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Resenha: “Furacanesca”, de Yolanda Amorim — o diário em versos de quem aprendeu a ser o mar, não o barco

Autora: Yolanda Amorim | Editora: Toma Aí Um Poema (TAUP) | Ano: 2026 | Páginas: 100 | ISBN: 978-65-83841-73-5 | Gênero: poesia brasileira contemporânea, poesia confessional

Nota: este livro aborda, de forma franca e autobiográfica, a experiência de viver com transtorno bipolar. O tratamento é majoritariamente acolhedor e voltado à superação, mas alguns poemas descrevem momentos de crise emocional intensa.

Publicado em fevereiro de 2026 pela Toma Aí Um Poema, Furacanesca é a estreia poética de Yolanda Amorim — e chega precedida de comparações ousadas no prefácio de Elias Cavalcante, que enxerga no livro ecos de Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Martha Medeiros e Virginia Woolf. São referências grandes para uma estreia, mas o livro se sustenta menos por comparação e mais por um projeto claro: transformar um diagnóstico, uma sequência de amores e o processo de amadurecimento emocional em uma narrativa em três tempos, do caos à catarse.

Sobre Yolanda Amorim

Jornalista de formação e publicitária de profissão, atuando como estrategista de marcas, Yolanda Amorim é também estudante de psicanálise — uma combinação que explica o duplo registro do livro, entre a precisão da frase publicitária e a investigação mais funda do inconsciente. Segundo sua própria nota biográfica, a descoberta do diagnóstico de transtorno bipolar não se apresentou como rótulo, mas como “lente de ampliação”: acentuou contrastes, aprofundou perguntas e redefiniu sua relação com a linguagem e com a própria existência. Furacanesca é sua obra de estreia.

Quem pesquisa por poesia confessional brasileira contemporânea, literatura e saúde mental ou poesia sobre transtorno bipolar encontra em Yolanda Amorim uma voz que trata o tema com honestidade, sem transformá-lo em espetáculo nem em tragédia — o livro caminha, deliberadamente, rumo à catarse anunciada em seu terceiro e último ato.

Uma estrutura em três atos, cada um com sua própria epígrafe

O livro se organiza em três partes — “Os Impulsos Humanos”, “Amores Inventados” e “Catarse” —, cada uma aberta por uma pequena epígrafe em tercetos que resume, em poucos versos, o assunto da seção que se inicia. É um recurso simples, mas eficaz: transforma o sumário em uma narrativa em miniatura, e cada parte do livro corresponde a um estágio reconhecível de elaboração emocional — nomear o caos, testar o amor, e finalmente decantar tudo isso em beleza.

Parte 1 — Os Impulsos Humanos: nomear o transtorno sem espetáculo

A primeira parte do livro é a mais diretamente ligada à experiência do transtorno bipolar. O poema “[Transtorno]”, um dos mais importantes do livro, descreve com precisão o ciclo entre fases hipomaníacas e depressivas, mas evita o tom de alarme: fala em manter uma luz acesa em outro cômodo da casa, em “enxergar o telefone ao lado, para ligar e pedir socorro” — um retrato de estratégias reais de enfrentamento, não uma estética do sofrimento. “[Marrom Bipolar]” usa a cor como metáfora central — se a apatia tivesse uma cor, seria o marrom, “a mistura de duas cores excessivas” —, uma imagem simples e eficiente para descrever a coexistência de extremos dentro de uma mesma pessoa. Já “[Culpa]” amplia a discussão para um território mais amplo, cruzando culpa clínica com culpa religiosa e de gênero, evocando a figura de Eva e o “fruto proibido” como símbolo de uma culpa que antecede qualquer diagnóstico.

Poemas mais breves como “[O juntar de cacos]” (a partir da imagem simples de uma vela quebrada no chão) e “[Luzes-Piloto]” (a ansiedade como luzes de alerta permanentemente acesas) mostram a capacidade da autora de partir do detalhe doméstico para a reflexão emocional sem exagero retórico.

Parte 2 — Amores Inventados: uma trilha sonora de heartbreak

A segunda parte, a mais extensa do livro, é dedicada ao amor romântico em suas variações — o começo, o fim, a nostalgia, a reconciliação impossível. É também a seção mais permeada de referências musicais e culturais, que funcionam quase como uma trilha sonora: Marisa Monte, Beatles cantados em um karaokê, Caetano Veloso, Gal Costa, R.E.M. e The Cranberries aparecem citados como parte do cenário afetivo dos poemas, ancorando as memórias em canções específicas de uma geração.

Dois poemas se destacam pela ternura fora do registro romântico: “[Disk Saudade de Vó]”, uma homenagem à avó através de memórias sensoriais — o cheiro de café com leite, o cuidado ao dobrar toalhas —, e “[Jaqueta Azul]”, sobre um amor que insiste em voltar ainda que nunca tenha, de fato, dado certo. “[Caixa de Morangos]” fecha essa lógica com uma metáfora especialmente bem resolvida: aprender a amar como escolher morangos numa feira — alguns amadurecem antes do tempo, outros chegam machucados, e ainda assim sobra algo doce. Já “[Para Entender o Amor]”, num registro mais ensaístico, observa o amor alheio (o casal no cinema, o irmão que vira pai) como quem faz pesquisa de campo sobre um sentimento que resiste a qualquer fórmula.

