Resenha de O silêncio da loba, de Margarida Montejano
Há livros que gritam. Outros sussurram. O silêncio da loba, de Margarida Montejano, pertence a essa segunda espécie rara: a dos livros que nos alcançam pela escuta. Publicado pela Toma Aí Um Poema em dezembro de 2025, o volume reúne dez contos e se apresenta como uma obra de ficção profundamente atravessada pela realidade, pela memória e pelos ruídos íntimos da experiência humana.
Já nas páginas iniciais, a apresentação assinada por Mabelly Venson oferece uma bela chave de leitura: quando uma loba silencia, isso não significa ausência, fraqueza ou rendição. É a partir dessa imagem que o livro se abre como um território de mulheres, lembranças, pequenos gestos e feridas que continuam falando — mesmo quando a voz falha. A coletânea convida o leitor a perceber “o que não é dito”, a notar o que escapa, a ouvir o mundo com mais delicadeza.
Esse talvez seja o traço mais marcante de O silêncio da loba: a capacidade de transformar o cotidiano em matéria literária sem esvaziá-lo de densidade. Margarida Montejano escreve a partir de cenas comuns, espaços domésticos, encontros aparentemente simples, mas tudo em seus contos carrega uma tensão emocional e simbólica muito forte. As histórias parecem brotar de conversas guardadas, memórias antigas, dores caladas, intuições femininas e instantes em que a vida, de repente, revela sua camada mais funda.
O livro também impressiona pela variedade temática. Em contos como “A transgressão de Medusa”, a autora enfrenta a violência de gênero e a cultura da impunidade com coragem e contundência; em “Tamancos de Natal”, o afeto, a adoção e a escuta do coração conduzem uma narrativa comovente; no conto-título, “O silêncio da loba”, o silêncio aparece como refúgio, resistência e, mais tarde, possibilidade de reencontro com a própria voz. Já textos como “A sorte nas estampas”, “O cheiro da história” e “Você pode voar” exploram memória, infância, acaso, imaginação e afeto com grande sensibilidade.
Há, ainda, uma forte dimensão de oralidade no livro. Muitas narrativas parecem nascer do gesto de contar para alguém, de rememorar ao redor de uma mesa, de recuperar uma imagem, uma música, um cheiro, uma frase antiga. Isso dá ao conjunto uma atmosfera calorosa, próxima, quase confidencial. Não por acaso, uma das ideias mais bonitas que atravessam a obra é a de que “quem conta a história é o ouvido”. Em Margarida Montejano, narrar é também escutar — a si, ao outro, ao passado, ao que ficou suspenso.
Outro aspecto bonito da coletânea é o modo como ela articula delicadeza e denúncia. Os contos não abrem mão da ternura, da poesia e da imagem sensível, mas tampouco se afastam das violências do mundo. Pelo contrário: olham para elas de frente. A mulher ocupa o centro dessas narrativas não como figura decorativa, mas como sujeito de memória, dor, decisão e transformação. É uma literatura em que ética, lirismo e resistência caminham juntas.
Também vale destacar o diálogo entre texto e imagem. As ilustrações de Ruy Trochmann reforçam o clima de fabulação, intimidade e trânsito entre sonho e realidade que atravessa o livro. Elas não funcionam apenas como ornamento, mas como extensão sensível desse universo narrativo.
Para quem gosta de contos brasileiros contemporâneos, especialmente aqueles que trabalham memória, experiência feminina, oralidade e emoção sem perder densidade crítica, O silêncio da loba é uma leitura muito potente. É um livro que fala de dores antigas, mas também de recomeço; de silêncios, mas sobretudo de voz; de fragilidade, mas ainda mais de força.
No fim, o que Margarida Montejano oferece aqui é mais do que uma coletânea de contos: é um conjunto de histórias em que o silêncio não aparece como apagamento, e sim como passagem. Dele, nasce o uivo. E esse uivo, como sugere o belo texto de fechamento do volume, não intimida — anuncia presença.
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