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Resenha: A Alquimia dos Símbolos, de Edward Guilherme

Comecei A Alquimia dos Símbolos achando que leria mais um livro sobre arquétipos. Terminei com a sensação incômoda de ter sido observada. O ensaio de Edward Guilherme, lançado em 2025, é curto, dá para ler numa tarde, mas deixa umas perguntas que ficam rondando a casa por dias.

A primeira delas aparece logo na abertura do capítulo 1, quase como uma provocação: você acredita em fantasmas? O autor não está falando de assombração. Está falando daquilo que se repete na nossa vida sem que a gente tenha pedido. O tipo de pessoa por quem sempre nos apaixonamos, a cena que volta nos sonhos, o tema que insiste em aparecer no que escrevemos. Para ele, esses fantasmas são reais, só que moram dentro, e continuam mandando em nós enquanto não aprendemos a vê-los.

É um livro de psicologia, sim, apoiado em Carl Jung e com uma conversa interessante com Jacques Lacan. Mas é também um texto de alguém que passou pelo que descreve. Isso muda tudo na leitura.

Ficha técnica

ItemInformação
TítuloA Alquimia dos Símbolos
AutorEdward Guilherme (Edward Guilherme Bôto dos Santos)
EdiçãoEdição do Autor, Presidente Prudente (SP), 2025
ISBN978-65-01-68427-7
ClassificaçãoCDD 154.2 — Inconsciente (Psicologia)
TemasArquétipos, inconsciente, autoconhecimento, espiritualidade, filosofia da mente, psicanálise
EstruturaIntrodução, 9 capítulos, epílogo e amostra de Retrofenomenologia
Obra relacionadaRetrofenomenologia – Investigando a origem das nossas experiências, do mesmo autor

De onde o livro vem

Edward Guilherme já tinha publicado Retrofenomenologia, um método para voltar à origem das nossas experiências, uma espécie de investigação de fora para dentro. Na introdução deste novo livro ele conta que esperava descansar depois daquele trabalho. Não descansou. Percebeu que tinha entregado uma bússola sem descrever o terreno onde ela funciona, e A Alquimia dos Símbolos nasce dessa lacuna.

A alquimia do título é metáfora, e o autor faz questão de deixar isso claro antes de qualquer coisa. Ele pede que o leitor esqueça os clichês místicos e lembre da alquimia histórica: a prática que surgiu no Egito helenístico, passou por Grécia, Roma e Europa medieval, e que tentava transformar chumbo em ouro. Para os alquimistas, purificar o metal era também uma imagem de purificar a alma. Jung leu a alquimia exatamente assim, como um mapa simbólico da transformação psíquica, e é desse ponto que o livro parte.

O percurso é bem amarrado. Os dois primeiros capítulos explicam como um símbolo nasce dentro de nós. O terceiro e o quarto mostram como ele aparece do lado de fora, disfarçado de pessoas e situações. O quinto fala de como transformá-lo. Do sexto ao oitavo, o autor recua para dar a base junguiana e lacaniana, passa pelos sonhos e chega às fases da alquimia. O nono capítulo, o mais pessoal de todos, admite que nada disso acontece de uma vez. E o epílogo, “Como Nascem os Deuses”, fecha com uma pequena parábola que resume o livro inteiro em duas páginas.

Gosto de como essa ordem imita o próprio processo que o livro propõe. Primeiro a gente vê, depois entende, só então tenta mudar.

Anímides: os habitantes da alma

O que o livro tem de mais seu é o vocabulário. Jung falava de arquétipos, aqueles moldes universais que todos herdamos. Edward Guilherme dá um passo a mais e chama de anímides a forma viva que cada arquétipo ganha numa pessoa específica. A imagem que ele usa é bonita e explica melhor do que qualquer definição: o arquétipo é a partitura, o anímide é a música que toca em você. A Mãe existe como arquétipo para todo mundo, mas é a sua mãe, ou a sua experiência de cuidado, que define o tom dessa música.

Um anímide nasce, segundo o autor, quando uma experiência carrega afeto suficiente para marcar a alma, por menor que pareça. Essa marca vira um padrão que tende a se repetir, sempre buscando a mesma descarga emocional do começo. Ele chama esse nascimento de simbogênese.