Parte 3 — Catarse: reconstrução e uma imagem final poderosa

A parte final do livro é a mais afirmativa. “[Quem seria eu se não fizesse poesia?]” funciona como uma ars poetica, declarando a escrita como forma de sobrevivência e reconstrução. “[Wabi-sabi]” recorre ao conceito estético japonês de beleza na imperfeição para tratar de autoaceitação — a poeta como um vaso rachado que não esconde as próprias fissuras. “[Casa Inteira]” narra, em terceira pessoa, a reconstrução de uma mulher após relações que a colocaram “em um pedestal antes de quebrá-la em pedacinhos”, numa metáfora doméstica de reforma que se torna também comentário social sobre o trabalho invisível de recomposição que tantas mulheres carregam.

O livro se encerra com “[Âncoras]”, provavelmente seu poema mais forte: uma declaração de que a autora não quer mais se machucar nem carregar tristeza como peso, encontrando nas próprias “âncoras” — presença, memória, amor próprio — um lugar de estabilidade. A imagem final do livro é também seu resumo mais preciso: “eu nunca vou ser o barco… eu sempre vou ser o mar” — trocando a fragilidade de quem é sacudido pela tempestade pela imensidão de quem a contém.

Estilo: entre o verso confessional e a prosa poética

Formalmente, Furacanesca alterna entre poemas em verso livre curto e blocos de prosa poética mais longos, quase crônicas, especialmente na segunda parte. Há um uso recorrente de metáforas domésticas e cotidianas — velas quebradas, toalhas dobradas, morangos na feira, casas em reforma — que ancoram temas emocionais abstratos em imagens concretas e reconhecíveis, um recurso que aproxima o livro de nomes como Martha Medeiros, citada no prefácio. O próprio título do livro, e o neologismo “furacanesca” que nomeia um dos poemas centrais, resumem essa proposta: transformar a intensidade emocional em uma condição de existir — nem totalmente controlável, nem completamente destrutiva.

Para quem este livro é indicado

Furacanesca interessa especialmente a leitores de:

  • Poesia confessional brasileira sobre saúde mental e transtorno bipolar
  • Poesia sobre amor romântico, término e reconstrução emocional
  • Crônica poética no estilo de Martha Medeiros ou Caio Fernando Abreu
  • Estreias literárias brasileiras marcadas por processos terapêuticos e de autoconhecimento
  • Quem busca literatura que trate diagnósticos de saúde mental sem estigma nem sensacionalismo

Ficha técnica

ItemDetalhe
TítuloFuracanesca
AutoraYolanda Amorim
EditoraToma Aí Um Poema (TAUP)
Edição1ª edição, 1ª impressão
Publicação2 de fevereiro de 2026
ISBN978-65-83841-73-5
Páginas100
Formato14 x 21 cm
Estrutura3 partes: Os Impulsos Humanos, Amores Inventados, Catarse
PrefácioElias Cavalcante
Estreia da autoraSim

Perguntas frequentes sobre “Furacanesca”, de Yolanda Amorim

Sobre o que é o livro Furacanesca? É uma coletânea de poesia confessional que acompanha a experiência da autora com o diagnóstico de transtorno bipolar, além de temas como amor romântico, memória familiar e reconstrução emocional, organizada em três partes que caminham do caos à catarse.

Quem é Yolanda Amorim? É uma jornalista, publicitária e estudante de psicanálise brasileira. Furacanesca é sua obra de estreia em poesia, publicada pela editora TAUP.

O livro trata de saúde mental de forma responsável? Sim — o transtorno bipolar é discutido de forma franca e autobiográfica, mas o livro tem um arco geral voltado à superação e ao autoconhecimento, evitando sensacionalismo.

O livro é só sobre saúde mental? Não — a maior parte do livro (a segunda parte, “Amores Inventados”) é dedicada a poemas sobre relacionamentos amorosos, término e memória afetiva, incluindo uma homenagem à avó da autora.

Por que o livro se chama Furacanesca? É um neologismo criado pela autora para descrever uma forma de sentir intensa e avassaladora, como um furacão — tema que dá nome também a um dos poemas centrais do livro.

Considerações finais

Furacanesca é uma estreia que cumpre bem sua proposta: partir do caos emocional — nomeado sem rodeios como transtorno bipolar — e caminhar, poema a poema, em direção a alguma forma de paz. Yolanda Amorim consegue equilibrar confissão e forma, tratando tanto o diagnóstico quanto os amores mal resolvidos com a mesma honestidade, sem transformar nenhum dos dois em espetáculo. É um livro sobre aprender, aos poucos, a deixar de ser sacudido pela tempestade para se tornar, como diz seu verso final, o próprio mar.


Resenha produzida para fins de divulgação literária. Trechos do livro não são reproduzidos integralmente, respeitando os direitos autorais da obra e da editora.

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