTIG, 2022, p.113). 

Nesse sentido, relevante refletir sobre os seguintes dizeres de Monique Wittig (2022):

“o sentido é linguagem, mas, sendo sua abstração, não pode ser visto. Apesar disso, no uso atual da linguagem, o que se vê e se ouve é somente o sentido. Isso porque o uso da linguagem é uma operação muito abstrata, e sua forma desaparece o tempo todo na produção do sentido, pois, quando a linguagem ganha forma, ela se perde no sentido literal. Ela só pode reaparecer abstratamente como linguagem quando se reduplica, quando forma um sentido figurado, uma forma de linguagem. Esse, portanto, é o trabalho do escritor – preocupar-se com a letra, o concreto, a visibilidade da linguagem, isto é, sua forma material” (p. 105, meus grifos) 

No entanto, para além da importância de se preocupar com a forma material da linguagem, acredito ser relevante fazer o uso do erótico. Mas o que intento suscitar ao enfatizar que o escritor pode lucrar fazendo uso do erótico (e, talvez, inclusive muito necessite fazê-lo) ao escrever estando preocupado com “a letra, o concreto, a visibilidade da linguagem”?  

Antes de tentar responder essa pergunta, vale destacar que entendo o “erótico” como 

“uma dimensão entre as origens da nossa autoconsciência e o caos dos nossos sentimentos mais intensos. É um sentimento íntimo de satisfação e, uma vez que o experimentamos, sabemos que é possível almejá-lo.” (LORDE, 2020, p. 68)

Dessa maneira, fazer uso do erótico no escrever, estando preocupado com a forma material da linguagem, implica estar consciente, em uma relação ativa (não passiva) entre os pensamentos apreendidos no contexto e o ato de marcar o papel, refletindo sobre a(s) realidade(s) enquanto em contato com “nossos sentimentos mais intensos”, de tal modo que possamos percebê-los e senti-los atentamente, nesse diálogo (interno/externo) que diz respeito ao ato de escrever. 

Assim, o que viso, ao destacar a relevância de escrever dessa maneira, é suscitar-lhes, leitores-escritores, a escolha por criar novas formas ao invés de reproduzir formas existentes, de maneira dialógica, tendo em vista o caráter político e, porventura revolucionário, da escrita. Desse modo, intento lhes incentivar a criar obras que sejam “máquinas de guerra” (WITTIG, 2022). 

Por essa razão, concluo o presente artigo, no dia do escritor, com as seguintes perguntas: que escritor você se faz? Que escritor deseja tornar-se? Como se faz seu escrever? Quais discursos sua escrita suscita/sustenta/subverte? Quais os impactos da linguagem que utiliza e do trabalho que faz com essa matéria-prima? 

Referências 

LORDE, A. Irmã Outsider. 1ª ed. 1ª reimpr. Belo Horizonte: Autêntica, 2020

GUANAES-LORENZI, C. et al. Construcionismo social : discurso, prática e produção de conhecimento. 1ª ed. Rio de Janeiro: Instituto Noos, 2014

WITTIG, M. O pensamento hétero. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2022

Sophia Bicudo Passos da Fonseca. Autora do livro “Escritos Poetizados”, publicado pela editora Grupo Atlântico Editorial através da chancela Primeiro Capítulo, do poema “Confinamento Final” integrante da “Coletânea de Poemas Feministas Bertha Lutz”, publicado pela editora Persona, do poema “Dizeres ao Viver” integrante da coletânea “LGBTQQICAPF2K+: O Amor é gigante”, publicado pela editora Toma Aí um Poema, do poema “Protetivos além tecidos”, publicado pela editora VersiProsa na coletânea “PoesiaBR#01”, dos artigos “O(s) feminino(s) na obra Identidade”, publicado no jornal Holofote, “Linguagem e o falar”, “Nasce um ser humano” e “Espírito de fraternidade hoje e sempre”, publicados no blog da editora Toma Aí Um Poema. Atualmente cursa psicologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.

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