Há livros que pedem urgência. Outros pedem silêncio. Um alfabeto em mim, de Mônica Anjos, pertence a esse segundo gesto: é uma leitura que convida à pausa, ao mergulho interior e à escuta de si. Publicado pela Toma Aí Um Poema em 2025, o livro se apresenta já na capa como um conjunto de “momentos de introspecção, oração e cura”, e cumpre essa promessa com delicadeza, unidade e forte vocação contemplativa.
Mais do que uma coletânea de poemas, a obra funciona como uma travessia afetiva e espiritual. Cada texto parece nascer de um estado de presença, como se a escrita fosse também prática de reconexão. Em vez de apostar no excesso, Mônica Anjos escolhe a depuração. Em vez de disputar a atenção do leitor, oferece acolhimento. O resultado é um livro breve no formato, mas amplo em ressonância.

Sobre o que fala Um alfabeto em mim?
O livro se organiza como um alfabeto íntimo. Depois de textos iniciais como “Sobre a livrete”, “Sobre o alfabeto” e “Sobre o processo”, a autora apresenta uma série de verbetes-poemas, cada um associado a uma palavra-chave: Ancestralidade, Boniteza, Centramento, Divindade, Existência, Felicidade, Gratidão, Honradez, Incompletude, Jornada, Liberdade, Movimento, Natureza, Onipresença, Propósito, Quietude, Reciprocidade, Singularidade, Ternura, Unidade, Voracidade, Xodocidade e Zelo.
Essa estrutura é central para a experiência de leitura. O “alfabeto” não é apenas um recurso formal, mas uma forma de mapear dimensões do ser. Cada palavra abre uma porta para uma reflexão sobre existência, afeto, espiritualidade, corpo, natureza, tempo e pertencimento. É como se a autora criasse um pequeno léxico da interioridade.
Um livro nascido da pandemia e transformado em gesto de cura
Em “Sobre a livrete”, Mônica Anjos conta que o projeto nasceu no final do primeiro ano da pandemia de covid-19, como fruto de uma solidão ressignificada em solitude, entrega e autoconhecimento. A obra começou como presente criativo para uma amiga querida, no Natal de 2020, e depois se materializou em livro, desejando “criar asas e visitar outras almas”. Esse contexto ajuda a compreender o tom do volume: Um alfabeto em mim é um livro que nasce de um tempo de retração e incerteza, mas transforma essa experiência em linguagem de cuidado.
Essa origem não é acessória. Ela explica por que a leitura transmite uma sensação de recolhimento fértil. Não se trata de isolamento melancólico, mas de uma interioridade que busca sentido, escuta e regeneração.
Introspecção, espiritualidade e linguagem afetiva
A poesia de Mônica Anjos se ancora em palavras que remetem à vida interior, mas também ao laço com o outro e com o mundo. Em “Quietude”, por exemplo, a autora escreve sobre aquietar pensamentos, acalmar a respiração e sintonizar corpo, alma e espírito. Em “Divindade”, o eu poético se percebe como centelha entre outras centelhas, em completa conexão com o divino. Em “Natureza”, a autora afirma que uma natureza inteira a habita, do mesmo modo que ela habita a natureza.
Esses poemas mostram uma escrita interessada não apenas em expressar sentimentos, mas em organizar uma ética da presença. O livro fala de inteireza, vulnerabilidade, mutualidade, cuidado, conexão e liberdade coletiva. Em “Liberdade”, por exemplo, a autora afirma que sua liberdade, sozinha, não bastaria — ideia que desloca o livro do mero individualismo espiritual para uma percepção relacional da existência.
O alfabeto como gesto de autoconhecimento
Um dos trechos mais bonitos do volume está em “Sobre o alfabeto”, quando Mônica explica que seu “alfabeto de entranhas” acompanha memórias de infância e que apenas 23 partes de si aparecem no livro, porque K, W e Y ficaram de fora. A autora reconhece esse fracasso com ternura, dizendo que talvez tenha ocultado essas letras para não se desnudar tanto. É um detalhe simples, mas muito significativo: o livro assume desde cedo que todo autoconhecimento é também parcial, que sempre há algo que escapa.
Esse gesto faz de Um alfabeto em mim uma obra espiritualmente aberta, sem rigidez. Não há pretensão de completude absoluta; há procura, entrega e escuta.
Projeto gráfico e visualidade contemplativa
Outro elemento importante é o projeto gráfico. O livro conta com capa e projeto gráfico de Jéssica Iancoski e constrói uma visualidade marcada por imagens em preto e branco, manchas aquareladas e fotografias de natureza, paisagem e textura. Essas imagens aparecem ao longo do volume e reforçam a atmosfera contemplativa da obra.
Há páginas de respiro visual, manchas abstratas que funcionam como pausas meditativas, e fotografias que dialogam com o tema do livro — cachoeira, estrada, cerca, mar, guarda-chuvas suspensos, aves na areia, formações rochosas. Esse conjunto transforma a leitura numa experiência mais lenta e sensorial, coerente com a proposta de introspecção.
Um livro que também convida à escuta
Um diferencial bonito da edição está na página final: o livro oferece acesso a um audiolivro com poemas declamados na voz da autora. Esse detalhe amplia a obra para além da página e fortalece sua dimensão de encontro íntimo com o leitor.
Em livros que trabalham meditação, presença e afetividade, a voz importa. Saber que os poemas também podem ser escutados na voz de Mônica Anjos acrescenta uma camada importante à experiência.
Para quem este livro é uma boa indicação de leitura?
Um alfabeto em mim é uma excelente indicação para quem:
- busca poesia brasileira contemporânea com tom contemplativo;
- se interessa por autoconhecimento, espiritualidade e cura;
- gosta de livros breves, mas densos em sensibilidade;
- procura uma leitura que acolha em vez de atropelar;
- valoriza obras em que texto e projeto gráfico dialogam.
Também é um livro que pode circular muito bem em rodas de leitura, encontros terapêuticos, clubes do livro e espaços voltados à escuta e ao cuidado.
Por que ler Mônica Anjos agora?
Porque sua escrita oferece algo raro: serenidade sem superficialidade. Em um tempo de dispersão, velocidade e sobrecarga, Um alfabeto em mim propõe outro regime de leitura. É um livro que desacelera. Que não exige performance do leitor. Que se aproxima como companhia.
Além disso, a autora constrói uma linguagem acessível sem empobrecer a experiência poética. Seus poemas são claros, mas não simplistas; suaves, mas não banais. Há uma ética do afeto e da atenção em cada página.