Resenha: “Quente”, de Sueka — poesia erótica e afetiva em três tempos de temperatura
Autore: Sueka | Editora: Toma Aí Um Poema (TAUP) | Ano: 2026 | Páginas: 70 | ISBN: 978-65-6196-001-4 | Gênero: poesia brasileira contemporânea, poesia erótica e afetiva
Publicado em abril de 2026 pela Toma Aí Um Poema, Quente organiza sua proposta já no subtítulo dos capítulos: AQUECENDO, FERVENDO e EBULIÇÃO. É um livro que usa a lógica térmica do calor — do fogo baixo ao ponto de fervura — como estrutura para narrar o desenvolvimento de uma relação amorosa, do desejo inicial à construção cotidiana de uma vida a dois. Como resume a escritora Mabelly Venson no texto de abertura, é um livro em que “a poesia, quando encontra espaço para existir sem contenção, queima”.
Sobre Sueka
Sueka é carioca, cria do morro Fallet/Fogueteiro, no bairro do Rio Comprido, no Rio de Janeiro. É formade em História pela UFRRJ, atua como educadore na Prefeitura de Petrópolis e é produtore cultural formade pelo SESC-RJ. Quente soma-se a uma trajetória literária já consolidada: o romance Outubros, os livros de poemas flores e cinzas e correnteza, o livreto RC Verbete Literário, além de participações em antologias ligadas à cena literária de periferia do Rio de Janeiro, como o Prêmio Rio de Contos, o Quilombo do Lima (projeto ligado à FLUP — Festa Literária das Periferias) e o projeto Território Literário — Poéticas do encontro na cidade, do coletivo PENEIRA.
Essa trajetória situa Sueka dentro de um circuito importante da literatura de periferia carioca contemporânea, o que já por si só interessa a quem pesquisa poesia LGBTQIA+ brasileira, literatura marginal do Rio de Janeiro ou novos nomes da poesia afetiva nacional.
Uma escrita em linguagem neutra
Um traço que atravessa o livro inteiro, da biografia aos agradecimentos e até dentro dos próprios poemas, é o uso consistente de linguagem neutra de gênero: “educadore”, “produtore”, “grate”, “apaixonade”, “todes ês leitores”, e, dentro de um dos poemas mais explicitamente eróticos do livro (“Encaixe”), as formas “servide” e “saciade”. Não é um detalhe pontual — é uma escolha estética e política sustentada do início ao fim, que reflete um movimento real da literatura brasileira contemporânea de incorporar a linguagem não binária como parte do próprio corpo do texto, não apenas como tema. Quem pesquisa por linguagem neutra na literatura brasileira ou poesia não binária encontra em Quente um exemplo consistente dessa prática.
Estrutura em três tempos térmicos
Capítulo I — Aquecendo
A primeira parte do livro é sensorial por definição: os poemas trabalham som, cheiro, calor e o entrelaçamento inicial dos corpos. “Som” usa a repetição da palavra-título no início de cada estrofe para construir um poema quase percussivo, sobre a respiração e o silêncio compartilhados no meio da noite. “Matar saudade” repete a mesma estrutura anafórica para tratar do desejo físico como forma de reencontro. Um dos momentos mais delicados da seção é o brevíssimo “Paquetá” — três versos que descrevem uma corrida contra o sol pela ilha carioca de Paquetá, na Baía de Guanabara —, prova de que o livro sabe também economizar palavras quando quer. A seção se encerra com “Afeto”, um giro importante: depois de tanto corpo, o poema desloca o centro do livro para o diálogo, a escuta e a comunicação como fundamento de tudo o que veio antes.
Capítulo II — Fervendo
A segunda parte aprofunda a relação para além do desejo físico, incorporando tempo, confiança e convivência. “Sinais” usa a metáfora do semáforo — vermelho, amarelo, verde — para descrever estágios de entrega emocional. “(des) equilíbrio” e “Postura” trabalham o parêntese como recurso gráfico e semântico, abrindo cada palavra para o seu duplo sentido ((des)equilíbrio, (in)consistências, (com)paixão), um jogo tipográfico que reforça visualmente a ideia de que amor e desequilíbrio caminham juntos. O poema “Casa” é um dos pontos altos do livro: constrói, estrofe a estrofe, uma definição de lar que não é romantizada — “casa se faz com erros transformados em acertos”, “em lugar digno, sem tiros” —, uma linha que ganha peso adicional ao se considerar a origem do livro, o morro Fallet/Fogueteiro, e que transforma o poema de simples celebração do amor em afirmação também de segurança e dignidade. A seção termina com “Encaixe”, o poema mais diretamente erótico do livro, que também é onde a linguagem neutra aparece de forma mais ousada dentro do próprio corpo do poema.
Capítulo III — Ebulição
A terceira e última parte é a mais intimista e também a mais generosa em ternura. “Fórmula para desfazer medo” é um poema-lista que mistura práticas de autocuidado (hidratar-se, dormir, cuidar da cabeça) com gestos afetivos (abraçar, compartilhar momentos, olhar a lua) — um pequeno manual de bem-viver a dois. “Não é ensaio” é o único poema do livro que se dirige nominalmente a “Theus” — nome também presente na dedicatória do livro, revelando que a distância entre a voz poética e a pessoa real que inspira o livro é mínima, quase inexistente. E o poema de fechamento, “Rotina”, é provavelmente o mais bem-sucedido do livro: uma semana inteira narrada dia a dia — plantas molhadas, caipirinha pronta, jogo do Flamengo assistido no sofá, uma ausência sentida na quinta-feira, o desejo de recomeçar a semana só para sentir a presença do outro de novo. É o poema que resume a tese do livro inteiro: o amor mais quente não está apenas no encontro dos corpos, mas na rotina que se constrói depois dele.
Estilo: anáfora, parênteses e corpo como linguagem
Formalmente, Quente se sustenta sobre a repetição anafórica — quase todo poema do livro repete uma palavra ou expressão no início de cada estrofe (“O som”, “Matar saudade”, “Arrepio na pele”, “Mudar de postura”, “Tocar seu corpo”) —, um recurso que empresta ao livro uma cadência quase de mantra ou de música repetida, reforçando a ideia, presente já no “Manifesto a poesia” que abre o livro, de que a poesia é “um modo de expressar” que “(R) existe” — resiste e existe ao mesmo tempo, segundo o trocadilho que fecha o manifesto. Outro recurso recorrente é o uso de parênteses para desdobrar palavras em significados duplos, quase sempre ligados à tensão entre construção e desconstrução (des) equilíbrio, (re) descobrir, (in) consistências. O vocabulário erótico é direto e sem eufemismos — o livro não esconde o desejo físico —, mas está sempre ancorado em um vocabulário afetivo mais amplo, de modo que a linguagem do corpo nunca se separa da linguagem do cuidado.
Para quem este livro é indicado
Quente interessa especialmente a leitores de:
- Poesia erótica e afetiva brasileira contemporânea
- Poesia LGBTQIA+ e literatura com linguagem neutra de gênero
- Literatura de periferia e da cena literária carioca (FLUP, saraus, coletivos)
- Poesia sobre amor de longa duração, rotina e construção de lar a dois
- Quem busca poesia sensorial, direta e sem eufemismos sobre desejo e corpo
Ficha técnica
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Título | Quente |
| Autore | Sueka |
| Editora | Toma Aí Um Poema (TAUP) |
| Edição | 1ª edição, 1ª impressão |
| Publicação | 12 de abril de 2026 |
| ISBN | 978-65-6196-001-4 |
| Páginas | 70 |
| Formato | 13 x 18 cm |
| Estrutura | 3 capítulos: Aquecendo, Fervendo, Ebulição |
| Prefácio | Mabelly Venson |
| Dedicatória | Matheus Rodrigues da Silva (“Theus”) |
Perguntas frequentes sobre “Quente”, de Sueka
Sobre o que é o livro Quente? É uma coletânea de poesia erótica e afetiva que acompanha o desenvolvimento de uma relação amorosa em três estágios — do desejo inicial (Aquecendo) à intimidade mais profunda (Fervendo) até a construção de uma vida cotidiana compartilhada (Ebulição).
Quem é Sueka? É une escritore, educadore e produtore cultural carioca, natural do morro Fallet/Fogueteiro no Rio Comprido (RJ), autore do romance Outubros e dos livros de poemas flores e cinzas e correnteza, com participação em antologias ligadas à cena literária de periferia do Rio de Janeiro.
Por que o livro usa linguagem neutra de gênero? É uma escolha estética e identitária consistente ao longo de todo o livro — da biografia da autore aos agradecimentos e a alguns dos próprios poemas — que reflete um movimento presente na literatura brasileira contemporânea de incorporar formas não binárias da língua portuguesa.
O livro é indicado para todos os públicos? Não — trata-se de poesia erótica com linguagem explícita sobre desejo e corpo, voltada a um público adulto.
Considerações finais
Quente cumpre bem a proposta anunciada em seu título e em sua estrutura térmica: é um livro que não tem pressa nem pudor em nomear o desejo, mas que reserva seu momento mais forte não para o auge da paixão, e sim para o poema final, sobre a rotina de uma semana comum vivida a dois. Sueka constrói, com repetição rítmica e uma linguagem corporal sem meias-palavras, um livro que celebra o amor tanto na cama quanto na mesa de domingo — e que, no fim, é sobre isso: o calor que sobra depois que a chama inicial se transforma em presença constante.
Resenha produzida para fins de divulgação literária. Trechos do livro não são reproduzidos integralmente, respeitando os direitos autorais da obra e da editora.
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