Resenha | Armações de Antônio Manoel por Katiuce Lopes

Em março deste ano, o poeta e professor Antônio Manoel dos Santos Silva presenteou-nos com um encorpado volume de textos poéticos ilustrados de forma refinada por Luíza Santos Silva, sua filha: “MÁSCARAS, ENIGMAS E COMENTÁRIOS”.

Em março deste ano, o poeta e professor Antônio Manoel dos Santos Silva presenteou-nos com um encorpado volume de textos poéticos ilustrados de forma refinada por Luíza Santos Silva, sua filha: “MÁSCARAS, ENIGMAS E COMENTÁRIOS”.

Ajudado pelo formato geométrico agradável para a leitura, o cuidado gráfico com o livro adensa a experiência estética, acendendo a imaginação com delicadeza.

A intrigante capa do volume aproxima-se da estética surrealista e a técnica da colagem imagética remete rápido às sobreposições de referências diversas trabalhadas pelo autor no corpo do texto.

Os poemas estão distribuídos em três compartimentos:

Em “Comentários” traduz-se a personalidade arguta do autor ao inscrever-se na realidade supostamente banal com um misto de vozes faladas e ouvidas em sua (suponho) barulhenta cabeça, de onde ressoam línguas variadas, timbres, poetas, filmes, obras de arte de toda natureza e pertencentes à vasta tradição ocidental. 

Depois, em “Enigmas”, a inteligência lógica do autor investe nas traquitanas da linguagem poética, nem sempre acessíveis a leitores comuns, como esta que agora escreve, que tropeçou na sutileza acurada de algumas páginas. Esses enigmas não raro fazem cruzar plano de fundo e metacognição, referências de alta cultura e regionalismos, estilo conciso e melodia cadenciada.

Em “Máscaras”, o poeta relembra e homenageia aquilo que devorou e digeriu numa vida multiplicada pela experiência densa da leitura, agora revisitada pela memória criativa.

Quem abre um livro de Antônio Manoel dos Santos Silva sabe que encontrará um diálogo culto, humanista, universal, rico e não menos doloroso com a vida e com a tradição literária. Mesmo assim, é possível impressionar-se já no primeiro poema que desafia Mário Quintana em sua leveza de alma: “as felizes recordações que,/se não passaram,/passarão!” – o poeta de agora ainda ri da relação entre os pássaros e a sucessão de acontecimentos na vida, porém há em seu riso um travo inescapável de dor.

Essa dor jamais apaga a beleza consciente de colher os dias à moda arcaica dos poetas latinos e suspeitar, ao mesmo tempo, do contratempo do carro sem revisão, dos inconvenientes do voo. 

Desconfio que o engendramento dessas sutilezas tenha se dado em intervalos roubados da rotina intensa de ser um eminente e concorrido professor neste país tumultuado e continental. Dessa forma, às vezes tudo parece uma vida vista de cima, do assento apertado de algum avião. É assim que a imaginação estética viaja nas asas da inteligência e do humor ácido desse eu-lírico meio hipócrita, meio cúmplice, certamente irmão, companheiro…

Mas prepare-se, leitor, o diálogo com Antônio Manoel é denso, adiado, problemático, intenso…deixa molhados a camisa (pelo trabalho volumoso) e o rosto (pela emoção pungente) na batalha cerrada com sua arquitetura mental.

Katiuce Lopes Justino possui formação em Letras e Pedagogia, com Mestrado e Doutorado em Literatura pela Unesp de São José do Rio Preto. Atua na Secretaria Municipal de Educação.

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