Resenha do livro Soneto, de Marcos Roberto dos Santos Amaral
Em Soneto, Marcos Roberto dos Santos Amaral revitaliza uma das formas mais antigas da poesia ocidental para produzir algo inteiramente novo. O livro propõe, desde o título, uma tensão entre tradição e ruptura: o soneto clássico, com sua métrica e musicalidade, é reconfigurado, distorcido, reinventado em meio ao ruído do mundo atual.
Os poemas transitam entre o lirismo e a crítica social, misturando erudição e ironia, linguagem de redes e referências literárias. Há versos que evocam a herança de Dante, Goethe, Camões e Drummond, mas sob a lente de um eu lírico que habita um Brasil atravessado por crises políticas, tecnológicas e existenciais. Em “Má educação financeira”, por exemplo, o poeta transforma o drama econômico em sátira mordaz; em “Profissão de fé”, a religiosidade é revisitada com ceticismo e humor ácido; já em “A paixão de uma pessoa física”, o burocrático e o humano colidem com força poética.
O experimentalismo formal é uma das marcas mais evidentes do livro. Amaral brinca com a disposição gráfica, a quebra da métrica, o uso de neologismos, símbolos e interpolações visuais. Cada poema é um campo de tensão entre sentido e ruído, entre a fala poética e a fala social. Essa fragmentação lembra o concretismo e a poesia marginal, mas com uma energia anárquica própria de quem entende o caos como motor criativo.
A leitura do livro é acompanhada por um posfácio de Lê Anderson, que destaca a “simbiose cáustica” da linguagem de Marcos — uma poesia que “lacera os sentidos criando uma variedade onde sonetos se transformam em concretude, em gírias, em tabelas, em gritos”. Anderson aponta que a obra “explode, destrói, reformula” a forma fixa, e essa observação sintetiza bem o gesto central do autor: tensionar o próprio ato de escrever.
O resultado é uma coletânea vertiginosa, em que o soneto deixa de ser apenas uma forma poética para se tornar um estado de linguagem; uma tentativa de dar forma à desordem, de resgatar beleza no excesso. Soneto é uma experiência radical, que desafia a compreensão linear e convida o leitor a se perder nas frestas do verbo.
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Amaral
diz:Esta é a declamação feita belamente pala TAUP de um dos sonetos do livro, O PAGADOR DE CONTAS: https://youtu.be/w7mvs4Jj80w?si=A20vLzzeUw7Ai1HV
Toma Aí Um Poema
diz:Olá, Amaral!
Que alegria receber esse registro. Foi um prazer para a TAUP declamar um dos sonetos de *O Pagador de Contas*.
Agradecemos por compartilhar o link por aqui. Que a sua obra siga alcançando novos leitores e ouvintes.
Abraços,
Equipe Toma Aí Um Poema
Marcos
diz:Segue o primeiro soneto do livro:
de um estendido abraço a se estender
o que dizer das coisas como estão;
da gasolina e do #f4sc!sm@ abjeto
– mapa mundi – então do represário;
do empresário de si mesmo? calar
quando estourado já o balão – ouvir
baleado –, só baila como objeto
de consumo. (troiano pouco hilário –
tal um p(l)ano funéreo por tecer!)
que dizer do “presente” que se vê,
que já tal qual se viu, e se verá,
em má espera? Senão, que pouco há
a fazer: um olhar: – o amigo olá,
um gesto de esperança – a gestação –
de um estendido abraço a se estender
Vale mencionar que a poesia começa sua errância poética no livro Abissais com a seguinte forma:
de um estendido abraço a se estender
o que dizer
das coisas como estão;
da gasolina e do fascismo abjeto
no mapa mundi aí do represário
do empresário
de si mesmo? calar
ouvir
quando estourado já o balão –
baleado –, só baila como objeto
de consumo.
(troiano pouco hilário –
tal um p(l)ano funéreo por tecer!)
que dizer
do “presente” que se vê,
que já tal qual se viu, e se verá,
em má espera?
senão
que pouco há
a fazer: um olhar: – u’ amigo olá,
um gesto de esperança – u’a gestação
de um estendido abraço a se estender
E se metamorfoseia verbivocovisualmente em:
https://youtu.be/1eTmFO5F50Y?si=TjqTCz4kq-opqaS5
Toma Aí Um Poema
diz:Marcos, obrigada por compartilhar o soneto e também o percurso da escrita. É muito interessante acompanhar essa errância poética, as camadas de metamorfose do texto — da forma mais rarefeita ao rigor do soneto, e depois ao jogo verbivocovisual. Há aí um trabalho consciente com ritmo, fragmentação e sentido, que reflete bem o tempo histórico que o poema atravessa. Obrigada pela partilha generosa e por trazer o processo junto com o poema — isso também é leitura.
Walter de Sousa Freire
diz:Parabéns pelo livro e belo trabalho. Boa leitura pra entender o mundo atual através da poesia, crítica e lirismo, com grandes referências da literatura universal.
Toma Aí Um Poema
diz:Walter, muito obrigada pela leitura generosa e pelas palavras tão cuidadosas. Fico feliz que o livro do Marcos seja percebido como esse espaço de leitura do mundo — onde crítica, lirismo e diálogo com a tradição caminham juntos. Que a poesia siga sendo esse modo sensível de compreender o tempo em que vivemos.