Resenha: “Azul”, de Erich Bias — o dicionário íntimo de um coração partido
Autor: Erich Bias | Editora: Toma Aí Um Poema (TAUP) | Ano: 2026 | Páginas: 70 | ISBN: 978-65-83841-93-3 | Gênero: poesia brasileira contemporânea, poesia confessional, poesia sobre o fim de um amor
Publicado em março de 2026 pela editora independente Toma Aí Um Poema, Azul é um livro que se lê como quem folheia um dicionário particular — só que, em vez de definições, cada palavra abre uma ferida. Erich Bias organiza sua segunda obra em cerca de 50 poemas curtos, cada um batizado por uma única palavra — “saudade”, “medo”, “cinza”, “fogo”, “azul” — formando algo como um glossário sentimental do luto amoroso.
Quem é Erich Bias
Erich Bias Remiz é assistente social e escritor. Azul é seu segundo livro pela TAUP, na sequência de Poemas tristes, dias nublados, sentimentos escassos — título que já anuncia a linhagem temática de sua obra. Na nota final do livro, o autor explica que a maior parte dos poemas nasceu “enquanto o coração se desfazia por dentro”, o que reforça o caráter confessional e biográfico da escrita. O livro é dedicado à avó do autor, Vó Ismênia — um gesto de afeto familiar que contrasta, de forma tocante, com o tom predominantemente doloroso dos poemas sobre amor romântico que o seguem.
Quem pesquisa por poesia brasileira sobre fim de relacionamento, poesia confessional masculina ou poesia sobre solidão e saudade encontra em Erich Bias uma voz que não tem pudor de expor a dor de frente, sem ironia e sem distanciamento.
Um dicionário do coração partido
A escolha estrutural mais marcante de Azul é o sumário: cada um dos cerca de 50 poemas do livro é identificado por uma única palavra, quase sempre um substantivo concreto ou abstrato — “borboleta”, “flecha”, “viveiro”, “ouroboros”, “aquário”, “albatroz”, “sequoia”, “chumbo”, “tango”. Lidas em sequência, essas palavras formam um índice emocional: uma espécie de dicionário pessoal em que cada verbete é, na verdade, uma cicatriz. Esse formato aproxima o livro de uma tradição de poesia-glossário e de poemas em série organizados por palavra-chave, dando ao leitor a sensação de folhear não um livro de poesia convencional, mas um caderno de anotações emocionais catalogadas.
Os eixos temáticos do livro
O amor que já não é: ausência, espera e memória
Grande parte de Azul gira em torno de uma ausência específica — um amor que terminou, mas cuja lembrança insiste em não ir embora. Poemas como “saudade”, “elefante” e “clareou” tratam da espera por alguém que não vai voltar, da tentativa de deixar o passado seguir seu curso e da dificuldade de desejar outra coisa que não seja o reencontro. Em “ultraleve”, há um raro momento de leveza — a lembrança de um instante perfeito, quase suspenso no tempo —, mas mesmo esse alívio vem cercado pela consciência de que o momento já passou.
O silêncio e a dificuldade de dizer
Outro eixo importante é a tensão entre o que se sente e o que se consegue dizer. Em “hiato”, um dos poemas mais longos e mais bem construídos do livro, a voz poética hesita entre escrever e falar, entre insistir e desistir, encerrando com a ideia de que “a solidão é um conforto” que insiste em visitar quem já não sabe mais como amar sem sofrer. Já “tolices” e “oblíquo” tratam da dificuldade de reduzir um sentimento imenso a frases pequenas — como se um simples “eu te amo” nunca fosse suficiente.
O corpo da dor: coração, pulso e respiração
Azul usa o corpo, e sobretudo o coração e a respiração, como vocabulário quase clínico da dor emocional — um recurso que aparece em outros títulos da TAUP e parece ser uma linguagem comum a essa geração de poetas da editora. O poema mais emblemático nesse sentido é “(c)oração”, cujo próprio título já é um jogo de palavras: lido com o “c”, é “coração”; sem ele, é “oração” — sentença, mas também prece. É o poema em que o autor mais explicita sua poética: escrever mesmo sabendo que talvez ninguém leia, entregar os versos como relicário, transformar o amor em memória póstuma através da própria escrita. Poemas como “fôlego”, “pulso” e “hausto” (palavra rara do português para “respiração profunda” ou “gole”) continuam essa mesma linha, tratando o ato de respirar e de sentir o próprio pulso como formas de medir, literalmente, a sobrevivência ao luto amoroso.
Bestiário e natureza como metáfora emocional
Chama atenção o uso de um pequeno bestiário e de imagens da natureza para nomear estados emocionais: a “borboleta” do poema de abertura, cujo bater de asas ecoa como sopro de vida em meio à agonia; o “albatroz”, ave associada ao peso e ao augúrio; a “sequoia”, árvore centenária usada como metáfora da fragilidade da vida apesar de sua aparência de permanência; e o “ouroboros”, símbolo alquímico da serpente que devora o próprio rabo, aqui aplicado à mentira que se repete tantas vezes que quase se torna verdade. Esse recurso aproxima o livro de uma tradição de poesia simbolista e imagética, na qual animais e elementos naturais funcionam como emblemas de estados internos.
Materiais e cores: a paleta emocional do livro
Assim como o título sugere, cor e material são parte importante do vocabulário de Azul. “Furta-cor”, “platina”, “chumbo” e “cinza” funcionam como adjetivos emocionais — o peso do chumbo para o amor confinado no peito, o cinza para a névoa dos sentimentos, o furta-cor para a beleza ilusória e incompleta de um sorriso. O poema-título, que fecha o livro, resume essa lógica: escrever é o que resta quando não se consegue amar, e os versos, no fim, “se perdem entre o branco e o azul” — a página em branco e a cor que, segundo o texto de orelha, “separa dois corações que um dia estiveram destinados a se encontrar”.
O enigma de “bratislava”
Em meio a um vocabulário majoritariamente abstrato, um título chama atenção por destoar completamente dos demais: “bratislava”, nome da capital da Eslováquia. É o único topônimo de todo o livro, e o poema que o acompanha fala em sentir-se nu, completamente sozinho, e em vozes que ecoam no fundo do coração mesmo à distância. Sem qualquer explicação no restante do livro, o poema funciona como uma pista deixada de propósito — um lugar específico e não nomeado de outra forma, que sugere uma memória concreta por trás da abstração do resto da obra. É um dos momentos mais intrigantes do livro justamente por quebrar o padrão que ele mesmo estabelece.
Estilo: brevidade, pontuação expressiva e vocabulário emocional repetido
Do ponto de vista formal, os poemas de Azul são curtos, escritos em versos livres e quase sempre em primeira pessoa, sem grandes rebuscamentos sintáticos. Há um uso expressivo de travessões, parênteses e reticências para marcar hesitação, pausa ou sussurro dentro do próprio verso — como em “sem esse sentimento / que me mantém / vivo e solitário”, ou nos parênteses que isolam uma palavra como um parêntese emocional dentro da frase. Palavras como “vazio”, “silêncio” e “solidão” funcionam quase como um baixo contínuo que atravessa o livro inteiro, dando unidade a poemas que, isolados, poderiam parecer dispersos.
Vale registrar que Azul não amortece a intensidade do sofrimento que retrata: é um livro que fala com franqueza sobre desespero, ausência de sentido e vontade de que a dor simplesmente pare — características que também aproximam a obra de discussões contemporâneas sobre poesia confessional e saúde emocional. É, por isso, um livro mais indicado a leitores preparados para mergulhar fundo nesse tipo de intensidade.
Para quem este livro é indicado
Azul interessa especialmente a leitores de:
- Poesia confessional sobre términos de relacionamento e luto amoroso
- Poesia curta e imagética, com forte uso de metáforas da natureza
- Quem gosta de livros organizados como glossários ou séries temáticas
- Poesia brasileira contemporânea de tom intimista e introspectivo
Ficha técnica
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Título | Azul |
| Autor | Erich Bias (Erich Bias Remiz) |
| Editora | Toma Aí Um Poema (TAUP) |
| Edição | 1ª edição, 1ª impressão |
| Publicação | 12 de março de 2026 |
| ISBN | 978-65-83841-93-3 |
| Páginas | 70 |
| Formato | 15 x 21 cm |
| Estrutura | cerca de 50 poemas curtos, cada um com título de uma única palavra |
| Livro anterior do autor | Poemas tristes, dias nublados, sentimentos escassos (TAUP) |
Perguntas frequentes sobre “Azul”, de Erich Bias
Sobre o que é o livro Azul? É uma coletânea de poemas curtos sobre o fim de um relacionamento amoroso, a saudade, a solidão e a tentativa de sobreviver à dor através da escrita.
Quem é Erich Bias? É um escritor e assistente social brasileiro, autor de Poemas tristes, dias nublados, sentimentos escassos e, mais recentemente, de Azul, ambos pela editora TAUP.
Por que os poemas do livro têm títulos de uma palavra só? Porque o livro é organizado como uma espécie de dicionário emocional: cada palavra-título (saudade, medo, cinza, fogo, azul) nomeia um estado de espírito específico relacionado ao luto amoroso.
O que significa o título Azul? Segundo o próprio livro, o azul representa “aquilo que separa dois corações que um dia estiveram destinados a se encontrar” — a cor da distância entre quem já não está junto.
Considerações finais
Azul é um livro que não tem pressa de se explicar nem de suavizar o que sente. Ao transformar cada estado emocional em uma palavra isolada — quase um verbete —, Erich Bias cria um dicionário particular do luto amoroso, onde borboletas, ouroboros, chumbo e uma cidade distante como Bratislava dividem espaço com o vocabulário mais direto da dor: saudade, medo, vazio. É, antes de tudo, um livro sobre escrever como forma de sobreviver ao silêncio que alguém deixou.
Resenha produzida para fins de divulgação literária. Trechos do livro não são reproduzidos integralmente, respeitando os direitos autorais da obra e da editora.
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