5 poemas da antologia “LGBTQQICAPF2K+: O Amor é gigante”, da Toma Aí Um Poema

Livro “LGBTQQICAPF2K+: O Amor é Gigante”, organizada pelo Toma Aí Um Poema como parte da “CEMana de 22” — projeto que tem como objetivo, 100 anos depois da Semana de Arte Moderna, organizar, mapear e registrar a produção contemporânea de poesia.

Luíza (ou Velhos hábitos)

Luíza tem três amigos
Cada qual é diferente
E todos eles são gente
mas às vezes são abrigo

Márcia é a mais antiga
e não suporta seu drama
Mas Luíza sabe, ela a ama
Mesmo quando ela briga

Val está sempre cantando
e vive a sonhar com a fama
Mas Luíza sabe, ela a ama
Mesmo a envergonhando

O pai dela é um sábio
e ele nunca se engana
Ela sabe que ele a ama
Mesmo que a chame de Fábio

 

Leo Ottsen

Escritor, poeta, educador, tradutor, roteirista, revisor e preparador de textos. Graduando em Produção Cultural. Membro do coletivo Poetas Papareias e da Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil. Colunista da Revista Subjetiva.

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TRANSTERRESTRE

O homem chegou até a lua
Mas pra chegar até mim tá difícil
Aterrisar, decolar, surfar naufragar,
Eis a questão, você decide, vem ou não?
Você vem ou eu vou? Quem é que vai lançar voo? No meu planeta ou no seu? sete dias, quinze, ou será pra sempre meu?
Quem vai colocar essa roupa espacial?
Para ir no meu espaço astral, flutuar no espaço sideral?
Independente dessa nave flutuando ao breu O que está em desenvolvimento aqui É se você abre mão ou eu
Quem vai se emancipar para fazer descobertas? Viajar para Marte, buscar a lua, ou só ficar na terra Vendo enquanto a nave inimiga me intercepta.
Nossa conexão tem sido telepática, empática, Mas, quando vamos para a prática? Ao nos tocarmos quem será contaminado?
No fruto dos meus beijos, amaldiçoado.
Calado, extasiado, ofegante ou infimamente tocado?
Extraterrestre? Extraterreno? Alienígena? Forasteiro? Quero mesmo que te entregues a mim de corpo inteiro.
Quer me conhecer ou eu quero você?
Depois de descobrir a lua qual o próximo passo? Qual a rota dessa viagem espacial?
O ônibus quem te traz ou te leva a outra parada? Seria eu a ir até você sem medo de ser largada?
Querer desbravar o espaço contigo é fissurar Querer mudar a sociedade é fantasiar Somos nós presos no espaço tempo que não evoluiu? Ainda há tempo para ver se tudo ruiu. Flutuar no vácuo do espaço para estar com você Não me assusta, me faz querer Pra fugir dessa realidade
Quero levantar voo,
amerrisar,
aterrizar,
pousar,
decolar,
Sobrevoar,
Mas até quando serei eu a sair para te alcançar?
Não me deixe aqui!
Nessa área que me reservaram pra te encontrar Quero um canto só nosso,
nem que seja numa constelação,
Num cometa em circulação,
Um asteroide em degradação.
Mas algo meu e seu, sem olhos e ouvidos Só nossos lábios é quem falarão. Podemos fugir, ninguém terá acesso,
Nenhum humanoide ou observadores.
Você comanda a nave, eu pego no volante, Seria perigoso, eu seguraria firme, sem medo. Sobreviveríamos, você, eu e nossos beijos.
Escolha: espaçonave ou astronave?
Somos criminosos por buscar a descoberta Novas luas jamais exploradas Um templo onde seriamos imagens sagradas.
Nossa espécie nos caçando,
Sou criminosa do planeta terra
Você o extraterreste nessa guerra
Prendam-me!
Eu quero uma viagem só de ida
Não tem amor pra mim, nessa terra!

 

Lupita Amorim

Lupita Amorim, 21 anos. Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Representante de Estudantes Negras e Negros no Conselho de Política de Ações Afirmativas e integrante do Programa de Extensão: “Ação afirmativa no Ensino superior: articulações de vivências e saberes na UFMT” do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação- NEPRE/UFMT, sob coordenação da Professora Doutora Candida Soares da Costa.

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THRILLER DE UM HOMEM GAY


Apanhei doença-do-mundo. Escondi muitos dias do povo da casa-grande. Ensinaram-me remédios que eu tomava em segredo na beira do rio. Dormia no sereno a goma com açúcar para os meus males. Não melhorava, tinha medo de urinar com as dores medonhas

— Menino de engenho. José Lins do Rego



uma vida à gay talese
fernando está gripado
fernando está cansado
fernando não pôde vir
fernando está trancado no seu quarto
fernando não quer visitas
fernando, de tanto pecar,
pegou a doença-do-mundo
está de quarentena moral

fernando lembra a infância
abençoado por um deus de armário,
onde se escondia pra não morrer de fome
vai na rua de João Gomes, mata um homem, tira a tripa e come, respondia a vó
tinha sol, lua, rio, chuva e estrelas
para brinquedos que não se quebravam

recebeu uma vida de homem gay
um homem perdido escangalhado
pra uns, morre de fome de macho
pra outros, é um depravado

mas fernando quer revolta
dá voltas no cubículo
fuma um cigarro imaginário
acordou o namorado enciumado
e… eureca! ora, ora,
elementar, meu caro watson

fernando está gripado
fernando está cansado
fernando não pôde vir
fernando não quer visitas
e todo o resto que disserem:
é mal gosto literário

 

Fernando Impagliazzo

Fernando Impagliazzo (Rio de Janeiro, 1990) é graduado em Letras/Literaturas pela UFRJ e doutorando em Literatura Brasileira pela mesma instituição. É autor de Prova das nove (Multifoco, 2014). Colaborou na antologia Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv / aids. (Bazar do tempo, 2018). Está soropositivo desde 2009 e pretende abordar o tema no seu próximo livro de poesias: o Promíscuo.

 

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— Bibi!

— Bibi!

buzinaram pra ela
nove motos
oito carros
sete vans
seis caminhonetes
cinco mobiletes
quatro caminhões
enquanto
três ciclistas e dois pedestres
a comiam com os olhos
nos dez minutos em que esperou
um
ônibus

— Bibi!

buzinou a viatura
acendeu o giroflex
os policiais gritaram
“delícia!”
para as duas meninas
que se beijavam na rua
à noite
sozinhas

— Bibi!

eita
ela é bissexual
ela é indecisa
ela é curiosa
ela é hetero-flex
ela é uma putinha fogosa
ela é bissexual porra nenhuma
isso é só putaria
eita!
bora fazer um menàge?

— Bibi!

disparou o meu alarme
essa mana aí é bi
essa mana é sapatênis
e se me trocar por um macho
e se não puder me assumir
e se ela tiver doença?

— Bibi!

esse bê é de biscoito
esse bê é de bolacha
esse bê é de Beyoncè
muitas vezes nem se sabe
o que que esse bê faz
e onde é que ele se encaixa
em LGBTQIA+

 

Priscilla Cler 

Priscilla Cler é de Belo Horizonte – MG e reside há 6 anos em João Pessoa – PB. É atriz (bacharel em Interpretação Teatral pela UFMG), cantora e professora de canto (licenciada em Música com habilitação em Canto Lírico pela UEMG) e Mestre em Artes pela UFMG. Já participou como atriz, cantora e/ou preparadora vocal em mais de 40 espetáculos de teatro. Na literatura, teve um poema selecionado e publicado na antologia do Concurso Iaras de Poesia, em 2019; em 2020 ficou em terceiro lugar no Concurso de Poesia Augusto dos Anjos, da prefeitura de Sapé – PB; em 2021, teve três poemas publicados na antologia Da Língua à Liberdade, publicado no formato de e-book pela Editora Triluna. Seu primeiro livro, Poesia Cretina, foi lançado recentemente pela Editora Urutau, integrante da coleção Quem dera o sangue fosse só o da menstruação. 

 

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Dois já foi


Entregam-me um caminho retilíneo
onde cada parte do meu corpo
é espaço público de deduções e suposições
sobre o ponto que me aproximo:
masculino                                        feminino
         ?                                                    ?
Se como menina, nascem pelos
virei mulher
mas para ser feminina
preciso tirá-los
Se a bunda e curvas aparecem
já não sou mais menina
mas só feminina
se isso pertencer ao meu esposo
Se meus seios despontam
sou mulher de novo
mas se não grandes suficientes, posso ser menino
por isso: “use sutiãs de bojo”
Do que me deram fiz bagunça
Deixei os pelos, casei com brincos
masculinei as calças, feminizei os cintos
E no lugar de duas pontas, eu fiz tranças
O gênero que era binário
virou pura mistura, pintura e bordados
um lugar extraordinário
para re-existir.

 

Karla Fontoura

Comunicóloga formada na UNEB, graduando em Pedagogia pela UNOPAR e escritora baiana de textos informativos e poemas, palestrante, tradutora, mãe feminista de Kabir. Colunista dos blogs Não me Kahlo e Mães que escrevem. Pessoa não-binária (ela, ele, elu) e pansexual. Luto pelas mulheres e as crianças e busco conectar informações relevantes para mudanças de consciência e comportamento.

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