Resenha S.O.S. – o poema ainda respira, de Teresa Bendini

Teresa Bendini constrói, em S.O.S. – o poema ainda respira, um livro de poesia movido por urgência, densidade reflexiva e grande amplitude humana. Já no título, a obra anuncia sua tensão central: a de uma poesia que, embora atravessada por feridas do mundo, insiste em permanecer viva. O poema inaugural sintetiza esse impulso ao afirmar que “o poema ainda respira” e ao transformar a própria poesia em corpo, alma e mundo, como se salvar o poema fosse também salvar alguma dimensão essencial da experiência humana.

A estrutura do livro é um de seus pontos mais fortes. Dividido em quatro movimentos — Da Transcendência (Ar), Da Existência (Terra), Da Injustiça (Fogo) e Do Afeto (Água) —, o volume organiza sua matéria poética a partir dos elementos da natureza, mas sem cair em esquematismo. Ao contrário, essa arquitetura amplia o alcance simbólico do livro e oferece ao leitor uma travessia que vai do espiritual ao cotidiano, do filosófico ao político, do íntimo ao coletivo. A própria apresentação crítica do volume destaca esse desenho como eixo da obra.

Na primeira parte, dedicada ao ar e à transcendência, Teresa trabalha uma poesia voltada ao invisível, ao espanto e à escuta interior. Poemas como “S.O.S.”, “Poemas nascem?”, “Som do espírito”, “Dentro de todas as coisas” e “Intuição” revelam uma autora interessada não apenas na expressão lírica, mas também na investigação do próprio mistério do poema. Há aqui uma poesia que pensa a linguagem e a existência ao mesmo tempo, sustentada por imagens de sopro, silêncio, céu, anjos, estrelas e vazio. Essa dimensão filosófica não se torna abstrata demais porque a autora a ancora numa dicção afetiva, por vezes orante, por vezes meditativa.

A seção da terra traz o livro para um plano mais concreto e existencial, sem perder a densidade anterior. Em poemas como “Estar vivo”, “Graveto”, “Oceânica”, “Rua incerta”, “Dor” e “Atire a pedra”, Bendini articula fragilidade, finitude, medo, desalento e permanência. Chama atenção sua capacidade de extrair força poética de elementos aparentemente simples — um graveto, uma cebola, uma rua, uma jabuticaba — e transformá-los em centros de reflexão sobre o ser, a perda e o recomeço. Há um lirismo que se constrói muito pela atenção ao pequeno e ao que “se lê nas entrelinhas”, traço que dá delicadeza e profundidade ao livro.

Na parte do fogo, o livro assume feição mais explicitamente social e política. Teresa Bendini escreve contra a apatia, a desigualdade, a exploração, o racismo, o patriarcado, a devastação ambiental e a alienação contemporânea. Poemas como “Martin Luther King não é branco!”, “Oito de março”, “Poema Brecht”, “Panaceia”, “Poemarx / Pecu…árida”, “Vocês estão preparados?” e “Todos nós odiamos Adolf Hitler” mostram uma voz que não separa poesia e consciência crítica. O interessante é que essa poesia de denúncia não abandona invenção nem vigor imagético; ao contrário, a indignação se converte em energia verbal. O livro, nesse ponto, alcança uma dimensão ética importante: a poesia aparece como resistência.

A quarta parte, dedicada à água e ao afeto, oferece um contraponto de delicadeza sem romper com a coerência do conjunto. Aqui entram o amor, a infância, a memória familiar, a ternura e o desejo. Em “Poesia nossa”, “Carta a uma borboleta”, “Amor-paisagem”, “Amor em azul”, “Relógio”, “Infância”, “O mar primeiro” e “Como és verdade”, a autora alcança alguns dos momentos mais comoventes do livro. A água surge como elemento de dissolução, acolhimento e permanência do sensível, e o afeto não aparece como sentimentalismo fácil, mas como força capaz de sustentar a existência diante do transitório.

Formalmente, Teresa Bendini alterna poemas curtos e incisivos com composições mais discursivas, de forte tom meditativo. Sua linguagem combina imagens delicadas com passagens de alta voltagem emocional e política. Em alguns momentos, a poesia se aproxima da oração, da invocação ou do manifesto; em outros, se faz contemplação ou memória. Essa variedade tonal enriquece o livro e reforça sua ideia central de respiração: a obra pulsa em muitos ritmos, mas mantém unidade.

Outro aspecto relevante é o diálogo da autora com tradições literárias, filosóficas e afetivas. Surgem referências a Hilda Hilst, Brecht, Neruda, Baudelaire, Octavio Paz, Sócrates, Gandhi, Martin Luther King e Ailton Krenak, entre outros, mas essas presenças não funcionam como ornamento erudito. Elas ajudam a situar a escrita de Teresa numa linhagem de poesia que busca pensamento, inconformismo e abertura ao outro.

No conjunto, S.O.S. – o poema ainda respira é um livro ambicioso e pulsante, que toma a poesia como lugar de transcendência, de enfrentamento do real e de preservação do afeto. Teresa Bendini escreve como quem acredita, profundamente, que a palavra ainda pode tocar o mundo, nomear o invisível e resistir à brutalidade do tempo. Seu livro não apenas afirma que o poema respira — ele prova isso a cada seção.

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