Resenha: “Eu nunca quis estar aqui”, de S.S. Maisa — o retrato cru de uma mente em colapso
Autora: S.S. Maisa | Editora: Toma Aí Um Poema (TAUP) | Ano: 2026 | Páginas: 202 | ISBN: 978-65-83841-89-6 | Gênero: romance brasileiro contemporâneo, ficção introspectiva
Aviso de conteúdo: este livro trata, de forma intensa e recorrente, de depressão, automutilação e ideação suicida. Esta resenha discute esses temas em nível geral, sem detalhar métodos ou cenas específicas. Se você estiver passando por um momento difícil, saiba que existe ajuda disponível — posso indicar onde buscá-la, é só pedir.
Publicado em março de 2026 pela Toma Aí Um Poema, Eu nunca quis estar aqui é um romance de estreia solo que não pede licença para mergulhar fundo. Narrado em primeira pessoa por Renata, uma adolescente que se define, antes de tudo, pelo que não é — não é bonita como a melhor amiga, não é amada como gostaria, não é, em suas próprias palavras, “o suficiente” —, o livro constrói ao longo de quatro partes um relato cada vez mais claustrofóbico de autodestruição.
Sobre a autora S.S. Maisa
De acordo com a nota biográfica do livro, S.S. Maisa é poeta neomarginal, artista visual, ensaísta, ficcionista e graduanda em Letras pela FFLCH-USP, além de pesquisadora de literatura. Eu nunca quis estar aqui é seu primeiro romance, na sequência de Como É Bom Estar Sozinho, também publicado pela TAUP. Sua obra é descrita como imersa no inconsciente e avessa à linearidade — uma descrição que se confirma logo nas primeiras páginas deste livro, escrito quase inteiramente como um fluxo de consciência confessional.
Quem pesquisa por ficção brasileira sobre saúde mental, literatura confessional sobre depressão ou novas vozes da prosa brasileira contemporânea encontra em S.S. Maisa uma autora disposta a escrever sem filtro sobre um território que a literatura brasileira ainda trata com relativa cautela.
Uma estrutura que segue o próprio colapso
O livro é dividido em quatro partes cujos títulos já anunciam a trajetória emocional da narradora: “Declínio”, “Desequilíbrio”, “Destino” e, por fim, “Declaração”. Não é uma divisão arbitrária — cada parte corresponde a uma fase reconhecível do estado psicológico de Renata, do afastamento progressivo dos amigos na adolescência (“Declínio”) à escalada de comportamentos autodestrutivos e conflitos familiares e escolares (“Desequilíbrio”), passando por uma tentativa real de reconstrução através da terapia (“Destino”), até desembocar em uma seção final construída como uma sequência de cartas de despedida — para sua terapeuta, para a amiga Lorena e para Nicolas, o rapaz por quem se apaixona. É um fechamento deliberadamente ambíguo quanto ao desfecho concreto da personagem, mas de tom inconfundivelmente devastador.
Os eixos temáticos do livro
A comparação obsessiva: Renata e Lorena
O motor emocional do romance é a relação de Renata com Lorena, sua melhor amiga desde a infância. Renata se define, sistematicamente, como “sombra” de Lorena — mais bonita, mais talentosa, mais amada, mais merecedora de tudo o que a vida oferece. Essa comparação obsessiva, que mistura inveja e amor genuíno, é o fio que conecta praticamente todos os capítulos do livro, e o romance é hábil ao mostrar como o ódio que Renata sente por si mesma é constantemente projetado — e ao mesmo tempo escondido — na figura da amiga.
Família, escola e a sensação de não pertencer
Paralelamente, o livro constrói um retrato duro da relação de Renata com a mãe, marcada por gritos, comparação e desqualificação constante, e com o ambiente escolar, que a narradora enxerga como uma máquina de produzir conformidade e meritocracia. Um dos capítulos mais tensos do livro narra um episódio de suspensão escolar após um ato impulsivo de rebeldia — um retrato de como a raiva e o desespero de Renata, sem canal de expressão saudável, acabam explodindo em atos que ela mesma reconhece, depois, como autodestrutivos.
Nicolas: o amor como possibilidade e como ameaça
A relação com Nicolas, colega de escola que se torna seu primeiro amor, é tratada com uma ambivalência muito bem construída: Renata deseja profundamente ser amada, mas também se sabota de forma consistente, convencida de que não merece afeto e de que magoaria qualquer pessoa que se aproximasse o suficiente. É um dos poucos fios de esperança do romance — e também um dos mais dolorosos, porque o livro nunca deixa o leitor esquecer o quanto essa esperança é frágil.
