Resenha: Instantâneos, de Eleonora Gomes
Tem livro que nasce pra durar e tem livro que nasce de coisas que não eram pra durar, e Instantâneos é desse segundo tipo. Entre outubro de 2019 e outubro de 2023, a Eleonora Gomes foi escrevendo pequenos textos direto na tela do celular e publicando nos stories do Instagram, aquele lugar onde tudo some depois de vinte e quatro horas. Quem acompanhava via de passagem, com o dedo já pronto pra pular pro próximo. Agora esses poemas viraram livro, lançado em novembro de 2025 pela Toma Aí Um Poema, e confesso que achei bonita essa ideia de pegar algo feito pra desaparecer e dar a ele a chance de ser lido com calma.
Logo na nota de abertura, a autora explica que quis respeitar a vivacidade do pensamento e se permitir uma certa desobediência. Ela chama aqueles posts de pequeno segredo passageiro, íntimo e bruto ao mesmo tempo, e dá pra sentir isso na leitura. Os poemas não foram polidos até perder a graça. Têm aquele jeito de coisa escrita na hora, ainda meio ofegante, e cada um vem com a data em que foi escrito. Ela mesma avisa que as datas marcam o verso, e é verdade: no fim das contas, a gente está acompanhando quatro anos da vida de alguém.
Ficha técnica
| Item | Informação |
|---|---|
| Título | Instantâneos |
| Autora | Eleonora Gomes |
| Editora | Toma Aí Um Poema (TAUP) |
| Coleção | Gralha Azul: Autorias Paranaenses |
| Publicação | 1ª edição, novembro de 2025 |
| Páginas | 64 (14 x 16 cm) |
| ISBN | 978-65-84216-11-2 |
| Classificação | CDD 869.91 — Poesia brasileira |
| Gênero | Poesia contemporânea |
| Período dos poemas | Outubro de 2019 a outubro de 2023 |
| Apresentação | Marçal Justen Neto |
| Capa, projeto gráfico e diagramação | Jéssica Iancoski |
| Dedicatória | Luiz e Olívia |
Uma pintora que resolveu escrever
Antes de ser poeta, a Eleonora é artista visual, e isso explica muita coisa do livro. Ela é de Curitiba, formou-se em Pintura pela Embap, fez pós em Poéticas Visuais e estudou Comunicação na PUC-PR. Trabalha com pintura, instalação, performance e objetos. Em 2025, dividiu com o Eduardo Amato a exposição “TUDO BEM BOMBOM”, no MAC Paraná, que ocupou o prédio inteiro com pinturas em cabeceiras de cama, esculturas feitas de meias e desenhos sobre camurça. Na divulgação, o museu contou que ela já fez residências artísticas no Brasil, no Japão, na Colômbia e em Portugal, e que passou quase dez anos na PF: Casa de Estudos, um espaço independente de arte contemporânea em Curitiba.
Um pouco antes, entre o fim de 2023 e o começo de 2024, ela tinha participado da coletiva “Entre a cor e o corpo”, no MuMA. O texto da mostra dizia que a pintura dela fala de presença, de existir, de sentir, de viver como um experimentar constante, mesmo sem saber direito pra onde o caminho vai. Quando li isso, depois de terminar o livro, pensei que dava pra usar a mesma frase como orelha de Instantâneos sem mudar quase nada.
E a pintora está em todo canto. O primeiro poema começa com algodão-doce rosa, sabor de nuvem, e de repente aparece MATISSE assim, em caixa alta, quase como uma assinatura no canto do quadro. Em outro, ela diz que passa pincel e tinta em tudo que não tem jeito, e assim acaba dando um jeito. O meu preferido nesse sentido é “Arco”, um poema minúsculo sobre algo que atravessa o céu feito uma ponte, que termina com uma instrução entre parênteses pedindo pra gente imaginar a primeira estrofe em vermelho, a segunda em amarelo e a terceira em azul. Ela não pinta o arco-íris, só deixa as tintas na nossa mão. Achei lindo.
