Resenha: “Parir Flores em Solo Árido”, de Virna Sabayo — poesia como ritual entre o sexo e o sagrado
Autora: Virna Sabayo | Editora: Toma Aí Um Poema (TAUP) | Ano: 2026 | Páginas: 96 | ISBN: 978-65-6196-012-0 | Gênero: poesia brasileira contemporânea, poesia erótica e ritualística
Aviso de conteúdo: este é um livro de poesia erótica explícita, que também aborda religiosidade de matriz afro-brasileira, aborto e luto. Esta resenha discute esses temas em nível literário e geral, sem reproduzir passagens explícitas ou trechos de liturgia sagrada na íntegra.
Publicado em maio de 2026 pela Toma Aí Um Poema, Parir Flores em Solo Árido é o livro de estreia em poesia de Virna Sabayo — e uma estreia que não pede licença, como avisa o próprio texto de orelha: “o desejo não implora — morde”. É um livro que recusa a temperatura morna em favor do excesso como método declarado, fundindo em um único corpo de texto o erótico, o religioso, o político e o ancestral.
Sobre Virna Sabayo
Publicitária e licenciada em História, Virna Sabayo pesquisa temas ligados à Filosofia da Religião e à Cultura, e já havia transitado por diferentes gêneros literários e selos editoriais antes desta estreia específica em poesia. Essa formação dupla — publicidade e história das religiões — explica bem o livro: há nele tanto o domínio da frase de efeito e da imagem de impacto quanto uma pesquisa genuína sobre religiosidade de matriz africana, mitologia comparada e memória ancestral. Quem pesquisa por poesia erótica brasileira contemporânea, poesia e religiosidade afro-brasileira ou novas vozes da poesia experimental nacional encontra em Virna Sabayo uma autora que não separa essas frentes — pelo contrário, insiste em fundi-las.
Uma estrutura ritual: três atos entre invocação e despedida
O livro está organizado em três “Atos” — “Anatomia da Performance”, “Cartografias da Carne” e “Altar” — e essa nomenclatura teatral não é gratuita: o livro se comporta como um ritual em três tempos, aberto por um canto de saudação aos orixás (“Laroyê”, o primeiro poema do livro) e fechado por uma invocação em iorubá dedicada a Exu. Entre a abertura e o encerramento, a “performance” do corpo desejante dá lugar às “cartografias” mais explícitas da carne, até desembocar no “altar” — onde o erótico se encontra com o luto, a ancestralidade e a política do corpo. É uma arquitetura muito próxima da estrutura de um giro ou de uma gira, com abertura, desenvolvimento e despedida, o que reforça a proposta do livro de tratar poesia como oferenda, não apenas como texto.
Ato I — Anatomia da Performance: o corpo como instrumento
A primeira parte do livro apresenta a poeta em construção. Depois do canto de saudação de “Laroyê” — uma sequência real de saudações da tradição afro-brasileira, aos orixás, caboclos, ciganos e marinheiros —, “Sol em Gêmeos” constrói um autorretrato astrológico que mistura vocabulário gramatical (verbo, substantivo, transitivo direto) com imagens de feitiçaria e nascimento, terminando com um dado biográfico preciso: a poeta nasceu às 5h15 de um sábado. Os poemas “Bisturi I” e “Bisturi II” definem, quase como um manifesto dentro do manifesto, a ideia de que a poesia tem “dever moral” de transformar caos emocional em narrativa “com vísceras, com fratura exposta” — uma poética que se declara cirúrgica, não decorativa. Já “Consistência I” e “Consistência II” resumem, em poucos versos, uma personalidade que recusa a previsibilidade: da cantora Alcione ao Slipknot num só gole, o método é o risco, não a coerência.
