Resenha: “Ravinas!”, de Paula Valéria Andrade — quando a prosa se recusa a ser só prosa
Autora: Paula Valéria Andrade | Selo: Praga (Toma Aí Um Poema) | Ano: 2026 | Páginas: 124 | ISBN: 978-65-985619-9-4 | Gênero: conto brasileiro contemporâneo, prosa experimental | Prefácio: Maria Valéria Rezende
Há livros de contos que se leem. Ravinas! se atravessa — e o verbo não é acaso: é o próprio livro que insiste nessa palavra, capítulo após capítulo, desde a epígrafe retirada do Canto V do Inferno de Dante, em que almas são lançadas do alto de uma ravina e gritam blasfêmias contra a luz. A partir dali, tudo em Ravinas! — o título, a tipografia, a estrutura, o próprio ato de ler — se organiza em torno da ideia de queda, fenda, corte abrupto entre um estado e outro. Não é um livro de contos no sentido tradicional; é antes uma sequência de precipícios narrativos, cada um exigindo do leitor uma descida diferente.
A ravina como princípio formal, não como metáfora decorativa
Logo nas primeiras páginas, antes mesmo do primeiro conto, o livro apresenta uma espécie de manifesto em miniatura: duas linhas soltas, sem pontuação separando as palavras — “PALAVRAScontamCONTOS” e, na página seguinte, “comoRAVENASecoamRAVINAS”. É uma aposta arriscada e, ao mesmo tempo, precisa: o jogo sonoro entre “ravenas” (aves, ecos, agouro) e “ravinas” (fendas, quedas) condensa, em uma única imagem, a lógica de todo o livro. As histórias não se sucedem de forma linear; elas ecoam umas nas outras, repetem estruturas com conteúdos diferentes, como se o desfiladeiro de uma história produzisse o eco que se ouve, distorcido, na história seguinte.
Essa lógica de eco se materializa também visualmente. Entre um conto e outro, páginas inteiras são preenchidas por campos de barras, barras invertidas e outros caracteres repetidos — não são espaços em branco, são cicatrizes gráficas, ravinas desenhadas na própria diagramação do livro. É um recurso que poderia soar gratuito em outras mãos, mas que aqui funciona como pontuação de trauma: o leitor precisa, literalmente, atravessar um vazio tipográfico antes de entrar na próxima história, revivendo em miniatura a experiência de queda que o título anuncia.
Duas metades, uma assimetria deliberada: “Elas” e “Eles”
O livro se divide em duas partes claramente desiguais. A primeira, “Elas | Rotas de Passagem”, reúne seis textos organizados por espaços de trânsito e permanência — três avatares da palavra “Casa”, mais “Elevador”, “Ônibus” e “Deserto”. A segunda, “Eles | Percursos”, reúne cinco textos organizados por “Trem”, “Velório” e dois avatares de “Pacto”, fechando com “Cárcere”. A assimetria — seis contra cinco — não parece acidental num livro que, logo na abertura de “O Escangalho”, anuncia suas duas teses centrais: a solidão como tragédia do espaço, a impermanência como tragédia do tempo. Um livro sobre corpos presos em geografias e cronologias desiguais dificilmente poderia se organizar em blocos simétricos sem trair sua própria premissa.
Mais interessante ainda é a forma como a segunda metade rima estruturalmente com a primeira sem repeti-la. “Assalto Sobressalto” (a história do vagão de trem) e “Impacto” (a primeira história da seção “Pacto”) são, na prática, o mesmo conto contado duas vezes: um interrogatório policial construído inteiramente em diálogo cortante, sobre um corpo caído ao lado de um estranho que jura não conhecer a vítima. Na primeira versão, a vítima é um usuário de crack nas imediações da Cracolândia paulistana, e o suspeito é um executivo branco de colarinho engomado; a cena expõe o automatismo do preconceito de classe e raça na leitura policial de um cadáver. Na segunda versão, quase palavra por palavra na estrutura, o morto é uma mulher que caiu de uma sacada, e o “suspeito” descobre, através do interrogatório, que a vítima é a namorada de adolescência que ele nunca mais viu — e que talvez tenha gerado um filho que ele desconhece. É o mesmo esqueleto narrativo vestido com conteúdos emocionais opostos: de um lado, o mecanismo frio da suspeita social; do outro, o mecanismo devastador do reencontro tardio com um passado nunca resolvido. Ler os dois contos em sequência — ainda que separados por sessenta páginas — é exatamente o exercício de eco que o livro propõe ao leitor desde a epígrafe.
A seção “Elas”: corpos femininos, tempo que apodrece, espaço que sufoca
Os textos da primeira metade compartilham uma atenção quase clínica ao modo como o tempo desgasta corpos e casas femininas. Em “Noturna Passagem”, uma mulher de setenta anos morre serenamente ao lado do marido, durante a quarentena da pandemia, num dos poucos momentos do livro em que a morte chega sem violência — quase como recompensa por uma vida bem vivida, ainda que a narrativa insista em lembrar que “não é um livro, ou mais um conto”: a autora sinaliza, no próprio texto, que está inscrevendo uma morte real, ou baseada em experiência real, na ficção. Já “Desamor Indigesto” faz o caminho oposto: acompanha Sandra, imigrante latina na Califórnia, atravessando ao mesmo tempo um câncer terminal e as sequelas de um casamento abusivo, com um filho pequeno que sofre a ausência afetiva do pai. É o conto mais extenso e mais duro da seção, e também o que mais expõe o interesse da autora por cruzar doença física e doença emocional como a mesma ferida.
“A Casa e o Tempo” opera de modo completamente diferente: é quase um poema em prosa, uma lista vertiginosa de substantivos de deterioração — traças, mofo, cupim, vidros estilhaçados, telhados quebrados — que descreve o abandono de uma casa em Minas Gerais sem nenhuma personagem em cena. O golpe final vem no post-scriptum, quase didascálico: o jardim da infância virou estacionamento de cimento. É a forma mais econômica que o livro encontra para tratar de um tema que atravessa toda a seção “Elas”: a memória afetiva perdendo, sistematicamente, a batalha contra o concreto.
O tour de force da primeira metade, porém, é “O Escangalho”: uma mulher fica presa em um elevador de serviço e, ao longo de páginas de fluxo de consciência quase ininterrupto, atravessa pânico, tédio, consumismo compulsivo, uma crise quase dissociativa em que veste camada sobre camada de roupas até não caber mais no próprio corpo, e finalmente uma explosão elétrica que parece apagar a cena — só para o conto reabrir com um telefonema banal, como se nada daquilo tivesse, de fato, acontecido fora da cabeça dela. No meio do colapso, um fragmento de poema sobre a negação histórica da negritude brasileira irrompe na fala da personagem sem aviso — um lembrete de que a crise pessoal de uma executiva presa entre sacolas de compras convive, na mesma cabeça, com a consciência (ainda que fragmentada) de uma crise coletiva muito maior. É o conto que melhor demonstra a tese de Jéssica Iancoski, autora do texto de orelha: cada personagem, aqui, exige sua própria forma, e a forma do colapso mental não podia ser outra senão essa espiral verbal sem pontuação de saída.
Fecha a seção “Odo-Cangá! Rainha”, o único texto puramente lírico do livro — uma invocação, quase um hino, a uma entidade mítica situada entre o deserto, o mar e os rios amazônicos, prima da Iemanjá do imaginário afro-brasileiro. Depois de seis histórias de corpos femininos concretos, sofridos e situados em endereços reconhecíveis, o livro escolhe encerrar a metade “Elas” elevando essa mesma figura feminina a um plano mítico e atemporal — um movimento de ascensão que prepara, por contraste, a descida que vem a seguir.