Terapia e a tentativa de reconstrução
Na terceira parte, “Destino”, o romance dá um giro importante: Renata começa terapia com Andressa, e o livro passa a explorar, com relativo cuidado, o processo (lento, não linear, cheio de recaídas) de tentar entender a própria dor em vez de apenas sofrê-la. É a parte mais esperançosa do livro, e também a que melhor demonstra a formação da autora em Letras: há referências explícitas a Albert Camus, Fiódor Dostoiévski, Clarice Lispector e ao mito de Sísifo, usadas não como erudição gratuita, mas como ferramentas que a própria personagem usa para tentar dar sentido ao que sente.
Conteúdo sensível: automutilação e ideação suicida
É importante ser direto sobre isso: Eu nunca quis estar aqui trata de automutilação e pensamento suicida de forma recorrente e intensa ao longo de todo o livro, não como episódios isolados. A seção final, “Declaração”, é construída como uma sequência de cartas de despedida que leem como uma carta de suicídio, embora o texto não confirme explicitamente o desfecho da personagem. Esse tipo de representação literária tem uma longa tradição — de Sylvia Plath a autoras contemporâneas que escrevem sobre saúde mental —, mas exige do leitor uma preparação emocional real. Não é um livro recomendável para leitura em momentos de fragilidade psicológica, e vale a pena que qualquer resenha ou divulgação do título seja honesta quanto a isso.
Estilo: fluxo de consciência e um vocabulário simbólico recorrente
Formalmente, o livro é sustentado por um fluxo de consciência quase ininterrupto, em primeira pessoa, com frases curtas se acumulando em cascata e uma pontuação que imita a respiração ofegante da narradora em momentos de crise. Há uma constelação de imagens simbólicas que se repete ao longo de todo o romance — escuridão, fogo, espelho, abismo, superfície —, funcionando quase como um vocabulário fixo com que Renata tenta nomear estados que, segundo ela mesma, não têm nome. É um recurso que aproxima o livro de discussões sobre ficção confessional em primeira pessoa e prosa poética brasileira contemporânea.
Para quem este livro é indicado
Eu nunca quis estar aqui interessa a leitores de:
- Ficção confessional e introspectiva sobre saúde mental
- Romances de formação (coming-of-age) atravessados por trauma familiar
- Literatura brasileira contemporânea de autoras estreantes
- Quem busca retratos literários da depressão e da terapia, sem filtros
Não é indicado, no entanto, para leitura em momentos de sofrimento psicológico agudo — dado o peso e a recorrência dos temas de automutilação e ideação suicida.
Ficha técnica
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Título | Eu nunca quis estar aqui |
| Autora | S.S. Maisa |
| Editora | Toma Aí Um Poema (TAUP) |
| Edição | 1ª edição, 1ª impressão |
| Publicação | 12 de março de 2026 |
| ISBN | 978-65-83841-89-6 |
| Páginas | 202 |
| Formato | 14 x 21 cm |
| Gênero | Romance / ficção introspectiva |
| Estrutura | 4 partes: Declínio, Desequilíbrio, Destino, Declaração |
| Livro anterior da autora | Como É Bom Estar Sozinho (TAUP) |
Perguntas frequentes sobre “Eu nunca quis estar aqui”, de S.S. Maisa
Sobre o que é o livro Eu nunca quis estar aqui? É um romance confessional narrado em primeira pessoa por uma adolescente que enfrenta depressão, comparação obsessiva com a melhor amiga, conflitos familiares e, ao longo do livro, inicia um processo terapêutico.
Quem é S.S. Maisa? É uma escritora, poeta e artista visual brasileira, graduanda em Letras pela FFLCH-USP, autora de Como É Bom Estar Sozinho e, mais recentemente, de Eu nunca quis estar aqui, ambos pela TAUP.
O livro trata de temas pesados como automutilação e suicídio? Sim, de forma recorrente e central à narrativa. É um livro emocionalmente intenso, recomendado apenas para leitores preparados para esse conteúdo.
O livro tem um final feliz? O livro termina com uma seção chamada “Declaração”, composta por cartas de despedida da narradora. O desfecho é deixado deliberadamente ambíguo, mas o tom é pesado e não oferece uma resolução reconfortante.
Considerações finais
Eu nunca quis estar aqui é uma estreia corajosa, mais interessada em ser honesta sobre a dor psíquica do que em confortar o leitor. S.S. Maisa constrói, com consistência formal rara para uma primeira obra, a voz de uma personagem que se afoga em comparação, raiva e autodesprezo — e que, na parte mais generosa do livro, também tenta, com a ajuda da terapia, encontrar uma saída. É leitura recomendada com os olhos abertos: pela força literária, mas também pelo peso real do que carrega.
Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil e pensamentos de fazer mal a si mesmo, não precisa lidar com isso sozinho.
Resenha produzida para fins de divulgação literária. Trechos do livro não são reproduzidos integralmente, respeitando os direitos autorais da obra e da editora.
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