Ato II — Cartografias da Carne: o mais explícito do livro
É na segunda parte que o livro assume, sem meias-palavras, sua vocação erótica — a mais explícita entre os títulos eróticos já publicados pela editora. “Reza Profana” já anuncia no título o método central do livro: tratar o sexo como liturgia, com “gramática de respiração” e o corpo do amante comparado a “página rasgada de algum livro santo”. “Fome” trabalha o desejo através de uma cadeia de imagens líquidas e cruas — saliva, suor, néctar — construindo o corpo como “altar” e o toque como “lâmina”. Um dos poemas mais originais da seção é “Oxitocina Punk”, que recruta figuras do folclore brasileiro — a mula-sem-cabeça, a Perna Cabeluda, o Curupira — para uma cena de desejo doméstico e barulhento, misturando o imaginário regional brasileiro a uma estética quase punk, DIY, de fita cassete e caneta Bic.
“Nomadismo Afetivo” e “Orgasmo Analógico” trazem uma reflexão mais conceitual sobre desejo e deslocamento: o primeiro trata o próprio percurso — a estrada, a curva, o buraco no asfalto — como forma de tesão; o segundo contrapõe a intimidade “analógica” (suor, pulso, som) à mediação digital das telas e do GPS, um comentário sutil sobre como a tecnologia intervém até na experiência do prazer. O ponto culminante estrutural do Ato II é “Atos ou Liturgia da Decomposição Afetiva”, uma sequência de treze fragmentos numerados que tratam o fim de uma relação através de metáforas orgânicas de decomposição — “afeto também é feito de vermes”, “corpos são compostos orgânicos em constante decomposição simbólica” —, um dos momentos mais conceitualmente ambiciosos do livro, em que o vocabulário biológico substitui o lamento sentimental tradicional.
Ato III — Altar: luto, ancestralidade e corpo político
A terceira parte muda de registro e é, provavelmente, a mais substancial do livro em termos de densidade temática. “Setembro Amarelo” é um poema curto e cifrado que dialoga com o mês brasileiro de conscientização sobre prevenção ao suicídio, tratando de perda e acolhimento espiritual através da imagem das Yabás (as divindades femininas do candomblé) recolhendo a voz poética em “colo divino-azul” — um dos momentos mais delicados e contidos do livro, tratado com sobriedade.
“Valeu, Kahlo” é uma homenagem explícita a Frida Kahlo, construída em torno do refrão repetido “aceitar a minha insignificância, transformar em arte”, enumerando técnicas artísticas (soldagem, colagem, mosaico) como metáforas de reconstrução pessoal. Já “Concreto I” e “Concreto II” são os poemas mais diretamente políticos do livro: o primeiro é um poema visual, com as palavras “aborto”, “medo”, “parir” e “amor” se sobrepondo tipograficamente na página; o segundo declara, em versos diretos, uma posição sobre autonomia reprodutiva e descriminalização do aborto — um poema que se posiciona abertamente no debate público brasileiro sobre o tema, sem ambiguidade retórica.
O centro emocional do Ato III, no entanto, está em “Benu da Diva” e “Diva: parindo mitos e eras”. O primeiro narra, com precisão documental, a genealogia materna da autora: a avó Elvira, morta aos 42 anos de pneumonia depois de parir doze filhos; a mãe Diva, criada por outra mulher sem remuneração; e a própria poeta, nascida quando a mãe tinha 25 anos — uma árvore genealógica de mulheres que pariram, cuidaram e foram apagadas da história. Já “Diva: parindo mitos e eras” expande essa genealogia para o mito, tecendo numa única voz orixás como Oyá e Obá, deusas gregas e egípcias como Medusa, Ísis e Kali, e entidades como Maria Padilha — um panteão sincrético e explicitamente feminista, que termina com uma dedicatória à “mulher que me pariu e foi silenciada depois do parto, como tantas deusas que criaram mundos e ainda assim foram empurradas para o rodapé da história”.
O livro se encerra com o poema-título, “Parir Flores em Solo Árido” — que retoma a imagem da flor carnívora que atravessa toda a obra, agora como síntese: pétalas que mordem, líquidos sagrados e profanos, raízes híbridas — e com uma invocação final em iorubá dedicada a Exu, fechando o ciclo ritual aberto por “Laroyê” no primeiro poema do livro.