A seção “Eles”: violência, ausência paterna e a farsa da masculinidade
Se a seção “Elas” é sobre corpos que se deterioram com o tempo e o espaço, “Eles” é sobre homens que fabricam, ativamente, suas próprias ravinas — e empurram os outros para dentro delas. Depois do já mencionado díptico entre “Assalto Sobressalto” e “Impacto”, o texto mais pesado do livro é “Papas & Padre”, um drama em duas cenas quase teatrais. Na primeira, um padre tenta demover Marco, um homem armado e agressivo, de uma decisão impulsiva num orfanato; na segunda, mais devastadora, Marco confronta o próprio pai, Ronaldo, exigindo reconhecimento tardio como pai de um menino que mal conhece — uma tentativa de redenção que rapidamente se revela possessiva, controladora e perigosa para a criança. O conto não absolve nem condena explicitamente: deixa o leitor a sós com um homem que confunde desejo de reparação com direito de posse, e termina em tragédia, quando o próprio Marco é vitimado pelo caos que criou. É literatura difícil de ler não pela violência gráfica, mas pela precisão com que descreve a lógica interna de quem magoa por acreditar, sinceramente, que está amando.
“Assombro” muda de registro para a sátira: um cineasta famoso morre em circunstâncias no mínimo excêntricas, e seu velório se transforma em espetáculo midiático, disputado por familiares, paparazzi e uma jovem viúva lacônica diante das câmeras. A voz do morto, incomodada com a hipocrisia dos vivos, parece ecoar literalmente pela sala através da televisão — um recurso quase de humor negro que expõe, sem sutileza, a voracidade da cultura de celebridades diante da morte alheia.
O livro se despede, no entanto, em tom de graça inesperada. “Dormindo com Urubus” é um diálogo quase mítico entre Nenê, recém-saído de trinta anos de solitária, e Zuza, moradora de rua — os dois entre entulhos, sob um céu de urubus ao pôr do sol. Nenê descreve a perda do olfato e da visão na prisão, e a alegria quase religiosa de recuperar o direito de ver o céu sem cheirar a própria imundície. O conto termina com uma imagem de transfiguração: o homem se abre em asas improvisadas de sucata e salta — um Ícaro do asfalto brasileiro. É a única redenção plena do livro, e não por acaso a autora escolhe encerrar assim uma coletânea inteira sobre quedas: com um homem que cai voando.
O aparato: prefácio datado, epígrafe de Dante e um índice que também é mapa
Vale notar um detalhe bibliográfico curioso: o prefácio de Maria Valéria Rezende — escritora, freira e uma das vozes mais respeitadas da literatura brasileira contemporânea — está datado de setembro de 2021, cinco anos antes da publicação efetiva do livro em 2026. A defasagem sugere uma gestação editorial longa, coerente com o fato de que várias histórias (a morte na quarentena, o isolamento no elevador) parecem escritas sob o impacto direto da pandemia. Rezende, em seu texto, chama atenção justamente para os parênteses que a autora usa como “frestas” narrativas — pequenas aberturas por onde se espia o não dito —, e nomeia com precisão o efeito que o livro busca: uma literatura que não entrega tudo, que confia no leitor para completar o gesto, o rosto, o corpo que a palavra apenas insinua.
Fecha o livro um índice pouco convencional, que relista as histórias não pela ordem de leitura, mas pelo espaço-símbolo de cada uma — Casa, Elevador, Ônibus, Deserto, Trem, Velório, Pacto, Cárcere —, cada linha acompanhada de barras verticais crescentes, como se fossem réguas de intensidade. É um convite explícito a uma segunda leitura, temática em vez de sequencial: o livro se oferece, ele mesmo, como um mapa de ravinas a ser percorrido mais de uma vez.
Quem assina o livro
Paula Valéria Andrade não é estreante em nenhuma das linguagens que mobiliza em Ravinas!. Poeta, escritora, designer, curadora e artista visual e audiovisual, é professora de pós-graduação em cinema com 22 filmes produzidos, formada em Filosofia, Comunicação, Design e Marketing, com MBA pela FGV-SP. Atuou como diretora de arte, cenógrafa e figurinista em 70 peças de teatro entre São Paulo e São Francisco, e já publicou mais de 30 livros, entre poesia, literatura infantil, material didático e ficção. Recebeu prêmios como o Jabuti e o APCA no Brasil, além de reconhecimento em Portugal, Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, com presença em feiras como a de Frankfurt e o Festival de Poesia de Lisboa. Desde 2017, idealiza e cura o Coletivo Feminino Infinito, projeto de valorização de escritoras e artistas brasileiras — um dado biográfico que ilumina retroativamente o cuidado com que a metade “Elas” deste livro é construída.
