Poesia Contemporânea: 5 Poemas de Lasana Lukata

5 Poemas de Lasana Lukata, poeta de Meriti (RJ), para o Podcast Toma Aí Um Poema, na categoria Poesia Contemporânea.

lasana lukata fotoLasana Lukata é poeta e escritor nascido em São João de Meriti, 14 de março de 1964, Dia Nacional da Poesia, na antiga Estrada de Minas; oriundo de família de pedreiros, foi marinheiro de um navio contratorpedeiro que afundou nas águas de Durban a caminho da Índia ao ser rebocado para desmanche. (D37 Contratorpedeiro Rio Grande do Norte). Coincidentemente, a vida de Lukata também afundou, de servidor federal caiu para estadual, hoje é servidor público da Prefeitura de São João do Meriti como trabalhador braçal, mas se afundaram o navio e o homem de guerra, emergiu o poeta, participando da Oficina Literária ministrada pelo poeta Ferreira Gullar em 2001, na UERJ, resultando na Antologia Poética “Próximas Palavras”; cursando Literaturas Portuguesa e Africanas de Língua Portuguesa, UFRJ.

Leia o Zine com Poemas de Lasana Lukata (Toma Aí Um Poema, 2021)


lasana lukata poemas

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Mesóclise

pais separando
entre eles o menino
dando a mão a um e outro

mesóclise
a mãe próclise
com palavras negativas
o atraía para antes do verbo

o pai
ênclise com um ar imperativo
arrastava-o para depois do verbo

três lâmpadas
uma a uma apagaram-se as luzes
e a ideia de futuro


Não Toquemos Nessa Tecla

um português não quis morar no Brasil
porque havia risco de perder tudo, tudo…
contava melancolicamente como foi triste em Angola,
ele indo embora, olhando para trás
e ver a sua casa ser invadida, perdeu tudo, tudo…
e ao português não ocorria a imagem reflexa,
de como foi conquassivo para um angolano,
olhando para a frente, para as ondas amargas
e ver o seu país ser invadido, perdendo tudo, tudo:
os pássaros envenenados;
os ventres das grávidas rasgados à baioneta;
pernas e braços mutilados por minas terrestres
e o sal dos mares nas feridas
e ninguém para estancá-las…
entre o ninho abandonado e o ninho invadido,
este português saiu ileso de Luanda,
levando braços e pernas construiu novas riquezas
e tem o mesmo medo de Jó de perder tudo, tudo…
e o que se teme chega.
Deus não fez chover enxofre e fogo em Angola,
se o tivesse feito,
este português teria se transformado numa estátua de sal.
caro portuga, não toquemos nesta tecla,
entremos no mercado do Saara,
lá não se fala do conflito árabe-judeu, das Colinas de Golan,
Grécia e Turquia…
e esta bífida melancolia
não amamenta os dois lados.


À Maneira Mais Cortante

para escrever 
naufrago minha pluma
de quimérica brancura
no Meriti-Pavuna,
um rio estreitado que hostiliza
a alma até a morte;
naufrago em toda sua turbidez
que não me deixa ver o verso,
apenas ouço os sintomas…
a enchente encobre minha pluma
e há dias que escrevo lama,
baforadas de cólera,
à maneira mais cortante
e quem ouvirá este forte som de garça,
interpretar o amontoado,
na desordem desse ninho?
no outono caem as folhas e a garça
deixa em queda outra pluma.
ah se, de pluma em pluma,
para alívio e gozo do poeta,
eu pudesse voar com este corpo,
demulcir teus seios!
mas o pássaro naufraga,
não encontra lastro
e tudo pesa,
tudo adumbra seu caminho
e anuncia a tua ausência.


Alucinados Passarinhos

desculpe, não pude deter o voo dos meus pássaros.
todos os meus pássaros morreram na tua vidraça.
sou o fechado girassol que se abriu e tu
a couve aberta, especial, que se fechou, repolho,
e já não ouço a tua voz, mas o ferrolho
a cortar o caminho e me recolho
em meu verso, ensimesmado girassol.


Feira Livre


Verde! Verde! Verde!

de graça, nem a garça.
teus olhos dois tomates:
teus seios dois abacates:
dois limões do Mato Grosso,
casca fina, caldo grosso,
refrescando meu almoço,
não afeta o seu bolso,
não me chame de caroço,
o importante está no osso,
vendo salsa: não insosso,
as palavras tem aromas…
no naufrágio da quietude
tuas pernas de alicate
(ao silêncio, ó disparate!)
aprisionam em combate
o meu êmbolo no poço.
por ti tanto alvoroço:
este aroma de amora
amorável feira afora,
com bertalhas, flores brancas,
trepadeiras de horizontes
e bate o teu coração,
fechado como um repolho,
dizendo limão com couve,
tal mistura nunca houve.


Confira A Poesia Contemporânea de Lasana Lukata no YouTube

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