Resenha de Mosaico de Corações Partidos, de Alexandre Paim

Há livros de poesia que parecem pedir distância, e há outros que puxam o leitor para dentro logo nas primeiras páginas. Mosaico de Corações Partidos, de Alexandre Paim, está nesse segundo grupo. É um livro atravessado por intensidade, desejo, memória, ressentimento, paixão e ruína, mas sem nunca perder o cuidado com a linguagem. O que se encontra aqui não é só confissão: é construção poética de alto nível.

Alexandre Paim escreve como quem conhece muito bem o peso dramático das emoções, mas sabe transformá-las em forma. Seus poemas têm corpo, têm ritmo, têm imagens fortes e uma voz muito marcada. Em vez de amenizar a experiência amorosa, ele faz justamente o contrário: assume o excesso, a fissura, a obsessão, a expectativa e a frustração como matéria legítima de poesia. E isso dá ao livro uma força muito própria.

Em vários momentos, a leitura dá a sensação de estar diante de uma escrita que pulsa entre o íntimo e o performático. Há poemas que parecem sussurro, outros que entram quase como monólogo de palco, outros ainda que se sustentam pela imagem delicada ou pelo verso mais cortante. Essa oscilação de temperatura funciona muito bem e faz o livro avançar com movimento, sem cair numa única nota emocional.

A divisão entre “lado a: vitrines” e “lado b: vitrais” também contribui para a experiência de leitura. Não é uma escolha apenas gráfica ou estrutural: há ali uma ideia de exposição e de fragmento, de brilho e rachadura, que conversa muito com o que o livro constrói. O título Mosaico de Corações Partidos ganha ainda mais sentido quando se percebe como os poemas realmente operam por estilhaços afetivos que, juntos, compõem uma unidade muito sensível.

Chama atenção, ainda, a capacidade do autor de reunir referências variadas sem perder identidade. Musicalidade, imaginação romântica, cultura pop, sensualidade, ironia e melancolia aparecem no livro de um jeito orgânico, formando uma voz que soa contemporânea sem abrir mão de lirismo. Alexandre Paim sabe criar versos que se aproximam do leitor pela emoção, mas permanecem pela elaboração.

No fim, Mosaico de Corações Partidos deixa a impressão de um livro muito vivo. Vivo porque sente muito, porque arrisca, porque se expõe, porque não tem medo do melodrama quando ele é necessário, e porque encontra beleza justamente onde o afeto falha. É uma obra que confirma a potência de uma escrita autoral, intensa e cheia de imagens memoráveis. Alexandre Paim entrega aqui um livro que não passa pelo leitor sem deixar marca.

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