Pular para o conteúdo
Toma Aí Um Poema
Literatura & Poesia
Quanto vai custar seu projeto editorial? Calculadora gratuita — descubra em menos de 2 minutos, sem precisar falar com ninguém.
Calcular agora

Resenha: “Fragmentos Micro(i)lógicos”, de Tiago Araújo — a literatura como contraponto humano à lógica da máquina

Autor: Tiago Araújo | Editora: Toma Aí Um Poema (TAUP) | Ano: 2026 | Páginas: 118 | ISBN: 978-65-83841-82-7 | Gênero: conto e crônica brasileira contemporânea, ficção experimental

Publicado em março de 2026 pela Toma Aí Um Poema, Fragmentos Micro(i)lógicos chega com uma tese incomum para um livro de estreia: num momento em que a inteligência artificial avança sobre a produção de linguagem, o próprio texto de orelha do livro propõe que a literatura de Tiago Araújo funcione como um contraponto — a palavra “inesperada, improvisada, ilógica e abstrata” que só um sujeito humano é capaz de produzir. É uma aposta ousada, ainda mais vinda de um músico de formação, e o livro cumpre essa proposta menos pela argumentação e mais pela demonstração: são mais de sessenta textos curtos, divididos em cinco seções de registros muito diferentes entre si, que juntos formam uma espécie de mapa da imprevisibilidade humana.

Quem é Tiago Araújo

Antes de escritor, Tiago Araújo é músico. Mineiro de Belo Horizonte, é multi-instrumentista, compositor, bacharel em Música Popular pela UFMG, licenciado em Música e pós-graduado em Filosofia, Ética e Cidadania. Tem quase 200 composições registradas na União Brasileira de Compositores, mais de 30 delas em parceria com o músico mineiro Paulinho Pedra Azul — nome ligado à cena de Minas Gerais que também produziu o Clube da Esquina. Essa raiz é decisiva para entender o livro: a sonoridade de Milton Nascimento, Beto Guedes e Beth Carvalho não é pano de fundo, é matéria-prima recorrente da prosa.

Fragmentos Micro(i)lógicos é sua estreia reunindo contos e crônicas, depois de um primeiro livro de poesia, Cantador de poemas invisíveis e outras coisas. Vale destacar que o conto de abertura do livro, “Acusação”, foi selecionado para a Coletânea 2024 do Prêmio Off-FLIP de Literatura — um dado relevante para quem pesquisa por literatura mineira contemporânea, prosa experimental brasileira ou prêmios literários independentes no Brasil.

Uma arquitetura em cinco movimentos

Se o livro fosse uma composição musical — e há motivos de sobra para lê-lo assim —, suas cinco seções funcionariam como movimentos de registro distinto: “Conta-se” (dezesseis contos), “Fragmentos” (doze prosas-poéticas curtas e numeradas), “Trechos” (dez monólogos confessionais atribuídos a personagens fictícios), “Musicais” (peças centradas em música e linguagem) e “Pensamentos” (ensaios curtos e aforismos). Não há um enredo unificador; o que une o livro é antes uma atitude diante da linguagem — a disposição de deixá-la fugir da lógica sempre que a lógica ameaça se tornar previsível demais, o que dialoga diretamente com a tese anti-algorítmica anunciada na abertura do livro.

“Conta-se”: contos entre o absurdo e a crítica social

A seção de abertura é a mais variada em tom. “Acusação” — o conto premiado — constrói, em segunda pessoa fragmentada, a voz de um narrador que insiste veementemente não ter escrito o que está escrevendo, atribuindo suas obsessões amorosas a uma flor que fala e a testemunhas cósmicas (o sol, a lua, a música), num retrato de delírio que mistura humor negro e genuíno desconforto — um estudo de voz não confiável construído com muita precisão para um conto tão curto.

Outros textos da seção trabalham o registro alegórico: em “A Casa Nua”, uma casa cujos moradores são retratados como quadros vivos é cercada por “juízes” que os condenam de fora, numa fábula sobre julgamento social e sistemas que precisam de loucura para se sustentar. Já “Um Conto” satiriza, com humor escrachado, a cultura da autorrecompensa dentro do capitalismo — um funcionário que sai correndo para “merecer” um lanche fast-food depois de horas extras —, e “O Conto do Calvário” resume em meia página uma crítica ácida ao trabalho como forma de sacrifício.

O ponto alto de estranhamento da seção é “Apartamento 850”: um breve conto quase de horror psicológico, em que o narrador encontra, num elevador, seu próprio duplo com uma expressão de ódio, e a cena termina em um dilúvio de água com cobras e escorpiões — cortada abruptamente, sem resolução, como um pesadelo que se interrompe antes do desfecho. Por outro lado, “Jaime” — narrativa de época sobre um lente-limpador tuberculoso do século XIX cujo neto se torna violinista e depois escritor — mostra que Tiago Araújo também sabe construir, quando quer, uma narrativa redonda e emocionalmente direta.

“Fragmentos”: a lógica que se desfaz

A segunda seção é a que melhor cumpre a proposta do subtítulo do livro. São doze textos curtos, quase todos sem título, assinados apenas com a marca “(Fragmentos)” ao final — miniaturas que abandonam causalidade e narrativa linear em favor da imagem pura. Um dos mais bem-sucedidos narra uma caminhada em que a calçada muda de material a cada esquina — vira piso de mercado, depois cerâmica, depois areia —, um efeito quase escheriano de realidade instável, que termina com o narrador tomando banho de mangueira “sem olhar para baixo”, como quem finalmente aceita a instabilidade do mundo em vez de tentar controlá-la. Outro fragmento constrói uma fábula filosófica entre personagens alegóricos — o “Sr. Ontem” e o “jovem Amanhã”, ambos perseguindo o “indômito Hoje” — para meditar sobre a natureza do tempo sem nunca nomeá-la diretamente.

“Trechos”: confissões que se desmontam sozinhas

Uma das seções mais afiadas do livro é “Trechos”, uma sequência de falsos depoimentos atribuídos a personagens fictícios, quase todos sob o título irônico “Confissões Coerentes” — irônico porque, quanto mais os personagens falam, mais revelam a própria incoerência. “Guilherme Zirky” é um retrato devastador de complacência de classe média alta, num monólogo que desliza, sem que o personagem perceba, de orgulho conjugal para desprezo casual por quem depende de transporte público. “Relato de Juliano Alves” satiriza a positividade tóxica das redes sociais — alguém que compartilha frases motivacionais para parecer fonte de felicidade alheia, mas se recusa a oferecer companhia real a quem sofre. Já “IX (Legeoriv)” é o texto mais especulativo do livro: uma distopia breve em que, dentro de poucos anos, toda a inteligência humana passará a depender de vídeos de autoajuda selecionados por uma entidade algorítmica batizada de “Ford”, instaurando um esquecimento coletivo perpétuo — uma das ironias mais afiadas do livro, considerando a tese anti-IA anunciada logo na orelha.

“Musicais”: quando o escritor é, antes, músico

É nesta seção que a formação de Tiago Araújo aparece de forma mais explícita — e mais divertida. “T.O.C. de amigo” e as duas partes de “Aula de música” são diálogos cômicos construídos inteiramente a partir de vocabulário musical: um amigo que pensa em colcheias e semicolcheias até para cair no chão, um aluno que insiste em batizar as notas musicais com nomes de pessoas, criando, através da primeira sílaba de cada nome, uma frase escondida — humor de compositor, construído com o mesmo cuidado técnico de uma partitura.

O texto mais ambicioso da seção, e um dos mais longos do livro, é “Um Conto de H-Fieira”: a história de Hudson “Bebê” Bonfiglio, morador de uma cidade do interior, traído por dois irmãos boêmios que o levam a se humilhar diante de uma moça numa festa de gafieira. É uma narrativa de fôlego regional, cheia de calor humano, que se destaca por um recurso quase de caça ao tesouro: dezenas de expressões capitalizadas no meio do texto — “Casa Torna”, “Anos Dourados”, “Nasci para Bailar”, entre outras — funcionam como referências disfarçadas a títulos de canções e expressões da música popular brasileira, num mosaico que só se revela a quem conhece bem esse repertório. O conto termina com o pai de Bebê ouvindo, na radiola, Beth Carvalho — fechamento que ancora toda a seção musical na tradição do samba.

“Pensamentos”: do autobiográfico ao ilegível por escolha

A seção final reúne ensaios curtos, aforismos e memórias. “Viagem pra Sampa…” é o texto mais claramente autobiográfico do livro: um relato de juventude sobre a primeira viagem sozinho a São Paulo aos 19 anos, carregando um baixo Ibanez e um livro sobre Raul Seixas, visitando lojas de instrumentos na Rua Theodoro Sampaio e admirando de longe um trio de jazz — um retrato de formação artística que ancora o restante do livro numa biografia real.

Dois textos chamam atenção por um recurso raríssimo em literatura brasileira independente: títulos escritos em escritas não latinas — aparentemente panjabi (“ਨਿਹਿਤ”, algo como “inerente” ou “incorporado”) e amárico (“ትርጉሙን ፈልገው ነው?”, que se aproximaria de “você está procurando o seu significado?”). O segundo desses textos é também o mais politizado do livro, endereçando diretamente a herança colonial e o neocolonialismo contemporâneo, num tom de resistência que contrasta com o humor predominante do restante da obra. É um gesto formal que reforça, de novo, a tese central do livro: fugir da previsibilidade, inclusive tipográfica.