Essa trajetória multidisciplinar explica a hibridez formal de Ravinas!: é um livro escrito por alguém que pensa, ao mesmo tempo, como roteirista, como cenógrafa e como poeta — e que se recusa, conto após conto, a escolher apenas uma dessas linguagens.
Para quem este livro é indicado
Ravinas! interessa especialmente a leitores de:
- Ficção brasileira experimental, que mistura conto, dramaturgia e poesia num só volume
- Literatura sobre violência de gênero, ausência paterna e masculinidade tóxica
- Prosa urbana contemporânea (São Paulo, Rio de Janeiro, periferias e centros)
- Livros-conceito, com forte unidade estrutural entre forma e tema
- Quem acompanha autoras multidisciplinares brasileiras e projetos como o Coletivo Feminino Infinito
Ficha técnica
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Título | Ravinas! |
| Autora | Paula Valéria Andrade |
| Selo/Editora | Praga (selo da Toma Aí Um Poema) |
| Edição | 1ª edição, 2ª impressão |
| Publicação | 9 de maio de 2026 |
| ISBN | 978-65-985619-9-4 |
| Páginas | 124 |
| Formato | 14 x 21 cm |
| Gênero | Conto / prosa experimental |
| Estrutura | 2 partes: “Elas – Rotas de Passagem” (6 contos) e “Eles – Percursos” (5 contos) |
| Prefácio | Maria Valéria Rezende (datado de setembro de 2021) |
| Texto de orelha | Jéssica Iancoski |
Perguntas frequentes sobre “Ravinas!”, de Paula Valéria Andrade
Sobre o que é o livro Ravinas!? É uma coletânea de contos que mistura narrativa, dramaturgia e poesia para tratar de temas como solidão urbana, violência de gênero, luto, ausência paterna e memória, organizada em duas partes — “Elas” e “Eles”.
Quem é Paula Valéria Andrade? É uma escritora, poeta, designer, curadora e artista visual e audiovisual brasileira, autora de mais de 30 livros, premiada com o Jabuti e o APCA, com reconhecimento internacional em países como Portugal, Itália e Estados Unidos. É também idealizadora do Coletivo Feminino Infinito.
Por que o livro se chama Ravinas!? O título remete ao Canto V do Inferno, de Dante, em que almas são lançadas do alto de uma ravina. No livro, cada conto funciona como uma queda ou corte formal abrupto, refletido inclusive na diagramação, com campos de barras tipográficas separando as histórias.
O livro tem uma estrutura especial? Sim — é dividido em “Elas” (seis contos ligados a espaços como casa, elevador, ônibus e deserto) e “Eles” (cinco contos ligados a trem, velório, pacto e cárcere), com alguns contos funcionando como ecos estruturais uns dos outros.
Quem prefaciou o livro? A escritora Maria Valéria Rezende, uma das vozes mais respeitadas da literatura brasileira contemporânea.
Um veredito
Ravinas! não é um livro para ler distraidamente, e ele próprio avisa isso desde a orelha: “não é uma leitura fácil — e ainda bem”. É, no entanto, um dos projetos de livro mais coerentes que se pode encontrar hoje em catálogos de literatura brasileira contemporânea independente: cada escolha formal — os campos de barras entre os contos, a assimetria entre “Elas” e “Eles”, os dípticos que se repetem com conteúdos invertidos — está a serviço de uma única ideia, anunciada já no título e na epígrafe de Dante. Ravinas se atravessam, não se contemplam à distância. Este livro exige o mesmo do leitor.
Resenha produzida para fins de divulgação literária. Trechos do livro não são reproduzidos integralmente, respeitando os direitos autorais da obra e da editora.
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