A página também vira tela. Tem poema todo em maiúsculas, tem palavra solta flutuando no branco (como em “somos pela insistência”, onde persisto, desisto e existo ficam meio à deriva), tem verso cortado por barras, como se fosse a tela do celular recortada. E tem um “escorregannnnnndo” que, juro, escorrega de verdade enquanto a gente lê.
Instantâneo, mas não descartável
O título tem uma ambiguidade que eu adoro. Instantâneo é o café solúvel, o que é feito com pressa e consumido rápido. Mas também é a foto que congela um segundo que não volta mais. Os poemas da Eleonora são as duas coisas: nasceram do improviso de uma rede social e, no livro, funcionam como um álbum em que cada página guarda um dia. O Marçal Justen Neto escreve na apresentação que cada poema é um autorretrato e também um espelho, e que o que era só dela passa a ser nosso. Concordo, e acrescento uma coisa: ler esses textos no papel é outra experiência. No story, eles passavam. Aqui, a gente para.
Como os poemas estão em ordem de data, dá pra ler o livro como um diário, e é muito bonito perceber o humor mudando com o tempo. Em 2019 e no começo de 2020, o assunto é bastante a distância. Em “Continente”, alguém amado está do outro lado do oceano, e ela fecha os olhos no Pacífico enquanto o Atlântico a toca. Aí vem a pandemia e o livro escurece. No fim de 2020, ela escreve que cansou de apagar o fogo, de tapar o buraco, de dizer coisas felizes. Mas o poema termina com ela quieta, ouvindo o mar, achando bonito. Em “Vou para Júpiter”, sonha com um lugar onde não tem ninguém. Em janeiro de 2021, conta de dias em que nem teve vontade de subir a escada. Depois, lá por 2022, alguma coisa se abre: vêm viagens, música, encontros, uma experiência que soa como renascimento. E em 2023 os poemas ficam mais calmos, mais pensativos.
Muita água
Se eu tivesse que dizer do que esse livro é feito, diria água. Tem o mar que separa as pessoas, tem a banheira onde ela diz que treina antes de tremer no oceano, tem “No mar eu marejo”, tem “Da janela”, que compara duas vistas lá de cima: uma de neve, com gente andando de gorro, e outra de praia, com as ondinhas desenhadas nas pedras portuguesas da calçada.
Mas o poema que mais me pegou foi “Não sou firme”. Ela diz que é mole, molenga, que não para em pé, que vive caindo pelas beiradas. E aí, no meio, descobre que talvez seja água corrente: escorre na pedra, se infiltra no chão, evapora. Quando congela, trava. Pra voltar a andar, precisa derreter. É um autorretrato tão gentil com a própria fragilidade que eu fiquei com vontade de mandar pra umas três pessoas.
A água também vira choro. Num poema de novembro de 2022, ela diz que não tem um dia em que não chore, e emenda choro, chora, chorume. É triste e é engraçado ao mesmo tempo, e acho que esse é o jeito do livro inteiro: fala de dor sem perder a leveza. Em “Virada”, ela resume a vida em poucas linhas. Míope aos 15, autoimune aos 21, deprimida aos 40, quando veio a pandemia, artista quando o boi passou. E fecha dizendo que planeja morrer aos 100. Em “Quase vida”, conta que morre umas vezes por semana, de morte pensada, e faz o próprio luto. São poemas que não enfeitam a tristeza, mas quase nunca terminam no escuro. Sempre sobra uma fresta, um barulho de mar, um “aqui estou de novo”.
O boi que canta
Tem um texto no livro que eu li umas três vezes e ainda não sei explicar direito. É um poema longo, quase em prosa, de julho de 2022, que começa dizendo que onde o boi canta não existe anteparo. Fala de uma terra tupinambá que tira o prumo de quem chega, de vertigem, de formigamento, de ser engolida inteira por uma entidade viva, de um mergulho em água gelada com todos os verdes da mata em volta. No fim, ela conta que foi parida de novo, no décimo segundo dia, meio peixe, meio cabra, e que disse sim. O livro não explica que experiência foi essa, e eu prefiro não inventar. Mas ela claramente marcou a autora, porque volta em outros poemas. É ali, segundo “Virada”, que ela vira artista. E é pra lá, “onde o boi canta”, que ela retorna quando lembra dos mil verdes da Mata Atlântica.
