Resenha Poemas de viagem, de Camila Marchioro
Há livros de viagem que se contentam em registrar paisagens. Poemas de viagem, de Camila Marchioro, faz mais do que isso: transforma deslocamento em contemplação, memória e linguagem.
Publicado pela Toma Aí Um Poema em março de 2026, o livro reúne 52 páginas e organiza sua travessia em quatro movimentos — “O ciclo de Budapeste”, “O ciclo itálico”, “O ciclo ibérico” e “O ciclo brasileiro”. Já no sumário, percebe-se que a autora constrói uma geografia poética em que cada lugar visitado não aparece apenas como cenário, mas como experiência interior, histórica e sensível.
A epígrafe de Cecília Meireles ajuda a abrir a leitura com a chave certa: viajar, aqui, é admirar, amar e também se deixar atravessar pela tristeza, pela solidariedade e pelo espanto diante do mundo. Essa dimensão aparece com força ao longo do livro, que recusa a ideia de viagem como mero encantamento turístico. Em vez disso, Camila Marchioro escreve a partir do encontro entre beleza e ruína, deslumbramento e consciência histórica.
No ciclo dedicado a Budapeste, por exemplo, a autora observa a cidade em sua beleza arquitetônica e cultural, mas sem apagar as marcas da guerra e da perseguição. Em poemas como “À Beira do Danúbio” e “Adeus, Bonde Amarelo”, convivem monumento e luto, esplendor e memória, como se a paisagem nunca pudesse ser separada das dores que a fundaram. Esse olhar é uma das grandes forças do livro: a capacidade de ver o mundo sem simplificá-lo.
No ciclo itálico, o livro se aproxima de Roma, das catedrais, da escultura e da tradição artística europeia com uma linguagem de forte elaboração imagética. Há um fascínio evidente pela matéria da arte — pedra, mármore, arquitetura, ruína —, mas esse fascínio não é frio nem monumentalista. Pelo contrário: a autora traz o legado artístico para o campo da intimidade, do corpo e da imaginação, como se olhar uma cidade também fosse aprender novas formas de sentir.
Já no ciclo ibérico, a contemplação ganha fôlego filosófico. Poemas como “Aos Pés do Douro” e “Contemplação do Rio Tejo” expandem o gesto da observação e transformam a paisagem em reflexão sobre tempo, existência, memória e pertencimento. Aqui, a viagem não é pressa, mas suspensão: olhar longamente até que a matéria do mundo devolva alguma pergunta essencial.
O ciclo brasileiro, por sua vez, provoca uma inflexão importante. Depois do percurso por cidades e geografias estrangeiras, o retorno ao Brasil não se dá pela idealização, mas por um embate mais direto com território, desigualdade, violência histórica e identidade. Em poemas como “10 Horas Rumo ao Sul”, “Numa rua em BH” e “Os Sertões”, o país aparece como chão de conflito e reconhecimento, ampliando o livro para além da experiência individual da viajante. A viagem, então, deixa de ser só travessia externa e passa a ser também reposicionamento crítico diante da própria terra.
O que torna Poemas de viagem uma leitura tão interessante é justamente esse equilíbrio entre lirismo e observação cultural. Camila Marchioro escreve com atenção ao detalhe, à sonoridade e à imagem, mas também com inteligência histórica e consciência de que todo deslocamento implica olhar para si, para o outro e para o mundo que os cerca. O resultado é um livro delicado sem ser superficial, culto sem ser hermético, sensível sem abrir mão de densidade.
Para quem gosta de poesia que dialoga com arte, paisagem, memória e pensamento, Poemas de viagem é uma leitura que vale o percurso. Trata-se de um livro que convida a caminhar devagar por suas páginas, aceitando que, às vezes, viajar também é aprender a olhar melhor.
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