Resenha: Cartas para Pessoas Brancas, de Mateus Ferreira
Logo na introdução de Cartas para Pessoas Brancas, Mateus Ferreira faz uma pergunta que, segundo ele, o acompanha há anos: e se nós pudéssemos dizer tudo o que pensamos sobre as pessoas brancas? O livro inteiro é a tentativa de responder a isso. São quatro cartas, cada uma endereçada a uma figura que muita gente negra reconhece de cara: a patroa da avó, a professora, o namorado branco e uma criança branca que ainda vai crescer. E o autor avisa, já nas primeiras páginas, que esse não é um livro feito para confortar ninguém. É um alerta e é um espelho.
Dá para ler de uma vez, numa tarde, mas é difícil parar de pensar nele depois. São só setenta páginas, e cada carta pesa como um livro inteiro. É o primeiro livro do Mateus, lançado em março de 2026 pela Toma Aí Um Poema, e chega com uma escrita que sabe exatamente onde quer tocar.
Ficha técnica
| Item | Informação |
|---|---|
| Título | Cartas para Pessoas Brancas |
| Autor | Mateus Ferreira (Mateus Ferreira Martins de Jesus) |
| Editora | Toma Aí Um Poema (TAUP), São Paulo |
| Publicação | 1ª edição, março de 2026 |
| Páginas | 70 (14 x 21 cm) |
| ISBN | 978-65-83841-84-1 |
| Classificação | CDD 869.98 — Crônica brasileira |
| Gênero | Crônicas-cartas, entre memória e ficção |
| Prefácio | Thamara Abreu |
| Texto de orelha | Mabelly Venson |
| Epígrafe | Cida Bento |
| Capa, projeto gráfico e diagramação | Jéssica Iancoski |
Quem escreve essas cartas
O Mateus Ferreira é pedagogo e pesquisador. Fez mestrado em Educação na UFRJ, onde hoje faz doutorado, passou um período de pesquisa na Universidade de Cambridge estudando o movimento negro transnacional e integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Antirracista, o GEPEAR. Ou seja, é alguém que pensa raça e educação de forma acadêmica há bastante tempo. Mas aqui ele deixa a linguagem da universidade de lado e escreve de um jeito muito próximo, quase como se estivesse conversando com a gente numa mesa de bar, ou, melhor, como se estivesse finalmente dizendo em voz alta o que guardou por anos.
Ele mesmo explica que as cartas são crônicas, contos, denúncias, memórias, ficção e realidade, ou talvez nada disso por completo. E diz que o livro não quer caber numa prateleira. Para uns vai ser literatura, para outros, realidade nua e crua. Concordo. Em vários momentos eu não sabia se estava lendo uma história inventada ou um relato pessoal, e acho que essa dúvida é proposital. O que importa é que tudo ali poderia ter acontecido com qualquer pessoa negra no Brasil, e muito provavelmente aconteceu.
A epígrafe e o pacto
O livro abre com uma frase da psicóloga Cida Bento, tirada de O pacto da branquitude, publicado em 2022 pela Companhia das Letras. Nela, a autora diz que é claro que pessoas brancas não fazem reuniões secretas de madrugada para combinar como manter seus privilégios, mas que tudo funciona como se fizessem. Cida Bento, que a revista The Economist chegou a apontar como uma das cinquenta pessoas mais influentes do mundo no campo da diversidade, chama isso de pacto narcísico da branquitude: um acordo que ninguém assinou, nunca foi dito em voz alta, mas que mantém sempre o mesmo grupo nos lugares de poder.
Essa ideia atravessa as quatro cartas. Ninguém ali é um vilão de novela. A patroa não grita, a professora não usa palavras explicitamente racistas, o namorado nunca foi diretamente preconceituoso. E é justamente isso que o livro mostra com tanta precisão: o racismo brasileiro mora nos detalhes, no silêncio, no gesto que parece pequeno, no nome que ninguém se esforça para lembrar.
A patroa da avó
A primeira carta é a mais dolorosa, e talvez a mais bonita. É narrada por um menino que observa a avó, Maria, sair de casa antes do sol nascer para trabalhar na casa da Dona Renata. Ela volta com cheiro de tempero nas mãos e de produto de limpeza no corpo, toma banho como quem tenta tirar algo que ninguém vê, e janta como se não tivesse comido o dia inteiro. O menino não entende como alguém que passou o dia cozinhando pode chegar com fome.
O texto é construído com uma delicadeza enorme a partir dos cheiros. O cheiro de café toda manhã, o cuscuz amarelo dos fins de semana, o cafuné no sofá marrom. E depois, aos poucos, um cheiro sem nome que vai tomando a casa, uma espécie de mofo que o narrador diz ter nome e sobrenome. A gente acompanha a avó voltando com as mãos queimadas porque a patroa esqueceu de novo de comprar as luvas, as ligações que invadem os fins de semana, a proposta de morar de vez no quartinho dos fundos. Não tem como ler esse trecho sem lembrar de Que Horas Ela Volta?, o filme da Anna Muylaert.
Tem um detalhe que me pegou muito: o menino aprende na escola que “Dona” é um pronome de tratamento, usado para respeitar alguém, e se pergunta por que a patroa era sempre Dona Renata e a avó era só Maria. É uma observação de criança, simples, e carrega a história inteira do trabalho doméstico no Brasil.
E os números confirmam o que a ficção mostra. Segundo levantamento do DIEESE publicado em 2024, em 2022 eram 5,8 milhões de pessoas no trabalho doméstico no país, 92% delas mulheres e 61,5% mulheres negras. É a profissão que mais emprega mulheres negras no Brasil, e tem raízes diretas na escravidão. A Dona Maria do livro é uma personagem, mas é também milhões de mulheres reais.
O final dessa carta eu não vou contar, mas posso dizer que a pergunta que o narrador faz à patroa nas últimas linhas é das coisas mais devastadoras que li neste ano.
A professora branca
A segunda carta muda de tom. É mais irônica, mais direta, às vezes até engraçada de tão absurda. O narrador escreve para uma professora do ensino médio que nunca lembrava o nome dele. Um nome bíblico, de seis letras, que ela, evangélica e de cordão com cruz no pescoço, deveria conhecer bem. Difícil não pensar no próprio nome do autor, que cabe exatamente nessa descrição.
O que torna essa carta tão forte é que a professora não fica no ensino médio. O narrador entra numa universidade federal, o primeiro da família a conseguir isso, e reencontra a mesma professora, só que com outro nome, outra matéria, outra sala. O olhar é o mesmo. Ela finge compreender que ele precisa sair às 21h15 para pegar o último ônibus e depois o humilha na frente da turma dizendo que odeia aluno que usa desculpa de ônibus. Enquanto isso, trata a colega branca com carinho, sobe a nota dela em segredo e a escolhe para a iniciação científica.
E tem a cena da aula de inglês, em que outra professora troca o nome dele com o de outro menino negro e sugere que ele vá de boné na próxima aula para ela não confundir mais. O narrador pergunta, com uma calma que dá raiva: é mais fácil eu cobrir o cabelo do que você aprender meu nome? Essa carta fala de algo que todo mundo que já foi o único ou um dos poucos alunos negros numa sala conhece bem: a sensação de estar ficando louco, de achar que é coisa da própria cabeça, até perceber que isso também faz parte do jogo.
O branco que ele amou
A terceira carta é sobre amor, e é talvez a mais complexa do livro. O narrador escreve para um ex-namorado branco que, em teoria, nunca foi racista. Ele não tinha problema em demonstrar afeto em público, nunca disse nada ofensivo. O problema, como o próprio narrador conclui, era o silêncio.
Tem o amigo dele, o Breno, que solta um comentário racista no bar enquanto o namorado foi ao banheiro, e o narrador engole a seco para não estragar a noite, porque sabe que, numa mesa cheia de brancos com uma única pessoa negra, ele seria culpado pelo clima pesado. Tem o ciúme do namorado por ele se abrir mais com os amigos Fernanda e Marcos, e a resposta que nem precisa ser dita: o que os três têm em comum? E tem uma reflexão que achei corajosa, quando o narrador diz que toda pessoa negra num relacionamento com uma pessoa branca precisa de uma rede de apoio de outras pessoas negras, uma rede de escuta e de sobrevivência.
E aí vem a cena da abordagem policial. O narrador, então professor, voltando da escola no Rio de Janeiro, de fone de ouvido, com uma arma apontada para o rosto. O corpo dele já sabe o que fazer: levantar os braços, chamar de senhor, responder só o que for perguntado. O policial pergunta cadê o uniforme de estudante, e ele responde que não é estudante, é professor. Quem o salva é uma colega, uma mulher negra, que se coloca entre ele e o policial. Na hora, tocava “A carne”, da Elza Soares, a canção que há mais de vinte anos denuncia o pouco valor que o Brasil dá à vida negra.
Quando ele finalmente olha o celular naquela noite, a mensagem do namorado pergunta por que ele está sendo ignorado e o que tinha feito de errado. E quando o narrador conta o que aconteceu, a reação é perguntar o que ele tinha feito para parecer suspeito. É nesse momento que a gente entende o abismo de que a carta fala. Para o namorado, se importar com racismo era uma escolha. Para o narrador, nunca foi.
A criança branca que vai crescer
A última carta é diferente das outras porque não é um acerto de contas, é uma aposta. O narrador escreve para uma criança branca que ainda não entende nada disso e deixa claro que não a odeia. Na verdade, vê nela uma possibilidade de mudança.
Ele explica, com uma paciência quase de professor (e faz sentido, porque é), que a cor da pele dela funciona como uma chave que abre portas, mesmo que ela ainda não saiba que tem essa chave. Fala das pessoas que já dizem que ela vai ser médica antes mesmo de aprender a falar, enquanto ninguém diz o mesmo das outras crianças. Fala da branquitude como um cobertor invisível, quente, sempre pronto a oferecer segundas chances. E diz algo que achei muito importante: essa carta não é sobre culpa, é sobre responsabilidade.
Tem um trecho muito sincero em que o narrador confessa que, por muito tempo, desejou ter a pele branca. Não porque quisesse ser branco, mas porque queria crescer em paz, sem ser seguido em loja, sem levar enquadro, sem ver gente escondendo a bolsa quando ele passava. E entende, depois, que esse desejo não era dele, foi plantado por um sistema racista. A carta termina pedindo que a criança a guarde, talvez dentro do livro favorito, e a releia quando crescer. É um final que, depois de tanta dor, deixa uma fresta de esperança.
Os 23 minutos
Um dado volta duas vezes no livro: a cada 23 minutos, um jovem negro é morto no Brasil. Na introdução, o autor provoca o leitor branco a pesquisar se não acreditar. Na terceira carta, ele repete o número para o ex-namorado, explicando que precisa repetir porque, para pessoas brancas, lembrar disso é sempre uma escolha.
A estatística ficou conhecida a partir do relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, de 2016, que calculou cerca de 23 mil jovens negros de 15 a 29 anos assassinados por ano com base nos dados do Mapa da Violência. A frase virou símbolo de campanhas do movimento negro e continua sendo lembrada porque os levantamentos seguintes, como o Atlas da Violência, mostram ano após ano que a maioria das vítimas de homicídio no país é negra. No livro, o número deixa de ser estatística e ganha rosto: o rosto do narrador com uma arma apontada para ele numa rua do Rio.
Um livro para incomodar e para abraçar
O prefácio é assinado pela Thamara Abreu, pedagoga, mestra em Educação e amiga do autor, que escreve como mulher negra e conta ter sido tocada num lugar sensível, cheio de memórias. Ela transforma o próprio prefácio numa carta e pede às pessoas brancas que respeitem as mulheres negras. Na orelha, a Mabelly Venson, editora da TAUP, fala diretamente com o leitor branco, lembrando que o racismo é construído por pessoas brancas e que, por isso, cabe a elas enfrentá-lo, mesmo que o livro seja desconfortável. Os dois textos ajudam a enquadrar o que vem depois: um livro escrito por uma pessoa negra, que conversa com quem é negro e confronta quem é branco.
O próprio Mateus resume bem na introdução, quando diz que as cartas foram escritas para incomodar quem precisa ser incomodado e abraçar quem precisa ser abraçado. E é exatamente o efeito que elas têm. Leitores negros provavelmente vão se reconhecer em muitas cenas, das pequenas humilhações na escola ao medo da polícia, e vão encontrar ali alguém dizendo o que muitas vezes ficou entalado. Leitores brancos vão ser colocados diante de comportamentos que talvez reconheçam em si mesmos, e o livro pede que, em vez de se defender, simplesmente escutem.
Para quem eu indicaria
Para todo mundo, sinceramente. Mas especialmente para quem trabalha com educação, porque a carta para a professora deveria ser leitura obrigatória em qualquer formação docente. Para quem quer entender o racismo à brasileira, aquele que se esconde atrás do “eu até entendo” e do “foi só uma brincadeira”. Para quem leu Cida Bento ou Djamila Ribeiro e quer ver essas ideias encarnadas em histórias. Para pessoas negras que procuram uma escrita que as acolha. E para pessoas brancas que estão dispostas a ouvir sem interromper.
É um livro curto, que dá para ler em uma tarde, mas que fica com a gente por muito mais tempo. Daqueles que dá vontade de emprestar, e depois de comprar outro exemplar para dar de presente.
Perguntas frequentes
Quem é Mateus Ferreira?
Pedagogo e pesquisador, mestre em Educação pela UFRJ, onde faz doutorado. Fez estágio de pesquisa na Universidade de Cambridge sobre o movimento negro transnacional e integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Antirracista (GEPEAR). Cartas para Pessoas Brancas é seu primeiro livro.
Sobre o que é o livro?
São quatro cartas-crônicas endereçadas a figuras brancas do cotidiano (a patroa da avó do narrador, uma professora, um ex-namorado e uma criança) que mostram como o racismo e a branquitude atravessam o trabalho, a escola, o amor e a infância de pessoas negras no Brasil.
É ficção ou relato real?
O próprio autor diz que as cartas são ao mesmo tempo crônicas, contos, memórias, denúncias, ficção e realidade. As histórias podem ou não ter acontecido diretamente com ele, mas refletem experiências comuns a muitas pessoas negras.
O que é o pacto da branquitude, citado no livro?
É o conceito da psicóloga Cida Bento para descrever um acordo não dito entre pessoas brancas, que mantém privilégios e lugares de poder sem precisar de combinação explícita. A epígrafe do livro vem de O pacto da branquitude (Companhia das Letras, 2022).
O livro é só para pessoas brancas?
Não. Ele é endereçado à branquitude, mas também foi escrito, nas palavras do autor, para abraçar quem precisa ser abraçado. Leitores negros tendem a se reconhecer em muitas das situações.
Quanto tempo leva para ler?
São 70 páginas, que dá para ler em uma tarde.
Fontes
- Resenha de O pacto da branquitude, de Cida Bento — Goodreads
- As lições de Cida Bento — Meio & Mensagem
- Invisibilidade do trabalho doméstico no Brasil — Revista Ciências do Trabalho, DIEESE (2024)
- A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil, diz CPI — IHU/BBC Brasil (2016)
- Mortes de negros correspondem a 90,77% do total na Bahia, revela Atlas da Violência — Bahia Notícias

Jéssica Iancoski (Curitiba, 1996) é escritora, poeta e editora-curadora cultural[1]. Dirige a Associação Toma Aí Um Poema (editora literária sem fins lucrativos) [2] e já publicou mais de 10 livros [3], incluindo A Pele da Pitanga (finalista do Prêmio Jabuti 2022) [4]. É formada em Letras (UFPR, 2019) e Psicologia (PUCPR, 2019), e recebeu prêmios como o Candango de Literatura 2022 [5] e o Prêmio Sérgio Mamberti (MinC, 2023) [6]. Em 2024 foi curadora do Prêmio Literário da Cidade de Curitiba [7]. Em 2025, foi selecionada para a lista Forbes Under 30 Brasil, que reconhece jovens lideranças de destaque em suas áreas de atuação [8].
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