Estilo: neologismos, sincretismo e poesia concreta
O traço estilístico mais marcante de Virna Sabayo é a criação de palavras-fusão que condensam dois campos semânticos num só termo — “hidro-fé”, “antropofagia líquida”, “vulneralibidade”, “blas-fêmea” —, um recurso que reforça, no próprio léxico, a tese central do livro: que erótico e sagrado, corpo e espírito, não se opõem, “se contaminam”. Há também incursões pontuais em poesia concreta, sobretudo em “Concreto I”, e um trabalho constante de sincretismo religioso, que aproxima o livro de discussões sobre poesia de matriz afro-brasileira, sincretismo religioso na literatura e poesia concreta contemporânea.
Para quem este livro é indicado
Parir Flores em Solo Árido interessa especialmente a leitores de:
- Poesia erótica explícita e visceral, sem eufemismos
- Poesia de matriz afro-brasileira e religiosidade sincrética
- Poesia política sobre corpo, autonomia reprodutiva e feminismo
- Memória ancestral e genealogia materna na literatura brasileira
- Poesia concreta e experimentação formal
Atenção: por seu conteúdo sexual explícito, suas referências religiosas litúrgicas e sua abordagem direta de temas como aborto e luto, é um livro destinado a um público adulto e preparado para esse tipo de intensidade.
Ficha técnica
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Título | Parir Flores em Solo Árido |
| Autora | Virna Sabayo |
| Editora | Toma Aí Um Poema (TAUP) |
| Edição | 1ª edição, 1ª impressão |
| Publicação | 19 de maio de 2026 |
| ISBN | 978-65-6196-012-0 |
| Páginas | 96 |
| Formato | 13 x 18 cm |
| Ilustração e capa | Paula Viana Mendes |
| Estrutura | 3 atos: Anatomia da Performance, Cartografias da Carne, Altar |
| Estreia da autora em poesia | Sim |
Perguntas frequentes sobre “Parir Flores em Solo Árido”, de Virna Sabayo
Sobre o que é o livro Parir Flores em Solo Árido? É uma coletânea de poesia erótica e ritualística que funde desejo, religiosidade afro-brasileira, memória ancestral e política do corpo, organizada em três “atos” que funcionam como um ritual de abertura, desenvolvimento e despedida.
Quem é Virna Sabayo? É uma escritora, publicitária e historiadora brasileira, pesquisadora de Filosofia da Religião e Cultura. Parir Flores em Solo Árido é sua estreia em poesia, publicada pela editora TAUP.
O livro tem conteúdo religioso? Sim — o livro abre e fecha com invocações da tradição afro-brasileira (candomblé/umbanda), incluindo saudações a orixás e uma prece final em iorubá dedicada a Exu.
O livro trata de temas políticos? Sim, especialmente nos poemas “Concreto I” e “Concreto II”, que tratam diretamente de aborto e autonomia reprodutiva.
É um livro indicado para todos os públicos? Não. É poesia erótica explícita, com linguagem crua sobre sexo, além de temas como luto e aborto, recomendada para leitores adultos.
Considerações finais
Parir Flores em Solo Árido é uma estreia poética ambiciosa, que se recusa a tratar separadamente aquilo que, para a autora, sempre esteve junto: o corpo que deseja, o corpo que reza e o corpo que carrega história. Virna Sabayo constrói um livro coerente do primeiro ao último verso — do canto de saudação aos orixás à prece final —, em que a imagem da flor carnívora, que morde em vez de implorar, resume tanto a poética quanto a atitude do livro diante do mundo: mesmo em solo árido, alguma coisa insiste em florescer.
Resenha produzida para fins de divulgação literária. Trechos do livro não são reproduzidos integralmente, respeitando os direitos autorais da obra, da editora e das tradições religiosas nela referenciadas.
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