A parte que mais me pegou foi a diferença entre dois tipos de anímide. O eclodido nasce de algo inesperado que aconteceu, como a criança que vê uma cena de barcos num filme com a avó e, adulta, sente uma familiaridade estranha diante de qualquer cais. O evasivo nasce do contrário: de algo que a gente esperava e nunca veio. A criança que olhava o céu à noite esperando uma resposta e que, anos depois, se descobre fascinada por astronomia, filosofia e espiritualidade sem saber por quê.

Essa distinção diz algo que a clínica conhece bem e que raramente aparece com tanta clareza em livros de divulgação. A gente não é marcado só pelo que viveu. A ausência também deixa cicatriz, e às vezes uma cicatriz mais teimosa.

Máscaras, ídolos e o leite errado

Como o anímide é invisível, ele precisa de uma roupa para aparecer. O autor chama essas roupas de iconóides: pessoas, objetos ou situações que se parecem com a experiência de origem e onde o símbolo se projeta. Quando o iconóide se parece demais com o original, vem o que ele chama de consumação, uma sensação de completude quase extática. É ali que nascem os ídolos.

O exemplo mais forte do livro é afetivo. Uma criança que esperou ser vista e não foi cresce e se apaixona por alguém frio, distante. Ao mesmo tempo, recusa quem chega disposto a amá-la de verdade. Para o anímide evasivo, ser amado sem esforço não faz sentido, parece um erro no sistema. Li esse trecho duas vezes. Acho difícil alguém passar por ele sem lembrar de alguma história própria ou de alguém próximo.

Para explicar a consumação, o autor recorre a uma imagem que não esqueci: um bebê com fome que, sem saber de onde vem o leite certo, bebe de outra fonte. A fome passa, mas a fonte pode estar contaminada e viciar. A saída proposta não é arrancar o símbolo, que segundo ele não morre nunca, e sim trocar aos poucos o alimento. Isso é a transmutação.

E aqui o livro faz um alerta que achei muito útil. Há dois jeitos de errar nesse processo. No primeiro, a pessoa tenta direcionar o afeto para alguém disponível e de repente sente tédio, falta de química, começa a inventar defeitos. O ego ainda não largou o ídolo antigo. No segundo, troca de relação rápido demais e, meses depois, percebe que está vivendo o mesmo drama com outro rosto. Mudou o ator, a peça continua igual. Por isso o autor insiste em três coisas juntas: consciência para ver, intenção para querer mudar, discernimento para saber como.

A prenomemória e o tempo estranho da memória

O conceito mais ousado do livro é a prenomemória. Ela descreve aqueles momentos em que algo do presente parece dar sentido a uma lembrança antiga, como se a lembrança tivesse sido desde o início um aviso do que viria. A memória, nesse caso, não só lembra, ela se cumpre. O autor compara a ideia ao entrelaçamento quântico, e prefiro ler essa comparação como poesia, não como física. Mesmo assim, a experiência que ele descreve é reconhecível. Quem nunca sentiu que um encontro atual reescreveu o sentido de uma cena da infância?

Jung como mapa, Lacan como motor

O esqueleto teórico é junguiano, e o capítulo 6 faz um bom resumo para quem nunca leu Jung. O autor usa a velha imagem do iceberg, com o ego na ponta e a anima ou o animus na parte submersa, mas muda uma peça importante: o Self não é parte do iceberg, é o oceano inteiro em volta dele. E no fundo desse oceano ele coloca a criança interior, que descreve como a consciência da própria alma, exilada por um ego que se acha dono da casa.

A explicação da sombra é das mais claras que já li. Uma criança agitada e espontânea ouve a vida toda que aquela energia é feia. Aprende a ser contida. Só que a energia não some, volta por outro caminho, como irritação, compulsão, até sintoma no corpo. O autor resume com uma frase que eu sublinharia em qualquer livro de psicologia: quanto mais rígida a persona, mais densa a sombra.

