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Toma Aí Um Poema
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Resenha: “Delicadeza”, de Cynara Novaes — a poesia do miúdo, do coração e do que resta em silêncio

Autora: Cynara Novaes | Editora: Toma Aí Um Poema (TAUP) | Ano: 2026 | Páginas: 228 | ISBN: 978-65-83841-87-2 | Gênero: poesia brasileira contemporânea, poesia confessional

Publicado em março de 2026 pela editora independente Toma Aí Um Poema, Delicadeza é um livro que aposta tudo na miniatura. Em 228 páginas de formato quadrado (15 x 15 cm), a poeta baiana Cynara Novaes reúne mais de duzentos poemas curtos, numerados e sem título, que funcionam quase como um rosário de instantes: pequenas epifanias sobre o cotidiano, o corpo, o amor que se desfaz e a solidão que se aprende a habitar. É um livro que não grita — como diz o texto de orelha, “sussurra, e atravessa”.

Quem é Cynara Novaes

Nascida em Nova Viçosa, Bahia, em 13 de março de 1969, Cynara Novaes escreve poesia desde os nove anos de idade. Sua trajetória literária não é recente: publicou Interiores em 1994, com apoio do CNPq, gravou o CD Azul em 2000 — dando voz cantada à própria poesia — e lançou A Cor da Infância e Carta Poema em 2015. Integra ainda coletâneas como Novos Valencianos, a Antologia Poética do Trabalhador da Indústria, a 60ª Antologia Poética de Escritores Contemporâneos da Câmara Brasileira de Jovens e a Antologia Poética – Bardos Baianos (2023). Atualmente vive em Teixeira de Freitas, na Bahia.

Um detalhe biográfico ilumina o livro inteiro: Cynara se define, na orelha e no próprio texto, como “costureira de palavras”. Essa autoimagem não é decorativa — é a chave estética de Delicadeza, um livro em que agulha, linha, tecido e ponto aparecem como metáforas recorrentes para o próprio ato de escrever. Quem pesquisa por poesia baiana contemporânea, poetisas brasileiras dos anos 1990 em diante ou poesia confessional feminina encontra em Cynara Novaes uma voz de trajetória consolidada, que ganha agora, com a TAUP, uma nova casa editorial.

Um livro sem capítulos: a poética do fragmento numerado

A primeira coisa que salta aos olhos em Delicadeza é a ausência de sumário, títulos ou divisões temáticas. São mais de duzentos poemas, a maioria de três a dez versos, identificados apenas por número — como páginas de um diário, contas de um terço ou fichas soltas de um arquivo íntimo. Essa escolha formal dialoga com uma tradição de poesia fragmentária e de micropoesia contemporânea, mas em Cynara ganha um sentido particular: o de que a vida — como sugere o próprio texto de abertura — “não avisa”, chega em fragmentos, “nos intervalos, no respiro das vírgulas”. Não há arco narrativo explícito a seguir; há, isso sim, uma temperatura emocional que vai se acumulando, poema a poema, como quem lê uma sequência de bilhetes deixados por alguém que já não está.

O fio condutor: a metáfora da costura

Se há uma imagem que amarra o livro do primeiro ao último poema, é a da costura. Logo cedo, um poema define a escrita como “o tecido, a fazenda, o pano”, e a costura como “a viagem da agulha”. Mais adiante, uma personagem “costurou por toda vida, unindo, desfazendo para refazer, emendando”, e o próprio tempo, num dos poemas finais, aparece como quem “desalinhavou” a vida e depois “bordou rugas” no corpo. É um recurso coerente com a formação simbólica da autora: cada poema pequeno é, ele mesmo, um ponto de costura — uma tentativa de unir o que a vida rasgou.

Essa coerência estrutural culmina no poema de número 225, o último do livro, que só ali revela o título: um gesto “fino, como uma fatia de vento” que alguém chama de delicadeza. É uma estratégia editorial elegante — guardar a palavra-título para o fecho, como quem revela, só no final, o nome do ponto que costurou todos os outros.

O coração como linguagem

No texto de abertura, a editora Mabelly Venson observa que, em Delicadeza, “o coração, presença constante em seus versos, é menos um órgão e mais um instrumento de linguagem” — e a leitura confirma a tese. O livro está repleto de vocabulário clínico-cardíaco: mesas de cirurgia, cateterismos, stents, arritmias, palpitações, anestesias. Um dos poemas mais marcantes narra um diálogo com um médico que recomenda a colocação de stents nas artérias; a resposta da voz poética — pedindo que as obstruções permaneçam, porque foram construídas para proteger o centro do próprio coração — resume bem o tom do livro: a dor física e a dor afetiva se confundem o tempo todo, e adoecer do coração é, aqui, sempre ambíguo — nunca se sabe se é o músculo ou o sentimento que está em jogo.

Esse vocabulário aproxima Delicadeza de discussões sobre poesia e corpo, poesia sobre doença e mortalidade e poesia confessional brasileira, ao mesmo tempo em que evita o sentimentalismo fácil: a dor aparece quase sempre em imagens concretas e domésticas, nunca em grandes declarações.

