Resenha de Erva daninha, de Dark Ferreira
Há livros que pedem licença para existir. Erva daninha, de Dark Ferreira, não é um deles. Este é um livro que brota, ocupa, rompe o asfalto e floresce onde muita gente preferiria manter silêncio.
Publicado pela Toma Aí Um Poema em fevereiro de 2026, o volume reúne 108 páginas de poesia e se apresenta, desde as primeiras folhas, como território de ocupação, rebeldia e pertencimento. A imagem da erva daninha não aparece aqui como algo a ser eliminado, mas como força vital: raiz que insiste, corpo que cresce, voz que desobedece e floresce. Essa chave já se anuncia com vigor na abertura do livro, quando a autora convida leitoras e leitores a pisarem com ela nesse jardim insurgente chamado Erva daninha.
O prefácio de Natália Pinheiro ajuda a nomear essa potência com precisão. Ali, Dark Ferreira é apresentada como uma poeta que transforma sua escrita em resistência, identidade, liberdade e celebração do existir. A leitura confirma isso: a cada página, a autora compõe uma poética que nasce da experiência de ser mulher, da memória ancestral, do desejo, da luta e da recusa em se deixar encaixotar. Erva daninha é, acima de tudo, um livro de afirmação.
A organização do livro em sete jardins reforça essa ideia de percurso vivo e múltiplo. Os poemas se distribuem por eixos como festa, identidade, inquietações, encontros e desencontros, lembretes, natureza e profundezas, compondo um mapa emocional e político da autora. Não se trata de uma poesia de uma nota só: Dark escreve com fúria e ternura, com erotismo e manifesto, com introspecção e enfrentamento. O resultado é um livro que consegue ser íntimo e coletivo ao mesmo tempo.
Nos poemas da primeira parte, o livro ganha forte densidade política. Textos como “Mulheres de quinta”, “Ser mulher”, “Flor da coragem”, “Subtraídas”, “Caça às bruxas” e “Nossa voz” mostram uma escrita que encara o machismo, a misoginia, o racismo e a violência de gênero sem rodeios. Aqui, a poesia não está a serviço do ornamento: está a serviço da denúncia, da memória e da afirmação de existência. Em vários momentos, o verso assume tom de grito, de palco, de slamm, de manifesto — e isso faz parte de sua força.
Mas Erva daninha não se resume ao enfrentamento. Há também um trabalho muito bonito de elaboração da identidade, da sexualidade, do desejo e do afeto. Poemas como “Carta aberta”, “Girassóis”, “Criança interna”, “Espelho”, “Inquietações”, “Desnuda-te”, “Conexões” e “Dança de afetos” constroem uma voz lírica que se move entre vulnerabilidade e presença, entre descoberta de si e recusa da vergonha. O erotismo aparece com liberdade, sem culpa e sem submissão a moralismos, e essa dimensão dá ao livro uma vitalidade muito própria.
Também chama atenção a musicalidade da escrita. Muitos poemas parecem nascer da oralidade, da performance, do corpo em movimento. Há ritmo, repetição, refrão, impacto sonoro. Em vários textos, Dark Ferreira faz do poema quase uma dança falada, uma convocação à escuta e ao gesto. Isso aproxima o livro de uma poesia que não quer ficar confinada à página: quer circular, vibrar, ser dita em voz alta, ocupar espaço.
Outro aspecto muito bonito da obra está em seu diálogo com natureza, espiritualidade e ancestralidade. A imagem da planta, da seiva, da raiz, do oceano, do sangue, do céu, da chuva e do jardim aparece de forma recorrente, ajudando a construir uma poética orgânica, em que o sujeito lírico se entende como parte de uma força maior e mais antiga. Em Erva daninha, crescer é também lembrar de onde se vem.
As ilustrações de Eryslania Soares Silva ampliam ainda mais esse universo. Com traços que evocam corpo, flor, raiz, movimento e feminilidade, elas dialogam fortemente com a atmosfera do livro e ajudam a consolidar sua identidade visual como extensão do próprio gesto poético. Não são meros adornos: acompanham e reforçam a simbologia de resistência, ancestralidade e florescimento que atravessa a obra.
Para quem busca poesia contemporânea brasileira com voz, corpo, coragem e posicionamento, Erva daninha é uma leitura que merece atenção. Dark Ferreira escreve como quem sabe que a palavra pode ser jardim, faca, cura, denúncia, desejo e abrigo — tudo ao mesmo tempo. Sua poesia não pede permissão para brotar. E talvez seja justamente isso que a torna tão necessária.
No fim, Erva daninha é um livro sobre florescer apesar de tudo. Ou melhor: florescer por causa de tudo o que tentou impedir esse crescimento. Uma poesia de raiz funda, que transforma o que muitos chamariam de excesso em força criativa e o que chamariam de praga em potência de vida.
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