O livro se fecha com homenagens discretas — sem citação direta de versos, por respeito ao direito autoral das canções — a Carlos Drummond de Andrade e a Milton Nascimento (cujo apelido, Bituca, também nomeia, de forma bem-humorada, a universidade fictícia mencionada na biografia do autor), reforçando o quanto a obra de Tiago Araújo é, ao mesmo tempo, literária e musical, mineira e universal.

Estilo: absurdismo, sátira e improviso

O traço estilístico mais consistente do livro é a recusa da previsibilidade narrativa — contos que terminam sem resolução, fábulas que trocam personagens humanos por conceitos abstratos, diálogos cômicos construídos a partir de jargão técnico musical. Há também uma veia satírica afiada, sobretudo na seção “Trechos”, mirando a positividade tóxica, o consumismo compensatório e a complacência de classe média. E há, por fim, um lastro afetivo e regional consistente — a saudade de Minas Gerais, a música popular brasileira, memórias de avós e de infância — que evita que o livro se perca inteiramente na abstração. Quem pesquisa por literatura e improviso, prosa poética experimental brasileira ou ficção brasileira inspirada em jazz encontra aqui um caso de estudo bastante direto.

Para quem este livro é indicado

Fragmentos Micro(i)lógicos interessa especialmente a leitores de:

  • Contos e crônicas experimentais, fora do modelo narrativo convencional
  • Literatura mineira contemporânea e ficção ligada à música popular brasileira
  • Sátira social sobre redes sociais, consumismo e cultura da positividade
  • Fábulas absurdas e prosa poética fragmentária
  • Quem se interessa pelo debate sobre criatividade humana versus inteligência artificial na literatura

Ficha técnica

ItemDetalhe
TítuloFragmentos Micro(i)lógicos
AutorTiago Araújo
EditoraToma Aí Um Poema (TAUP)
Edição1ª edição, 1ª impressão
Publicação6 de março de 2026
ISBN978-65-83841-82-7
Páginas118
Formato13 x 18 cm
GêneroConto e crônica
Estrutura5 seções: Conta-se, Fragmentos, Trechos, Musicais, Pensamentos
Prêmio relacionadoConto “Acusação” selecionado para a Coletânea 2024 do Prêmio Off-FLIP de Literatura
Livro anterior do autorCantador de poemas invisíveis e outras coisas

Perguntas frequentes sobre “Fragmentos Micro(i)lógicos”, de Tiago Araújo

Sobre o que é o livro Fragmentos Micro(i)lógicos? É uma coletânea de contos, crônicas e textos curtos que exploram o absurdo, a sátira social e a musicalidade da linguagem, organizada em cinco seções de registros distintos.

Quem é Tiago Araújo? É um músico e escritor mineiro, multi-instrumentista, compositor com quase 200 músicas registradas, e autor de Cantador de poemas invisíveis e outras coisas. Fragmentos Micro(i)lógicos é seu primeiro livro de contos e crônicas, pela editora TAUP.

O título do livro tem algum significado especial? Sim — “Micro(i)lógicos” é um trocadilho entre “micrológicos” (observações em pequena escala) e “microilógicos” (pequenas ilogicidades), resumindo a proposta do livro de valorizar a palavra humana imprevisível diante do avanço da inteligência artificial.

O livro tem relação com música? Sim, de forma central. O autor é músico profissional, e há uma seção inteira (“Musicais”) dedicada a textos construídos a partir de linguagem musical, além de homenagens a artistas como Beth Carvalho e Milton Nascimento ao longo do livro.

Algum texto do livro já recebeu reconhecimento? Sim — o conto “Acusação”, que abre o livro, foi selecionado para a Coletânea 2024 do Prêmio Off-FLIP de Literatura.

Considerações finais

Fragmentos Micro(i)lógicos é uma estreia generosa em variedade e consistente em atitude: em cada uma de suas cinco seções, Tiago Araújo testa um jeito diferente de fazer a linguagem escapar do previsível, seja através do absurdo, da sátira, do jogo musical ou da escrita em alfabetos alheios ao português. É um livro que reivindica, com humor e sem grandiloquência, o valor daquilo que uma máquina lógica dificilmente produziria: a palavra que hesita, erra o tom de propósito, e ainda assim comove.


Resenha produzida para fins de divulgação literária. Trechos do livro não são reproduzidos integralmente, respeitando os direitos autorais da obra e da editora.

Compartilhar
WhatsApp

Loja TAUP

Continue com a TAUP

Livros e publicações da nossa loja para continuar a leitura depois deste post.

Ver loja →

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *