Resenha: “Degraus para o Espaço”, de @Cyro Eduardo — poesia entre o concreto, o cosmos e o niilismo esperançoso
Autor: @Cyro Eduardo | Editora: Toma Aí Um Poema (TAUP) | Ano: 2026 | Páginas: 86 | ISBN: 978-65-6196-010-6 | Gênero: poesia brasileira contemporânea, poesia urbana
Publicado em maio de 2026 pela editora independente Toma Aí Um Poema, Degraus para o Espaço é a estreia de @Cyro Eduardo em livro solo — e chega com o gás de quem tem muito o que dizer e não tem medo de dizer de várias formas ao mesmo tempo. Em 86 páginas, o autor transita da crônica existencial ao trocadilho fonético, da crítica social ao poema-homenagem, sempre sob o mote anunciado no prefácio de Elisa Ribeiro: uma escada metafórica em que “cada degrau é um fragmento de sua percepção do mundo”.
Quem é @Cyro Eduardo
Nascido em Mauá, no ABC paulista, em 9 de junho de 1984, @Cyro Eduardo é descrito na orelha do livro como poeta carioca — “forjado entre o concreto das calçadas e o sal da praia” —, e essa dupla origem (nascimento paulista, formação carioca) talvez explique o trânsito constante do livro entre o asfalto urbano e a praia, entre o cotidiano mais duro e o lirismo mais solto. O autor se autodefine como um “primata esperançoso”: a expressão resume bem o tom do livro, que mistura ironia, niilismo e uma vontade genuína de encontrar sentido — ou ao menos boa companhia — em meio ao caos.
O próprio nome do autor, grafado com arroba (@Cyro Eduardo), já sinaliza uma sensibilidade formada na cultura digital — algo que reaparece dentro do livro, no poema “Moderno”, que fala em “metaverso” e “outras línguas” vistas à distância de uma tela. Quem pesquisa por poesia carioca contemporânea, poesia urbana brasileira ou novos poetas independentes 2026 encontra em @Cyro Eduardo uma voz de estreia com personalidade já bem definida.
Um mapa em quatro degraus
Degraus para o Espaço é organizado em quatro seções, apresentadas por um “Mapa” que já entrega o tom brincalhão do livro: as seções são numeradas de forma propositalmente inconsistente — “A- De: há tempo?”, “2- Para: onde mesmo?”, “Três- Enquanto isso: Palavras Sentidas”, “IV- Lembrei de alguém” —, misturando letra, algarismo, número por extenso e numeral romano na mesma lista. É um detalhe pequeno, mas revelador: o livro não segue uma lógica única, e sim uma sequência de registros que se alternam como degraus de tamanhos diferentes.
De: há tempo? — corpo, memória e o humor diante da finitude
A primeira seção mede o peso do tempo sobre o corpo e a memória. Abre com “Depois do Fim”, um poema que descreve, com delicadeza dolorosa, a perda progressiva da memória e do próprio nome — um retrato da velhice e possivelmente do declínio cognitivo, que termina com o desejo de que o fim seja também um começo. Em “Calcáreo Mórbido”, a morte é tratada como processo geológico, o corpo comparado a rocha e cascalho até virar “pá, pó”. Já “Panela” transforma um objeto doméstico prosaico — como antecipa o próprio prefácio do livro — em metáfora de utilidade e descarte: celebrada quando cheia, esquecida e enferrujada quando velha.
O ponto alto cômico da seção é “Infalível”, um poema sobre queda de cabelo que evolui, através de um jogo de palavras entre “falo” e “falho”, para uma reflexão sobre masculinidade desconstruída — fechando com o trocadilho “Homem sem h.” Esse tipo de humor verbal, que aparece várias vezes ao longo do livro, é uma das assinaturas mais fortes de @Cyro Eduardo.
Para: onde mesmo? — da cidade ao cosmos
A segunda seção começa em terra firme — mais precisamente no Rio de Janeiro. “Nuvens sem Sol” é o poema mais politizado e socialmente engajado do livro até aqui: fala da cidade “linda” que também chora, da violência urbana, da desigualdade e de uma herança colonial ainda presente (“Lusitana África”). É um poema que dialoga diretamente com a tradição da poesia urbana carioca e da poesia de crítica social sobre o Rio de Janeiro.
Da cidade, o livro literalmente sobe: “Mansão Frugal” ironiza a vida em um apartamento pequeno e alugado chamando-o de mansão; “Perfeição” narra a história de duas casas geminadas que crescem, acolhem gerações de uma família e depois são vendidas e repintadas — um poema breve sobre memória afetiva e perda do lar. Só então o livro decola de fato: “Amor Retrógrado” usa o movimento retrógrado dos planetas como metáfora para uma paixão que confunde a lógica do tempo; “Sua Querida Terrinha” dá voz à própria Terra; e “Inóspito” — um dos poemas mais originais do livro — parece ser narrado por uma lua distante, gelada e desabitada, girando em torno de um gigante gasoso, numa alegoria sofisticada sobre isolamento e não pertencimento. É aqui que o título do livro se cumpre com mais literalidade: os degraus, de fato, vão da rua ao espaço.
Enquanto isso: Palavras Sentidas — vício, jogo verbal e crítica social
A seção mais extensa e mais heterogênea do livro mistura três registros que, à primeira vista, parecem não combinar, mas que o autor amarra pelo comum apreço à linguagem. De um lado, poemas de virtuosismo verbal puro, como “Acho que não sei” (uma sequência de pares de palavras raras e sonoras) e “Bet dos Bichos” (que brinca foneticamente com os nomes de animais do jogo do bicho, quebrando palavras como “orangotango” em sílabas que formam frases novas). De outro, uma sequência de poemas sobre vícios cotidianos — álcool (“Cachaça no Oásis”, “Goró”, “Radicais Livres”), jogo (“Pão”, com sua imagem da roleta em que “a banca leva”), compulsão alimentar e tédio (“Fastio”) —, todos tratando o vício menos como tema moralizante e mais como ciclo humano de fuga e retorno: “não consigo escapar de mim mesmo”, diz o eu lírico em “Fuga”.
Nessa seção também aparece o poema mais explicitamente político do livro, “O Ogro e o Troglodita”, uma alegoria sobre invasão e divisão social — “metade apoiou, metade defendeu o nosso Ogro” —, que capta o clima de polarização sem nomear diretamente nenhum episódio específico. Já “O Malandrão” e “Inomináveis” (este último, uma lista corrida de nomes brasileiros comuns — Omar, Luísa, Márcia, Maria “da dor”, entre tantos outros — que ora soam anônimos, ora ecoam nomes públicos conhecidos) reforçam o interesse do livro pelas vidas ordinárias e pela ambiguidade entre o pessoal e o coletivo.
Lembrei de alguém — homenagens à cultura brasileira
A seção final muda de tom: é dedicada à memória afetiva, sobretudo através de homenagens à música e à poesia brasileiras. “Praia do Caju” cita diretamente o poeta Ferreira Gullar; “De Bocage à Cazuza” une o poeta português Bocage e o compositor brasileiro Cazuza como símbolos de uma poesia irreverente e visceral atravessando séculos; “Assunção da Vanguarda” faz um jogo de trocadilhos que evoca o músico Arrigo Barnabé e sua música “dodecafônica”; e poemas como “Tim” (com seu “Tim-Tim” que também é brinde) e “Legião” parecem prestar tributo a ícones da música popular brasileira, sem necessariamente nomeá-los de forma explícita — um recurso que transforma a homenagem em quase-adivinhação para quem conhece a cultura musical brasileira. “Pérola do Estácio” homenageia a tradição do samba nascida naquele bairro carioca, berço histórico das primeiras escolas de samba. A seção — e o livro — se encerra em “Avós e Uvas”, sobre a herança dos avós imigrantes portugueses, e no brevíssimo poema de uma linha, “Fui.”, seguido de uma nota de agradecimento informal que rompe a quarta parede e de um posfácio chamado “Furdunço”, em tom de bilhete de despedida entre amigos — um gesto pouco convencional que aproxima o livro de um diário de festa compartilhado, e reforça a sensação de que se está lendo não apenas poesia, mas também um pedaço de vida.
