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História do fim do mundo e outras crônicas, de Renilda Viana: uma indicação de leitura para quem acredita na força do cotidiano

Há livros que escolhem grandes eventos como matéria literária. Outros fazem o contrário: voltam-se para o que parece pequeno, comum, quase invisível. É nesse segundo movimento que História do fim do mundo e outras crônicas, de Renilda Viana, encontra sua força. O livro reúne textos que partem do cotidiano para tocar temas amplos como desigualdade, afeto, solidão, infância, velhice, consumo, violência, fé e esperança. O resultado é uma obra de leitura fluida, mas nada superficial: cada crônica deixa no leitor a sensação de que havia mais mundo naquela cena do que parecia à primeira vista.

A própria apresentação crítica da obra aponta esse caminho ao afirmar que Renilda “tem o dom de ver grandiosidades em coisas miúdas” e que sua escrita nasce da observação atenta dos detalhes. É uma boa síntese do que o livro oferece: uma literatura que enxerga muito onde muita gente passa sem ver.

Sobre o que fala História do fim do mundo e outras crônicas?

O livro trabalha com um repertório amplo de situações, personagens e cenas do dia a dia. No sumário, isso já fica evidente: convivem ali textos como “Homens de Preto (O Progresso de São Paulo)”, “Quando eu crescer quero ter um amante”, “A Mulher da varanda”, “Amigos virtuais”, “O planeta verde”, “De qual África você está falando?” e “Escritoras aventureiras”. Essa variedade mostra que Renilda Viana transita com naturalidade entre crônicas de humor, crítica social, memória, observação urbana e comentário de costumes.

No texto de abertura, “Contar, para continuar”, Mabelly Venson define bem o projeto do livro: o cotidiano, aqui, “se abre em múltiplas direções” e passa a ser memória, denúncia, humor e espelho. As crônicas partem de cenas comuns — a sala de aula, o metrô, uma ceia de Ano-Novo, uma padaria — para alcançar “o humano em suas contradições”.

Uma escrita entre lucidez, humor e crítica social

Um dos maiores méritos de História do fim do mundo e outras crônicas é a capacidade de equilibrar leveza e crítica. Renilda Viana escreve de modo direto, acessível e conversacional, mas usa essa aparente simplicidade para tensionar assuntos muito concretos do nosso tempo.

Isso se percebe em crônicas como “O mal do século”, em que uma cena escolar revela o bullying como violência cotidiana; em “O pobre não pode ter nem cachorro”, que ironiza a precariedade da vida material; e em “A Mulher da varanda”, que opõe conforto material e carência afetiva numa imagem muito potente.

Também chama atenção a forma como a autora transforma comentários corriqueiros em reflexão social. Em “São Paulo vai virar Nordeste”, por exemplo, ela toma uma fala xenofóbica e a subverte com ironia e inteligência. Em “Amigos virtuais”, observa o esvaziamento dos vínculos na era digital. Em “Mundo infantil contemporâneo”, mostra a infância atravessada por pressa, responsabilidades precoces e desigualdade.

Por que o livro funciona tão bem?

Porque Renilda Viana conhece o valor narrativo da crônica: ela sabe que esse gênero não precisa de grandiloquência para produzir impacto. O que importa é o olhar. E o olhar da autora é atento ao social sem perder o afeto, crítico sem perder o humor, firme sem perder a empatia.

No comentário de Maria Bernadete B. de Oliveira, há uma formulação importante: nas crônicas de Renilda encontram-se “muitas vivências das quais fazemos parte”, e o livro desperta no leitor a curiosidade de fazer analogias com o próprio cotidiano. Essa talvez seja uma das principais qualidades da obra: o reconhecimento. O leitor encontra ali não apenas histórias, mas espelhos.

A crônica-título e a ideia de fim

A crônica “História do fim do mundo” ajuda a compreender a atmosfera do livro. Nela, um vendedor de caranguejo organiza sua virada de ano em meio a simpatias, desejos, carências e uma suposta profecia do fim do mundo. O texto mistura humor, crença popular, solidão e tragédia, encerrando com uma observação certeira: muitos acreditam em simpatias e profecias, mas não conseguem acreditar em si mesmos.

Esse movimento é muito representativo da coletânea. O “fim do mundo” não aparece apenas como evento apocalíptico, mas como metáfora dos pequenos colapsos da vida social e íntima: o fracasso das relações, a erosão do cotidiano, a desigualdade, a brutalidade, a perda do sentido comum. Ainda assim, o livro não se fecha em pessimismo. O texto de Mabelly Venson já sugere isso ao afirmar que, mesmo quando o fim se anuncia, ainda há quem conte histórias e, contando, faça o mundo continuar.

Quem é Renilda Viana?

Ao final da edição, a autora é apresentada como escritora natural de Iraquara, na Chapada Diamantina, Bahia, formada em Ciências Biológicas e pós-graduada em Tutoria Online pela Universidade SENAC/SP. Professora aposentada, dedica-se atualmente à literatura, escreve contos, crônicas e poesias, atua com livros independentes e organização de antologias, e já publicou seis livros, três deles infantis. Esse percurso ajuda a entender a amplitude dos interesses presentes na obra: educação, cotidiano, observação social e imaginação literária convivem de forma orgânica em seus textos.

Para quem este livro é uma boa indicação de leitura?

História do fim do mundo e outras crônicas é uma ótima indicação para quem:

  • gosta de crônica brasileira contemporânea;
  • procura livros que unam humor, crítica social e humanidade;
  • se interessa por temas como educação, desigualdade, cotidiano urbano e relações humanas;
  • quer uma leitura acessível, mas com densidade;
  • acompanha o catálogo da Toma Aí Um Poema e busca vozes que escrevem o presente a partir de cenas concretas.

Também é um livro que funciona muito bem em clubes de leitura, projetos escolares e mediações literárias, justamente porque suas crônicas abrem conversa com facilidade.

Projeto editorial e identidade visual

O livro conta com direção editorial de Jéssica Iancoski e Mabelly Venson, coordenação editorial e preparação de Mabelly Venson, revisão de Maria Bernadete B. de Oliveira e design de capa, projeto gráfico e diagramação de Jéssica Iancoski. A capa, com o livro aberto e um olho de onde escorre uma forma líquida em laranja e branco, traduz visualmente algo central da obra: ver o mundo, transformar visão em linguagem e fazer da literatura uma forma de leitura crítica do real.

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