Caetano, Clarice e um punhado de cidades
Uma das coisas mais gostosas do livro são as referências, e algumas ficam ainda melhores quando a gente sabe o contexto. “Eu sou tantas coisas”, de 2 de agosto de 2022, começa com Caetano Veloso entrando no corpo dela e não saindo mais, tocando em looping no Spotify. Fala do Guaíra e do Meu Coco. Pois naquela mesma época Caetano tinha passado por Curitiba com a turnê do Meu Coco, no Teatro Guaíra, com direito a sessão extra no fim de julho. Ou seja, o poema foi escrito uns dias depois do show, ainda com a música grudada. Ela diz que queria escrever sua própria “Reconvexo”, aquela canção do Caetano que a Bethânia cantou e que é toda feita de “eu sou”, e acaba fazendo isso mesmo, do jeito dela. Entram no poema o Rio Negro com sua água cor de Coca-Cola, os naturalistas Spix e Martius, que andaram pelo Brasil no século XIX catalogando bicho e planta, e uma das imagens mais curitibanas que já li: ela diz que é cheia de leite quente com garoa desde que nasceu. O poema termina falando com Curitiba, admitindo que as duas mudaram.
Em junho de 2023 é a vez da Clarice. A autora esquece o livro em casa, procura alguma coisa no aeroporto e acha Clarice Lispector. Vai lendo devagarinho, na sala de espera, no avião, já no destino, pra não perder a companhia. Diz que Clarice fere e cura num golpe só, e fecha com uma piscadela pra A hora da estrela. E tem São Paulo, que ganha uma declaração de amor inteira: metrô lotado às seis da manhã, pizza de balcão embaixo do Minhocão, jogo no Morumbi. Ela não nasceu lá, mas chama a cidade de quintal.
Humor, sim
Não quero dar a impressão de que é um livro só de melancolia, porque não é. Tem um poema em que a Eleonora se apresenta como meio besta quadrada, que gosta de frase feita, estádio de futebol e trilha sonora. Dorme cedo pra programar sonhos que depois não lembra. Precisa arrumar cama e gaveta. Não sabe ser feliz se os outros não estiverem mais felizes que ela. E termina dizendo que é meio vacilona. Esse poema me fez rir e me deu uma vontade enorme de tomar um café com ela.
E tem a brincadeira com as palavras, que está por todo lado. “No mar eu marejo, no ar eu arejo, no morro eu moro, ou mesmo morro.” “Aqui eu mostro, ali eu monstro.” A prece que parece e logo padece. Um poema que mistura geada, Passo Fundo, Volta Redonda e maria-mole com fome e goela. O inglês aparece solto, do jeito que aparece na internet: on, in, trip, kiss, fish bowl. Pra poemas que nasceram no Instagram, faz todo sentido.
Sendo feliz junto com triste
Nos textos de 2023, o livro vai se acalmando. Num deles, ela lembra que criança domina o tempo e que depois, com calendário, lembrete e planner, ele escapa. A conclusão é que o tempo foi morar perto de alguma criança. Em outro, pensando na meia-idade, ela se encanta com a ideia de morar num navio, sem CEP, sempre andando. E tem “Eu leio quando não sei mais o que fazer”, que pra mim é a chave do livro. Ela conta que lê pra ritmar a cabeça e que gosta de não entender tudo, porque entender é chato e acaba logo. A dúvida, diz ela, é sopro. O Marçal pega essa frase pra apresentação, e com razão: é o melhor conselho pra ler Instantâneos. Não precisa decifrar cada verso. Dá pra só ir sentindo.
O penúltimo poema se chama “Adultando” e tem um verso só: sendo feliz junto com triste. Não consigo pensar em definição melhor pro livro. Depois dele vem um “fim de mim, fim de você” e, fechando tudo, um poema sobre a casa, onde as palavras moram nas gavetas do closet e a sala guarda o silêncio dos objetos. Depois de quatro anos de mar, viagem e vertigem, o livro termina em casa. Gostei disso.
