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Resenha Eros e Thanatos em plenos pecados, de Isa Corgosinho

Há livros que contam histórias. Outros constroem atmosferas. Eros e Thanatos em plenos pecados, de Isa Corgosinho, faz as duas coisas ao mesmo tempo: cria um universo em que corpo, desejo, morte, espiritualidade e transgressão se entrelaçam numa prosa intensamente sensorial.

Publicado pela Praga em março de 2026, o livro se apresenta como uma coletânea de contos brasileiros organizada em quatro grandes movimentos — “Prazer do texto”, “Eros e Thanatos”, “Plenos pecados” e “O sagrado e o profano”. Já pelo sumário se percebe que a obra aposta numa arquitetura simbólica forte, em que o erotismo, a finitude, a crítica moral e a reinvenção do feminino se tornam eixos de leitura.

O texto de apresentação assinado por Flavia Quintanilha oferece uma chave preciosa para entrar no livro: aqui, o corpo da mulher aparece como território sagrado e profanado, desejante e resistente, atravessado por prazer, violência, memória, rito e renascimento. Isa Corgosinho trabalha justamente nesse limiar entre Eros e Thanatos — entre a pulsão de vida e a consciência da morte — fazendo da escrita uma matéria ao mesmo tempo lírica, crítica e carnal.

Esse talvez seja o traço mais marcante do livro: a capacidade de fundir erotismo e densidade existencial sem reduzir nenhum dos dois. Em muitos contos, o desejo não aparece apenas como tema, mas como linguagem. O corpo fala, lembra, imagina, sofre, insiste. A autora cria narrativas em que o prazer é também reflexão, rito, confronto, sobrevivência e gesto de liberdade. O próprio título aponta para isso: não há separação rígida entre amor e morte, virtude e pecado, sagrado e profano — há tensão, fricção, mistura.

Na primeira seção, “Prazer do texto”, a obra já explicita seu diálogo com a tradição literária e com a ideia da leitura como experiência de fruição. O conto de abertura, por exemplo, aproxima corpo e leitura de forma muito bonita, sugerindo que o texto também pode ser toque, excitação e travessia sensorial. Essa dimensão metalinguística reaparece ao longo do livro, que conversa com autoras e autores, músicas, mitos, imagens e referências filosóficas sem perder fluidez narrativa.

Mas Eros e Thanatos em plenos pecados não se fecha em erudição ou jogo intertextual. Ao contrário: o livro ganha força justamente porque seu repertório simbólico está a serviço de histórias encarnadas. Há mulheres que amam, adoecem, desejam, se vingam, sobrevivem, enfrentam violências, reinventam o próprio destino. Em contos como “A mulher e o mar”, “Até a chegada das gérberas”, “Mulheres que roubavam flores”, “Filha de Xangô”, “Quem o mal me quer” e “Geleia real”, a autora articula lirismo e denúncia, subjetividade e crítica social, memória e imaginação.

Outro aspecto muito interessante do livro é o modo como ele reinscreve os chamados pecados capitais. Em vez de reproduzir uma moralidade pronta, Isa Corgosinho usa esse imaginário para tensionar normas, hipocrisias e mecanismos de controle sobre o corpo e sobre a experiência feminina. O “pecado”, aqui, deixa de ser só culpa e passa a ser ferramenta crítica, ironia, desobediência e chave de leitura da sociedade.

Também merece destaque a maneira como o livro incorpora espiritualidade, astrologia, mitologia, religiosidade popular e referências arquetípicas. Marias, Madalenas, filhas de Xangô, figuras do Hades, deuses, santas e símbolos diversos convivem nessas páginas sem virar ornamento. Há uma tentativa clara de ampliar a experiência do feminino para além do realismo estrito, criando um campo em que desejo, rito e transcendência possam coexistir.

A linguagem de Isa Corgosinho contribui decisivamente para essa força. Sua prosa é imagética, voluptuosa, por vezes febril, mas também muito consciente de ritmo e construção. Há trechos que roçam a poesia, outros que assumem tom de confissão, outros ainda que se aproximam da crônica, do mito ou da parábola. Essa variedade de registros ajuda a manter o livro vivo e imprevisível, como se cada conto explorasse uma face distinta da mesma pulsação central.

Para quem gosta de literatura brasileira contemporânea escrita por mulheres, especialmente aquela que se interessa por corpo, desejo, morte, espiritualidade e crítica das estruturas morais, Eros e Thanatos em plenos pecados é uma leitura que merece atenção. É um livro que não se contenta em narrar: ele provoca, seduz, inquieta e, em muitos momentos, desestabiliza.

No fim, o que Isa Corgosinho oferece é uma coletânea de contos em que a experiência feminina aparece em toda sua complexidade: erótica, ferida, intuitiva, política, sagrada, contraditória, viva. Um livro para quem entende que a literatura também pode ser rito de passagem — e que há escritas que não apenas contam o desejo, mas o fazem latejar na própria linguagem.

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