Estilo: entre o trocadilho e a crônica existencial
O que mais marca o estilo de @Cyro Eduardo é a variedade de registros dentro de um mesmo projeto de livro: há poemas em versos livres e longos, ao lado de poemas quase telegráficos, feitos de palavras soltas empilhadas em listas. Há também um gosto evidente por jogos fonéticos, neologismos e trocadilhos (“Infalível”/”falhível”, “Bet dos Bichos”, “plúmbeo”/”Zepelim”), o que aproxima o livro de uma tradição de poesia humorística brasileira e de poesia com wordplay, sem abandonar, nos momentos mais sóbrios, um lirismo genuíno sobre tempo, perda e pertencimento.
Para quem este livro é indicado
Degraus para o Espaço interessa especialmente a leitores de:
- Poesia urbana e carioca contemporânea
- Poesia com humor, ironia e jogos de linguagem
- Poesia que mistura crítica social com especulação cósmica
- Homenagens poéticas à música popular brasileira (samba, MPB, rock nacional)
- Estreias de poetas independentes publicados por pequenas editoras
Ficha técnica
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Título | Degraus para o Espaço |
| Autor | @Cyro Eduardo |
| Editora | Toma Aí Um Poema (TAUP) |
| Edição | 1ª edição, 1ª impressão |
| Publicação | 15 de maio de 2026 |
| ISBN | 978-65-6196-010-6 |
| Páginas | 86 |
| Formato | 14 x 21 cm |
| Estrutura | 4 seções: “De: há tempo?”, “Para: onde mesmo?”, “Enquanto isso: Palavras Sentidas”, “Lembrei de alguém” |
| Prefácio | Elisa Ribeiro |
Perguntas frequentes sobre “Degraus para o Espaço”, de @Cyro Eduardo
Sobre o que é o livro Degraus para o Espaço? É uma coletânea de poesia dividida em quatro seções que passam por memória e envelhecimento, crítica social e especulação cósmica, vícios cotidianos e jogos de linguagem, e homenagens à cultura musical brasileira.
Quem é @Cyro Eduardo? É um poeta nascido em Mauá (SP) em 1984, radicado no Rio de Janeiro, que se define como um “primata esperançoso” de olhar niilista, porém vibrante. Degraus para o Espaço é sua estreia em livro solo pela editora TAUP.
Por que o livro se chama Degraus para o Espaço? Porque a obra é estruturada como uma escada metafórica: cada seção é um “degrau” de percepção, que vai do concreto urbano e do corpo até especulações cósmicas sobre planetas, luas e o próprio universo.
O livro tem poemas políticos? Sim — poemas como “Nuvens sem Sol” e “O Ogro e o Troglodita” tratam, respectivamente, de desigualdade urbana no Rio de Janeiro e de polarização e divisão social, de forma alegórica.
Considerações finais
Degraus para o Espaço é uma estreia generosa e sem medo de contradições: transita do humor ao luto, do trocadilho descartável ao verso que dói, do concreto da calçada ao vácuo entre planetas. @Cyro Eduardo constrói, com essa variedade, um retrato bastante honesto de como é pensar o mundo hoje — em fragmentos, entre o café da manhã e o vinho derramado, sempre tentando, como diz o próprio autor, fazer o barco flutuar mesmo quando a banca insiste em levar tudo.
Resenha produzida para fins de divulgação literária. Trechos do livro não são reproduzidos integralmente, respeitando os direitos autorais da obra e da editora.
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