Sobre a Coleção Gralha Azul
Instantâneos faz parte da Coleção Gralha Azul, que a Toma Aí Um Poema criou pra dar espaço a autores do Paraná. O nome vem da ave símbolo do estado, aquela que espalha semente de araucária e ajuda a floresta a crescer de novo. São 23 autores paranaenses em livretes pequenos, de levar no bolso, com curadoria da Mabelly Venson e projeto gráfico da Jéssica Iancoski, que inventou uma orelha sanfonada pra deixar a leitura mais tátil. Os livros foram lançados juntos em fevereiro de 2026, no Sesc Paço da Liberdade, em Curitiba, e a curadora disse na época que a ideia não era lançar livros soltos, e sim formar uma constelação. Gosto de pensar no livro da Eleonora como uma dessas estrelas que piscam, somem um pouco e voltam a acender.
Pra quem eu indicaria
Pra quem gosta de poesia curta, íntima, com cara de diário. Pra quem curte ver artes visuais e escrita se misturando. Pra quem é de Curitiba e vai reconhecer a garoa e o Guaíra. Pra quem passou a pandemia morrendo um pouquinho por semana e quer ler alguém que falou disso sem rodeio. Pra fã de Caetano e de Clarice. E pra quem acha que poesia tem que ser difícil, porque esse livro prova que não tem.
São 64 páginas, dá pra ler numa sentada. Mas eu iria devagar, olhando as datas, do jeito que a gente folheia um álbum de fotos antigas.
Perguntas frequentes
Quem é Eleonora Gomes?
Artista visual e escritora de Curitiba, formada em Pintura pela Embap, com pós-graduação em Poéticas Visuais, e em Comunicação Social pela PUC-PR. Trabalha com pintura, instalação, performance e objetos e já fez residências artísticas no Brasil, no Japão, na Colômbia e em Portugal.
Como surgiram os poemas de Instantâneos?
Foram publicados primeiro nos stories do Instagram, que somem em 24 horas, entre outubro de 2019 e outubro de 2023. No livro, cada poema traz a data em que foi escrito.
Sobre o que são os poemas?
Sobre os estados de espírito da autora ao longo de quatro anos: distância, pandemia, tristeza, humor, amor, viagens, música, leitura, as cidades que marcaram a vida dela e a passagem do tempo.
É um livro difícil?
Não. Os poemas são curtos e diretos, embora alguns brinquem com a forma e com o jeito como as palavras ficam na página.
O que é a Coleção Gralha Azul?
Uma coleção da Toma Aí Um Poema com 23 autores paranaenses em livretes, lançada em Curitiba em fevereiro de 2026.
Quais referências aparecem no livro?
Entre outras, Matisse, Caetano Veloso (o disco Meu Coco e a canção “Reconvexo”), Chico Buarque, Clarice Lispector, os naturalistas Spix e Martius, Curitiba, São Paulo e o Rio Negro.
Fontes
- Coleção Gralha Azul lança 23 autores independentes em Curitiba — PublishNews
- “TUDO BEM BOMBOM”: MAC Paraná promove visita mediada e bate-papo em exposição — Agência Estadual de Notícias do Paraná
- MuMA de Curitiba recebe nova exposição com diálogo entre pintura e fotografia — Bem Paraná
- Caetano Veloso abre sessão extra em Curitiba — Bem Paraná

Jéssica Iancoski (Curitiba, 1996) é escritora, poeta e editora-curadora cultural[1]. Dirige a Associação Toma Aí Um Poema (editora literária sem fins lucrativos) [2] e já publicou mais de 10 livros [3], incluindo A Pele da Pitanga (finalista do Prêmio Jabuti 2022) [4]. É formada em Letras (UFPR, 2019) e Psicologia (PUCPR, 2019), e recebeu prêmios como o Candango de Literatura 2022 [5] e o Prêmio Sérgio Mamberti (MinC, 2023) [6]. Em 2024 foi curadora do Prêmio Literário da Cidade de Curitiba [7]. Em 2025, foi selecionada para a lista Forbes Under 30 Brasil, que reconhece jovens lideranças de destaque em suas áreas de atuação [8].
Loja TAUP
Continue com a TAUP
Livros e publicações da nossa loja para continuar a leitura depois deste post.