Pular para o conteúdo
Toma Aí Um Poema
Literatura & Poesia
Quanto vai custar seu projeto editorial? Calculadora gratuita — descubra em menos de 2 minutos, sem precisar falar com ninguém.
Calcular agora

Resenha de Existência Poética do Cotidiano, de Catarina Araújo

Há livros que procuram o extraordinário em paisagens grandiosas, acontecimentos históricos ou experiências excepcionais. Existência Poética do Cotidiano, de Catarina Araújo, segue o caminho oposto: encontra a poesia justamente naquilo que costuma passar despercebido. A autora transforma gestos simples, objetos comuns, memórias afetivas e inquietações íntimas em matéria poética, construindo uma obra que convida o leitor a desacelerar e reaprender a observar o mundo.

Dividido em três seções — “Cotidiano”, “Existência” e “Poética” — o livro apresenta uma progressão sutil, mas significativa. A primeira parte parte da experiência sensível e dos afetos; a segunda amplia a reflexão para questões existenciais; e a terceira volta-se para a própria criação poética, revelando a escrita como forma de habitar e compreender a realidade. Essa estrutura oferece unidade ao conjunto e ajuda a perceber que, para Catarina Araújo, viver e escrever são movimentos inseparáveis.

Logo nos poemas iniciais, percebe-se uma autora interessada em experimentar a linguagem para além de seus usos convencionais. Em “Oceano de si”, a vida é apresentada como uma sucessão de “costuras e bordados”, em que a palavra se transforma em poesia nas esquinas, nos ares e nos detalhes do cotidiano. Essa imagem da escrita como tecido reaparece ao longo do livro, criando uma espécie de fio condutor entre os poemas. Palavras, memórias, sentimentos e experiências são alinhavados como partes de uma mesma trama.

O corpo ocupa papel central na primeira seção. Em textos como “Sensações”, “Marcas”, “Vestes” e “Narradora de histórias”, a autora apresenta o corpo não apenas como matéria física, mas como espaço de memória, linguagem e transformação. O corpo marca e é marcado; guarda histórias; cresce para além das formas que tentam contê-lo. Há nesses poemas uma reflexão delicada sobre identidade e pertencimento, conduzida sem didatismo e sem necessidade de grandes explicações.

Outro eixo importante da obra é a experiência afetiva. Muitos poemas tratam do desejo, do amor, da ausência e das marcas deixadas pelos encontros humanos. Em “O Teu Toque”, “O Rastro” e “Ausência”, a autora explora os efeitos da presença e da falta, mostrando como certos vínculos permanecem mesmo quando já não existem concretamente. O sentimento amoroso aparece de maneira ambígua: ora como acolhimento e encantamento, ora como inquietação, dependência e dor. Essa ambivalência impede que os poemas se tornem idealizações românticas e os aproxima das experiências reais.

Entretanto, o livro não se limita às relações afetivas. Um dos seus maiores méritos está em perceber a dimensão poética dos pequenos acontecimentos cotidianos. Em “Esquecimento”, por exemplo, a rotina urbana é retratada através de listas, tarefas, horários e compromissos que se acumulam até que, ao final, resta a constatação de que, em meio a tantas obrigações, o sujeito esqueceu de si mesmo. Trata-se de um poema simples na forma, mas profundamente identificável para leitores que convivem com a aceleração constante da vida contemporânea.

A segunda seção, intitulada “Existência”, aprofunda as reflexões sobre o estar no mundo. Aqui, a natureza ganha protagonismo. Vento, chuva, árvores, bambus, folhas, galhos e arco-íris aparecem não apenas como elementos descritivos, mas como interlocutores da experiência humana. Em “Estranhezas”, por exemplo, uma tempestade torna-se oportunidade para observar o ritmo desacelerado da vida e a capacidade de encantamento presente nas coisas mais simples.

Nessa parte da obra, a autora demonstra especial habilidade para transformar observações cotidianas em reflexões filosóficas. “Incertezas” reduz a existência a uma experiência de instabilidade permanente. “Segu-ir” questiona se estamos realmente vivendo ou apenas acompanhando a paisagem de nossas próprias vidas. São poemas que não oferecem respostas, mas criam espaços de questionamento — e talvez essa seja sua maior força.

A terceira parte, “Poética”, é particularmente interessante por assumir explicitamente a literatura como tema. Catarina Araújo reflete sobre o ato de escrever, sobre o surgimento da criação e sobre a relação entre linguagem e experiência. Em “Poética”, “Existência Poética”, “Palavras-remendos” e “Tecelã”, a escrita aparece como um trabalho artesanal, feito de observação, escuta e reconstrução.

Um dos poemas mais representativos dessa proposta é “Cri-ar.te”. Nele, a autora sugere que a criação nasce em qualquer lugar: esperando o ônibus, observando sombras, depois de uma discussão ou durante um dia difícil. A arte não aparece como algo separado da vida, mas como uma forma de atravessá-la. Essa compreensão da poesia como prática cotidiana sintetiza o espírito do livro inteiro.

Formalmente, a obra também merece atenção. Catarina Araújo explora diferentes disposições gráficas dos versos, fragmentações de palavras, espaçamentos e recursos visuais que dialogam com tradições da poesia concreta e experimental. Poemas como “E s p a ç o sem espaço”, “S-o-l-o-s” e “Olho do furacão” demonstram uma preocupação não apenas com o significado das palavras, mas também com sua forma na página. Esses experimentos não surgem como mero ornamento gráfico; eles contribuem para a construção do sentido e reforçam a materialidade da linguagem.

Ao final da leitura, o que permanece é a sensação de que Existência Poética do Cotidiano é, acima de tudo, um convite à atenção. Atenção ao corpo, aos afetos, à natureza, às memórias, às palavras e aos pequenos acontecimentos que compõem a experiência humana. Em uma época marcada pela velocidade e pela dispersão, Catarina Araújo propõe um gesto contrário: parar, observar e reconhecer que a poesia não está distante de nós. Ela habita as gavetas da casa, o cheiro da chuva, os rastros deixados pelas pessoas, o silêncio das árvores e os remendos que fazemos diariamente para continuar existindo.

Mais do que um livro de poemas, Existência Poética do Cotidiano é um exercício de presença. Uma obra sensível, contemplativa e honesta, que encontra beleza justamente onde a vida costuma parecer mais comum. E talvez seja exatamente aí que reside sua maior potência.

Compartilhar
WhatsApp

Loja TAUP

Continue com a TAUP

Livros e publicações da nossa loja para continuar a leitura depois deste post.

Ver loja →

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *