Resenha: A Menor Lua de Júpiter, de Leonardo de Oliveira
Comecei pelo fim, sem querer. Abri A Menor Lua de Júpiter numa página qualquer lá no final e caí num poema curtinho sobre as tempestades de Júpiter, que vistas de longe parecem calmas, e sobre os anéis de Saturno, que parecem enfeite mas são resto de batida, de encontro, de escombro. O poeta fecha dizendo que talvez seja assim olhar pra ele de longe: um sorriso bonito, feito de destroços.
Fiquei um tempo parada nisso. Depois voltei pro começo, e o livro foi me mostrando aos poucos que era sobre isso o tempo todo.
É o terceiro livro de poemas do Leonardo de Oliveira, gaúcho de Cachoeira do Sul, saído em 2025 pela Toma Aí Um Poema. E é um livro difícil de resumir, porque cabe muita coisa ali dentro: chaleira elétrica, rodinho de pia, a cadela Laika, Scooby-Doo, Machado de Assis, o ônibus T8 de Porto Alegre, um menino morto a tiros, um pedido de WhatsApp em linguagem parnasiana. Vou tentar mesmo assim.
Ficha técnica
| Item | Informação |
|---|---|
| Título | A Menor Lua de Júpiter |
| Autor | Leonardo de Oliveira |
| Editora | Toma Aí Um Poema (TAUP), São Paulo |
| Publicação | 1ª edição, julho de 2025 |
| Páginas | 124 (13 x 18 cm) |
| ISBN | 978-65-83841-35-3 |
| Classificação | CDD 869.91 — Poesia brasileira |
| Gênero | Poesia contemporânea |
| Apresentação | Alex Zani, editor-chefe do portal Fazia Poesia |
| Capa e projeto gráfico | Jéssica Iancoski |
| Outros livros do autor | O Ano do Elefante (2022) e O Manifesto dos Tardígrados (2023) |
Que lua é essa?
O Alex Zani, que assina a apresentação, contou: a palavra “lua” aparece treze vezes no livro e o autor não explica nenhuma vez qual é a do título. Achei a pista na última página antes da biografia, solta, sem comentário: S/2010 J2. Fui pesquisar. É o nome técnico de uma das menores luas conhecidas de Júpiter, uma pedrinha que nem nome de verdade ganhou.
Pra mim isso diz bastante do livro. Ele gosta do que é pequeno e passa batido. O café passado de manhã. O cabelo branco que aparece de repente. O aceno pela janela. Coisas mínimas que, mesmo assim, estão girando em volta de coisas gigantes como o tempo, a cidade, a morte.
E o espaço sideral do Leonardo não é aquele cosmos bonito de pôster. É feito de choque. No poema “Theia”, ele lembra que a nossa lua nasceu de uma colisão e hoje é um destroço. Em “Laika”, o foguete é só de ida. Tem beleza, mas tem estrago junto.
Sempre atrasado
O primeiro poema é sobre acordar e enrolar. Procrastinar a quarta-feira, desconfiar dos ponteiros, perceber que outro dia tinha vinte anos e agora os cabelos brancos insistem. No meio aparece um verso que eu levaria pra vida: viver é estar atrasado. Ele conta que nasceu um dia depois do previsto e que talvez morra depois do previsto também. Quem sabe.
Esse descompasso volta o livro inteiro. Relógio marcando dez pra hora nenhuma. Um viajante do tempo que sempre erra o presente. Os conselhos de “beba água, aproveite o dia” virando um loop sem batida. E a apresentação entra na brincadeira: termina dizendo que já se passaram muitas páginas e que acha que viu outro cabelo branco.
Os poemas que eu mandaria pra um amigo
Tem um poema nesse livro que eu queria ter recebido em algumas semanas da minha vida. Ele diz, com outras palavras, que você levantou da cama, passou o café e acenou da janela, e que isso já é muito. Fala daquelas semanas que deixam a gente amassado como um origami desfeito, tentando lembrar como era ser cisne. Todo mundo mandando correr, lutar, ser o melhor, e o poema só lembra que a gente pode o que pode. E tudo bem.
Ele não está sozinho. Em “Theia”, o eu lírico olha pra uma pessoa forte, que já escalou o inverno com uma mão só, e pede que ela se permita fraquejar um pouquinho. Em “Afazeres do dia”, vem uma lista de pequenos desastres (queimar a comida, ficar sem gelo pro drink, rir sozinho de uma piada ruim) que termina com um consolo meio torto: pelo menos metade da lista você cumpriu. Tem também umas dicas pré-feriado que incluem não subestimar o poder curativo de um feriado.
Nada disso soa como autoajuda. Soa como um amigo meio desajeitado sentando do teu lado. Faz sentido quando a gente lê na biografia que o Leonardo é psicólogo do Consultório na Rua, em Porto Alegre. Dá pra sentir esse olhar de quem está acostumado a ver gente cansada.
Porto Alegre, de dia e de noite
Quem conhece Porto Alegre vai se divertir reconhecendo os lugares. A Osvaldo, a Venâncio, a Protásio, a Cidade Baixa, o Guaíba (que, ele faz questão de lembrar, não é um lago). Tem um poema com um Iéti perdido na Protásio em pleno verão, derretendo, quase atropelado pelo ônibus, enquanto o cara de sunga, figura conhecida da cidade, aparece confuso do outro lado do mundo. Eu ri muito.
Só que a cidade também tem o lado que não dá pra rir. Num dos poemas mais pesados, mataram o menino da rua de baixo de novo, e de novo, e de novo. Matam ele todo dia, sempre que tenta levantar. “A culpa é dos mortos” repete o título verso após verso até a ironia virar um soco. Aparecem sacos pretos na porta, especulação imobiliária, um centro que virou fantasma. E um poeminha curto que me pegou: primeiro mandaram não dar o peixe e ensinar a pescar; no dia seguinte, privatizaram a praia.
O que eu achei mais forte é que esses poemas não mudam de voz. É a mesma linguagem cheia de imagem e de referência do resto do livro. Por isso a porrada chega sem aviso.
Vagalumes
Tem uma imagem que volta várias vezes e que pra mim segura o livro: os vagalumes. Num poema, o poeta avisa alguém sensível que vão tentar convencê-lo de que afeto é coisa obsoleta, de que a realidade é dura como um cuspe na cara. E responde que é pra firmar o pé na luta e na poesia, porque ao lado tem gente com ares vagaluminosos. Em outro, o amor é um fio de vagalumes esticado entre nós, e na página o verso tem um espaço em branco no meio, como se fosse o fio mesmo. Em outro ainda, a ideia é tomar a cidade sonho a sonho, com golpes de vagalume.
É uma luz pequena e que pisca. Mas acende.
E o amor, claro
Os poemas de amor fogem do óbvio. O mais bonito, pra mim, é um em prosa que começa achando que era tarde demais pra falar de amor e termina dizendo que não é. No meio, os sete mares viram “sete amares” e os dois viram submarinos nucleares de osso e pelo. Em outro, ele diz que quer ser o plot twist da pessoa. E tem aquele que eu já mencionei: um poema inteiro em português de dicionário antigo, cheio de “venusta”, “garbosa” e “conspícua”, que depois de tanta pompa só quer saber o número do WhatsApp. Esse eu li em voz alta pra alguém.
Um livro que brinca
Se tem uma coisa que faz esse livro ser diferente de muita poesia que a gente lê por aí, é a brincadeira com a forma. Tem poema em formato de lista de compras, com o aviso de que certamente não é uma lista de compras. Tem receita com amnésia cristalizada, sangue de quimera e um sonho mal analisado, que rende quatro refeições. Tem tutorial com dez passos pra se imaginar nuvem sem chatear os pássaros. Tem questão de múltipla escolha, formulário de avaliação com estrelinhas e um poema em que as paredes do apartamento vão se fechando e o texto vai ficando apertado na página até sufocar.
Tem também uma língua inventada inteira, que soa como português e não quer dizer nada, e alguém responde no final: “Massa”. Tem “Tautologia”, feito só daquelas frases de conversa que enchem o silêncio. Tem o “Manifesto micro-ondas”, pedindo mais poesia sobre pizza, pano de prato e tomada de três pinos, sem esquecer de pedir que ninguém pare de escrever sobre amor.
E as referências, meu Deus. A dedicatória é aos ratos que primeiro roeram a conta corrente do autor, uma piada com a dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Num poema, Dom Quixote encontra Macabéa em Gondor, a Geni persegue um zepelim de Sauron e Gregor Samsa vira a aranha de Tolkien. Passam por ali Tina Turner, o ET Bilu, a grávida de Taubaté, Méliès, Tarkovski, Basquiat, Coltrane, Glauber Rocha. E como o Leonardo também é músico, tem acorde suspenso, trítono e ciclo de quartas espalhados por tudo.
Pra quem eu indicaria
Pra quem gosta de poesia brasileira contemporânea e não tem medo de rir lendo poema. Pra quem é de Porto Alegre ou tem saudade de lá. Pra quem curte experimentação na página. E, sinceramente, pra quem está cansado e precisa ouvir que levantar e passar um café já conta.
Acho que é até um bom livro pra quem diz que não gosta de poesia. É variado o bastante pra cada um achar sua porta de entrada.
Pra terminar
Fechei o livro pensando naquele último poema, o de Júpiter. De longe, tudo parece calmo e enfeitado. De perto, é tempestade e destroço. O Leonardo olha pras duas coisas ao mesmo tempo e ainda arranja um jeito de dançar no meio.
A última página diz que finais também são sopro, tempestade ou brisa, a gosto. Pra mim foi brisa.
Perguntas frequentes
Quem é Leonardo de Oliveira?
Poeta, músico e psicólogo, nascido em Cachoeira do Sul (RS). É mestre e doutorando em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS e trabalha no Consultório na Rua, em Porto Alegre. Antes deste, publicou O Ano do Elefante (2022) e O Manifesto dos Tardígrados (2023).
Que lua é a do título?
O livro não diz, mas deixa uma pista no final: S/2010 J2, uma das menores luas conhecidas de Júpiter.
Sobre o que são os poemas?
Tempo, cansaço e pequenos gestos de cuidado, amor, Porto Alegre e a violência da cidade, e o cosmos como imagem de choques e destroços.
É um livro difícil de ler?
Não. Tem poemas mais densos, mas muitos são engraçados e brincam com formatos do dia a dia, como listas, receitas e tutoriais.
Qual a editora?
Toma Aí Um Poema (TAUP), de São Paulo, com lançamento em julho de 2025.

Jéssica Iancoski (Curitiba, 1996) é escritora, poeta e editora-curadora cultural[1]. Dirige a Associação Toma Aí Um Poema (editora literária sem fins lucrativos) [2] e já publicou mais de 10 livros [3], incluindo A Pele da Pitanga (finalista do Prêmio Jabuti 2022) [4]. É formada em Letras (UFPR, 2019) e Psicologia (PUCPR, 2019), e recebeu prêmios como o Candango de Literatura 2022 [5] e o Prêmio Sérgio Mamberti (MinC, 2023) [6]. Em 2024 foi curadora do Prêmio Literário da Cidade de Curitiba [7]. Em 2025, foi selecionada para a lista Forbes Under 30 Brasil, que reconhece jovens lideranças de destaque em suas áreas de atuação [8].
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