Sobre o Chão e outros deuses, de Marina Cristal: uma indicação de leitura para quem busca poesia com raiz, corpo e vertigem

Há livros que parecem nascer da linguagem. Outros parecem nascer da terra. Sobre o Chão e outros deuses, de Marina Cristal, pertence a essa segunda linhagem: sua poesia brota de chão, lama, bicho, semente, leite, osso, luto, desejo e maternidade. Publicado pela Toma Aí Um Poema em 2025, o livro constrói uma voz poética que se move entre o íntimo e o ancestral, entre a natureza e o humano, entre o mito e a experiência concreta do corpo.

A apresentação assinada por Paula Castiglioni oferece uma chave precisa de leitura ao dizer que as palavras de Marina Cristal nascem “emolduradas de terra, lama, água”, atravessadas por mariposas, tucanos, cigarras e sal. Também destaca uma escrita “destemida, devotada à natureza”, feita de biomas, árvores, insetos, dor e suor. É exatamente isso que o livro entrega: uma poesia em que a matéria viva do mundo não serve de decoração, mas de fundamento.

Sobre o que fala Sobre o Chão e outros deuses?

O livro reúne poemas que orbitam temas como natureza, morte, maternidade, memória, desejo, ancestralidade, violência, mito e transformação. O sumário já evidencia essa variedade, com títulos como “Cigarra”, “Tucano do bico verde”, “Vaga-lumes”, “Das chagas de Obaluaiê”, “Quando penso em Quíron”, “Medeias”, “Puerpérola” e “Século XXI”.

Mas essa diversidade não fragmenta o livro. Pelo contrário: há uma unidade profunda entre os poemas. Marina Cristal costura bicho, planta, maternidade, infância, luto e força feminina numa mesma teia simbólica. O livro parece repetir, de várias maneiras, uma mesma pergunta: como seguir viva, sensível e inteira num mundo que insiste em cortar, cimentar, violentar e extrair?

A resposta não vem como tese, mas como corpo poético.

Uma poesia que devolve a linguagem ao chão

O poema de abertura, “Propósito”, talvez resuma o projeto do livro inteiro: “Emprestar a garganta pro chão / que me emprestou esse corpo / para poder cantar”. Há aqui uma poética da devolução. O corpo não aparece como propriedade isolada do eu, mas como empréstimo da terra. A voz, por sua vez, é menos individual do que telúrica.

Essa ideia atravessa a obra de muitas formas. Em diversos poemas, o humano é pensado em continuidade com o vegetal, o animal, o mineral e o espiritual. A poeta não observa a natureza de fora; ela a habita e é habitada por ela. Em “Autobiografia”, por exemplo, a presença de insetos no corpo da narradora não cria estranhamento, mas reconhecimento. O poema culmina num verso belíssimo: “Nenhum inseto duvidou de mim / E, antes de montanha, sou gente”.

Natureza, bioma e crítica do utilitarismo

Um dos traços mais fortes de Sobre o Chão e outros deuses é a recusa de uma visão utilitária do mundo natural. Em “Delírio”, Marina Cristal escreve contra a lógica que transforma montanha em joia e dinheiro, questionando a ideia de utilidade como medida de valor. O poema defende o direito da montanha de ser montanha, de viver em seu “tempo largo”, sem precisar justificar-se ao regime da exploração.

Essa mesma sensibilidade aparece em vários outros momentos, como em “Século XXI”, quando a tristeza do presente é comparada à extinção dos vaga-lumes, e em “São holofotes que impedem”, onde a luz artificial se torna metáfora de um mundo que já não permite o encanto noturno.

Há, portanto, uma dimensão ecológica muito forte no livro — mas ela nunca soa panfletária. A crítica emerge incorporada à linguagem, ao imaginário e à experiência sensível.

Maternidade, corpo e criação

Outro eixo central da obra é a maternidade. Mas Marina Cristal não a trata de modo idealizado ou simplificador. Em poemas como “Minha barriga cresceu”, “Todos os sons que saem da tua boca”, “Na ordenha”, “Puerpérola” e “Se eu pudesse, criatura minha”, a maternidade aparece como experiência física, cósmica, desgastante, amorosa, criadora e irreversível.

Em “Minha barriga cresceu”, a expansão do corpo é comparada à divisão da Pangeia em continentes. Em “Puerpérola”, a mulher é apresentada como alquimista de si, transformando dor em alimento para a vida. Em “Como é mesmo o nome daquele cachorro de três cabeças”, há uma inflexão de humor e mito que desemboca numa definição inesperada e contundente da maternidade: o nome do cão infernal é “Mãe”.

Esses poemas fazem do corpo materno não um símbolo abstrato, mas um território de criação, perda, coragem e espessura histórica.

Mito, espiritualidade e reinvenção do feminino

O livro também mobiliza figuras míticas e espirituais de modo muito singular. Obaluaiê, Quíron, Medeia, Nanã e outras referências aparecem filtradas por uma imaginação poética que relê tradição, cura, ferida e força feminina a partir do presente.

Em “Quando penso em Quíron”, o mito do curador ferido se encarna na imagem de uma benzedeira cansada, corporal, concreta, com joanetes, rugas, insônia e uma sabedoria inscrita no corpo. Já em “Medeias”, Marina Cristal contesta frontalmente a tradição trágica masculina, recusando a ideia de que a mulher abandonada deva ser reduzida à destruição dos filhos. Em vez disso, o poema afirma uma potência criadora: “da nossa boca nasce um baobá”.

Essa releitura do mito é um dos pontos altos do livro, porque reposiciona personagens e símbolos a partir de uma ética do amor, da criação e da sobrevivência.

Projeto gráfico e imagens que ampliam a leitura

O projeto visual do livro é especialmente marcante. A capa, o projeto gráfico e a diagramação são assinados por Jéssica Iancoski, e a imagem de mariposas em preto e branco domina a identidade visual da obra. Essas mariposas aparecem repetidamente ao longo do volume, criando uma atmosfera noturna, orgânica e ritualística.

Além disso, há fotografias e páginas visuais que ampliam a experiência do texto. Nas páginas iniciais e finais, a presença gráfica das mariposas funciona como moldura simbólica do livro. Na página com a biografia da autora, a foto de Cindy Gutierrez a mostra em contato direto com ramos e natureza, reforçando a coerência entre obra e imagem pública.

O projeto gráfico não ilustra os poemas: ele respira com eles.

Quem é Marina Cristal?

Ao final do livro, Marina Cristal é apresentada como filósofa, multiartista e mãe, dedicada a estudar o amor em suas teorias e práticas, “da ética e política às canções de ninar”. A nota biográfica afirma ainda que, “feita de terra e desejo, como todos nós”, a autora quer ecoar sua voz no ar e no papel enquanto durar no mundo. Essa apresentação dialoga profundamente com a obra: pensamento, arte, maternidade, terra e desejo são, de fato, os grandes elementos de sua poesia.

Para quem este livro é uma boa indicação de leitura?

Sobre o Chão e outros deuses é uma excelente indicação para quem:

  • gosta de poesia brasileira contemporânea;
  • procura livros em que natureza, corpo e linguagem estejam profundamente conectados;
  • se interessa por poemas sobre maternidade, ancestralidade e mitologia;
  • busca uma leitura sensível, mas também crítica e visceral;
  • quer conhecer uma voz poética que trata ecologia e existência sem clichês.

Também é um livro que conversa muito bem com leitores de poesia feminista, poesia ecológica, literatura de maternidade e obras que misturam espiritualidade e matéria.

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