Mas é quando Lacan entra, no capítulo dos sonhos, que o livro ganha fundo psicanalítico de verdade. Para Lacan existe uma falta que nos constitui, um vazio que nunca se preenche e que move o desejo. O autor pega essa ideia e faz dela o combustível dos anímides. A gente nunca deseja exatamente o objeto, deseja aquilo que ele representa de uma completude perdida. Por isso o símbolo vive se projetando em ícones de fora e nunca encontra a causa real.

Tem uma frase nesse capítulo que me fez parar: o sentimento vem antes do sujeito que sente. O bebê é afetado antes de ter palavras, e é nesse território anterior à linguagem que os símbolos se gravam. Visto assim, projetar deixa de ser um defeito de caráter e passa a ser a maneira natural de o inconsciente procurar no mundo o que lhe falta.

Os sonhos aparecem como o lugar onde os anímides ensaiam livres, sem o filtro da razão. E o capítulo termina com uma imagem que diz muito sobre o livro inteiro: o ser humano como uma matrioska, máscaras dentro de máscaras, numa peça em que até a plateia está no palco.

O amor não se espera, se espelha

No meio do capítulo sobre projeção, o autor faz um desvio que acabou sendo, para mim, o trecho mais bonito do livro. Ele chama de “teoria do amor” e parte de Newton. Quando a luz branca passa por um prisma, ela se abre em cores. O vidro não cria as cores, só revela o que já estava na luz. Com o amor seria igual: o outro não cria o que sentimos, apenas decompõe, distorce ou evidencia uma luz que é nossa.

A conclusão dele cabe numa linha: o amor não se espera, se espelha. Dá para discordar, claro. Dá para perguntar onde fica o outro real nessa história. Mas a ideia tem uma honestidade rara. Quando esquecemos que somos a fonte, diz o autor, o amor vira idolatria e codependência. E aí o epílogo faz todo o sentido. “Como Nascem os Deuses” conta, quase como uma fábula, como uma centelha interior desperta diante de alguém e como passamos a acreditar que esse alguém é a origem da chama. Nasce um deus. Esquecemos que a centelha já estava lá antes.

Chumbo, ouro e o caminho em espiral

O capítulo 8 relê as quatro fases da alquimia clássica como etapas do trabalho interior. O nigredo, a fase escura, é o confronto com a sombra e a queda dos ídolos. O albedo é quando a consciência clareia e surge a vontade de mudar. O citrinitas é o tempo de estudar os próprios padrões. O rubedo é a integração. A via que o autor propõe para atravessar tudo isso é a criação. Se o símbolo é um impulso movido pela falta, ele é criativo por natureza, e a arte, entendida de forma ampla, seria o canal mais natural para ele.

Mas o capítulo que mais me tocou foi o último. Ali o autor confessa que, depois de terminar o livro anterior, achou que tinha vencido seus fantasmas. Eles voltaram. Novos ícones, sentimentos antigos acordando como se nunca tivessem dormido. Ele não esconde a frustração e chega a admitir que ainda não sabe fazer tudo isso com perfeição. Daí vem a ideia de revisitação: o progresso não é uma linha reta, é uma espiral. O velho volta como um teste, e integrar não significa apagá-lo, significa olhar para ele com outros olhos.

Num mercado cheio de livros que prometem cura em sete passos, esse capítulo é quase um ato de coragem.

Ecos que o livro não nomeia

Enquanto lia, fui lembrando de outros autores que o livro não cita, mas com quem parece conversar. Deixo aqui como sugestão de leitura, e deixo claro que essas pontes são minhas.

A vontade do anímide de repetir a experiência de origem lembra a compulsão à repetição de Freud em Além do Princípio do Prazer, só que com um tom mais esperançoso, já que aqui a repetição pode ser redirecionada. A prenomemória tem parentesco com o Nachträglichkeit freudiano, que Lacan chamou de après-coup, a ideia de que um acontecimento antigo só ganha sentido depois. A criança interior exilada e a persona rígida me fizeram pensar no falso self de Winnicott. O jeito de tratar símbolos como seres vivos, com vontade própria, é muito próximo da psicologia arquetípica de James Hillman. E a espiral da revisitação tem algo do eterno retorno de Nietzsche, menos como peso e mais como chance de responder diferente ao que volta.

Para um livro tão curto, é bastante coisa sendo tocada ao mesmo tempo.

Como eu leria

Minha sugestão é ler devagar, com um caderno do lado. Os cinco primeiros capítulos de uma vez, para pegar o vocabulário, e os outros com mais calma, um por dia. No caminho, vale se perguntar umas coisas. O que se repete na minha vida sem que eu tenha escolhido? Isso nasceu de algo que aconteceu ou de algo que eu esperei e nunca veio? A quem eu dei o lugar de ídolo? Já troquei de relação e percebi depois que era a mesma história com outro rosto?

Não são perguntas confortáveis. E o livro não substitui terapia, nem pretende. Para quem já faz análise, porém, pode render boas sessões.

Para quem eu recomendo

Para quem se interessa por Jung, arquétipos e inconsciente e quer um texto acessível. Para quem estuda psicanálise e gosta de ver Jung e Lacan conversando. Para quem percebe padrões se repetindo nos relacionamentos e quer entender de onde eles vêm. E para escritores e artistas que já notaram certos temas voltando, teimosos, em tudo o que criam. Quem leu Retrofenomenologia vai encontrar aqui um aprofundamento natural, mas não é preciso ter lido para acompanhar.

No fim das contas

A Alquimia dos Símbolos é um livro sobre aprender a ver. Ele não promete transformar chumbo em ouro de uma vez. Propõe algo mais modesto e mais difícil: reconhecer que boa parte do chumbo é nossa, que muitos dos deuses que adoramos são reflexos de uma centelha que já estava aqui, e que os fantasmas vão voltar. A diferença é que, da próxima vez, talvez a gente consiga olhar para eles com outros olhos.

Fechei o livro pensando nos meus.

Perguntas que costumam aparecer

Quem é o autor?
Edward Guilherme é escritor brasileiro, de Presidente Prudente (SP). Também escreveu Retrofenomenologia, Para Além dos Campos de Lavanda e Consciência & Consistência, entre outros.

Sobre o que é, em poucas palavras?
Sobre como padrões inconscientes nascem de experiências emocionais, se disfarçam em pessoas e situações e podem ser transformados aos poucos, a partir de uma leitura de Jung e Lacan.

O que são anímides?
É o nome que o autor dá à forma viva e pessoal que um arquétipo assume em cada um de nós. Se o arquétipo é a partitura, o anímide é a música.

E iconóide?
É a máscara do símbolo do lado de fora: a pessoa, o objeto ou a situação em que ele se projeta por lembrar a experiência de origem.

O que é prenomemória?
Quando uma lembrança antiga parece, no presente, ter sido desde o começo um prenúncio do que viria.

Precisa conhecer Jung para ler?
Não. Os conceitos são explicados com calma e com exemplos do cotidiano.

Precisa ter lido Retrofenomenologia antes?
Não. Os dois conversam, mas este se sustenta sozinho.

É autoajuda?
Não no sentido comum. Está mais perto de um ensaio de psicologia e filosofia, com bastante de experiência pessoal do autor e nenhuma fórmula pronta.

O que ler depois?
Além de Retrofenomenologia, vale ir aos próprios livros de Jung, como O Homem e Seus Símbolos e a autobiografia Memórias, Sonhos, Reflexões.


Foto: Jéssica Iancoski
(Divulgação: Jéssica Iancoski)

Jéssica Iancoski (Curitiba, 1996) é escritora, poeta e editora-curadora cultural[1]. Dirige a Associação Toma Aí Um Poema (editora literária sem fins lucrativos) [2] e já publicou mais de 10 livros [3], incluindo A Pele da Pitanga (finalista do Prêmio Jabuti 2022) [4]. É formada em Letras (UFPR, 2019) e Psicologia (PUCPR, 2019), e recebeu prêmios como o Candango de Literatura 2022 [5] e o Prêmio Sérgio Mamberti (MinC, 2023) [6]. Em 2024 foi curadora do Prêmio Literário da Cidade de Curitiba [7]. Em 2025, foi selecionada para a lista Forbes Under 30 Brasil, que reconhece jovens lideranças de destaque em suas áreas de atuação [8].

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