A poética do miúdo: açúcar, poeira e o que cabe na palma da mão

Outro eixo forte do livro é a valorização do minúsculo. Logo no segundo poema, a autora define sua matéria-prima: “essas coisas delicadas, pequeninas, miúdas… são o sumo da vida”. Ao longo do livro, açúcar, poeira sobre o guarda-louças, um vaso azul, capinhas de liquidificador e contas de luz pagas dividem espaço, em pé de igualdade, com temas como abandono, solidão e luto. É uma escolha estética que dialoga com uma tradição brasileira de poesia do cotidiano e da atenção às coisas mínimas, na qual o gesto doméstico — dobrar cobertas, guardar a chave, limpar a cozinha — vira também gesto poético e, muitas vezes, gesto de despedida.

Solidão, casa e autossuficiência

Um dos fios emocionais mais consistentes de Delicadeza é a construção progressiva de uma voz que aprende a morar em si mesma. Poemas como aquele em que a voz afirma que a cadeira, o prato, o talher e a casa eram de outra pessoa, “mas eu, não. Eu era minha”, ou o que declara morar em si “porque só eu tenho a chave”, constroem um contraponto à dor do abandono presente em tantos outros poemas do livro. Não é uma solidão romantizada, mas também não é só lamento: é, aos poucos, uma forma de autonomia conquistada à força de perdas.

Maria e o coro de mulheres

Um recurso curioso do livro é o aparecimento recorrente do nome “Maria” — ora como personagem específica, em pequenas narrativas de dor e silêncio, ora como parte de uma enumeração coral: um poema reúne os nomes Maria, Lúcia, Angela, Rita e Diana como sinônimos de “dores de toda tarde” e “cansaço de todas as noites”. O efeito é o de um coro anônimo de mulheres — mães, avós, vizinhas — cujo sofrimento cotidiano se repete de geração em geração. É um dos pontos em que Delicadeza se aproxima de discussões sobre poesia e trabalho doméstico feminino e poesia sobre maternidade e cansaço, sem nunca nomear diretamente essas pautas — elas emergem da imagem, não do discurso.

Estilo: economia, repetição e o silêncio como sintaxe

Do ponto de vista formal, Delicadeza investe em versos curtos, vocabulário simples e figuras de repetição — anáforas, listas, quase-refrões — que dão ao livro um efeito quase de cantiga ou reza baixinha. Há também poemas que brincam com o próprio idioma: um deles atravessa cinco línguas diferentes para dizer “medo”; outro celebra o simples som da palavra “Piemonte” como se fosse uma declaração de amor. Mas talvez o traço estilístico mais forte do livro seja o uso do silêncio como tema e como forma — dezenas de poemas giram em torno do não dito, da palavra que falta, da voz que se cala por escolha ou por exaustão. “Tenho pressa de silêncios”, diz um verso, e essa pressa é, de certo modo, o ritmo do livro inteiro: poemas curtos porque a dor, aqui, não precisa de muitas palavras para doer.

Para quem este livro é indicado

Delicadeza interessa especialmente a leitores de:

  • Poesia confessional e de introspecção emocional
  • Poesia brasileira sobre luto, solidão e envelhecimento
  • Micropoesia e poemas curtos/aforísticos
  • Poesia que trabalha o cotidiano doméstico como matéria poética
  • Quem gosta de autoras com trajetória consolidada fora do eixo Rio–São Paulo, como é o caso da poesia baiana

Ficha técnica

ItemDetalhe
TítuloDelicadeza
AutoraCynara Novaes
EditoraToma Aí Um Poema (TAUP)
Edição1ª edição, 1ª impressão
Publicação6 de março de 2026
ISBN978-65-83841-87-2
Páginas228
Formato15 x 15 cm
Estruturamais de 200 poemas curtos, numerados e sem título
PrefácioMabelly Venson

Perguntas frequentes sobre “Delicadeza”, de Cynara Novaes

Sobre o que é o livro Delicadeza? É uma coletânea de poemas curtos e numerados que exploram o cotidiano, o corpo (especialmente através de imagens do coração), a solidão, o luto e os pequenos gestos domésticos como matéria poética.

Quem é Cynara Novaes? É uma poeta baiana nascida em 1969, com trajetória literária desde os anos 1990, autora de livros como Interiores (1994) e A Cor da Infância (2015). Delicadeza é seu lançamento mais recente, pela editora TAUP.

Por que os poemas do livro não têm título? Porque o livro é organizado como uma sequência numerada de fragmentos, à maneira de um diário ou rosário de instantes, sem divisão em capítulos ou seções temáticas explícitas.

O livro tem um fio condutor? Sim — a metáfora da costura (linha, tecido, ponto, bordado) atravessa o livro inteiro e só revela o título, Delicadeza, no último poema.

Considerações finais

Delicadeza é o tipo de livro que se lê aos poucos, quase por dosagem — cada poema é pequeno o suficiente para caber num intervalo do dia, mas denso o bastante para ficar. Cynara Novaes confirma, com esta obra, a coerência de uma poética que já vem de décadas: a de transformar o miúdo, o doméstico e o silenciado em matéria de poesia. No fim, como diz o próprio livro, é “bem fino, como uma fatia de vento” — mas é justamente por ser tão fino que atravessa.


Resenha produzida para fins de divulgação literária. Trechos do livro não são reproduzidos integralmente, respeitando os direitos autorais da obra e da editora.

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