Resenha de Vide anexo: emoções zipadas, de MEIreles
Há livros de poesia que nascem da contemplação. Vide anexo: emoções zipadas, de MEIreles, nasce do atrito.
Publicado pela Toma Aí Um Poema em março de 2026, o livro se apresenta como uma obra de poesia brasileira que transforma a experiência da vida profissional em matéria poética, crítica e satírica. Já no título, há uma chave importante de leitura: a linguagem do mundo corporativo é apropriada e tensionada até revelar aquilo que normalmente se esconde sob comunicados, relatórios, rotinas, metas e aparências.
Na apresentação, o autor fala de uma “beleza parental” projetada sobre quem alcança a liderança e conta que sua entrada no “epicentro de intensidade chamado vida profissional” acabou explodindo em versos. No prólogo, essa experiência ganha contorno ainda mais pessoal: a imagem do “prego que se destaca leva martelada” se torna origem simbólica do livro e da própria capa, fazendo da arte uma forma de reconstrução depois do desgaste, da frustração e das pancadas do ambiente de trabalho. Essa origem dá à obra um eixo muito forte: não se trata apenas de ironizar o corporativo, mas de metabolizá-lo poeticamente.
O sumário já indica a amplitude do projeto. Com poemas como “Chefe não é líder”, “Feedback”, “Excel”, “Rádio corredor”, “WFH”, “Corporabullying”, “Passaporte cheio, coração vazio” e “Programador poeta”, o livro compõe um verdadeiro inventário afetivo e crítico da cultura empresarial contemporânea. É um universo em que convivem assédio moral, vaidade hierárquica, cinismo organizacional, culto da produtividade, performatividade social e esgotamento — tudo filtrado por uma voz que alterna humor, amargura, inteligência e precisão verbal.
Uma das maiores qualidades de Vide anexo: emoções zipadas é justamente sua capacidade de reconhecer o ridículo sem esvaziar a dor. Há humor, sim, e muitas vezes um humor mordaz, mas ele nunca serve apenas para divertir. Serve para expor. Em vários poemas, a sátira funciona como ferramenta de diagnóstico: o livro enxerga com nitidez a violência banalizada dos escritórios, a crueldade dos pequenos jogos de poder, a fofoca institucionalizada, os apelidos, os constrangimentos, a falsa cordialidade e o quanto tudo isso afeta subjetividades.
Ao mesmo tempo, o livro não se fecha numa crítica unidimensional. Há também poemas em que o autor observa as contradições do próprio sujeito que trabalha, resiste, se adapta, se esgota e tenta preservar alguma interioridade. Textos como “Qual a sua bebida?”, logo no início, sugerem uma equação delicada entre trabalho, disciplina e prazer, enquanto “Programador poeta” e “Fora de controle” evidenciam o conflito entre sustento material e vocação íntima, entre produtividade e necessidade de expressão. É nesse ponto que a obra ganha espessura: ela não fala apenas do ambiente corporativo, mas do que esse ambiente produz na linguagem, no corpo e na alma.
Também chama atenção o projeto visual do livro, que reforça sua atmosfera crítica. A presença do martelo na capa e em outras páginas cria uma iconografia direta do impacto, da opressão e da martelada simbólica evocada no prólogo. Não é um detalhe decorativo: a imagem ajuda a condensar o imaginário da obra, em que trabalho e violência institucional aparecem estreitamente ligados.
No fim, Vide anexo: emoções zipadas se destaca por conseguir algo difícil: transformar o vocabulário áspero, burocrático e muitas vezes desumanizante do mundo do trabalho em poesia viva. É um livro que pode gerar identificação imediata em quem já passou por chefias tóxicas, ambientes adoecidos, jogos de aparência e rotinas extenuantes, mas também interessa a quem busca uma poesia contemporânea capaz de observar seu tempo com sarcasmo, lucidez e invenção.
Para leitoras e leitores que gostam de livros com personalidade, crítica social e linguagem afiada, esta é uma indicação certeira. Vide anexo: emoções zipadas prova que até os arquivos emocionais comprimidos pela vida profissional podem, quando abertos pela poesia, revelar muito do que somos — e do que já não deveríamos aceitar.
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