Resenha de Candura, de Alice Puterman

Há livros que pedem distância analítica. Candura, de Alice Puterman, pede presença.

Publicado pela Toma Aí Um Poema em março de 2026, o livro reúne 110 páginas e se organiza em três partes — “Hemorragia”, “Estancamento” e “Cicatrizes” —, uma arquitetura que já antecipa o percurso emocional da obra: da ferida aberta ao esforço de nomeá-la, até a possibilidade de sobrevivência.

Desde as primeiras páginas, Alice Puterman deixa claro que não está interessada em suavizar a dor. Na apresentação do livro, a autora afirma que a obra nasce do enfrentamento das violências sofridas e da necessidade de falar da vida depois delas; mais do que fechar feridas, Candura quer nomeá-las. Essa chave de leitura é fundamental: estamos diante de uma poesia que não contorna o trauma, mas o atravessa com coragem verbal e alta densidade emocional.

O que faz de Candura uma leitura tão contundente não é apenas o tema, mas a maneira como ele se converte em linguagem. Os poemas são curtos, incisivos, confessionais sem perder elaboração estética. A imagem do corpo aparece repetidamente como campo de disputa, memória, luto e permanência. Ao mesmo tempo, a voz poética recusa ser reduzida à violência que a atravessou: o livro insiste, o tempo todo, em algo mais difícil e mais radical — a continuidade.

Há, em Candura, uma tensão muito poderosa entre brutalidade e delicadeza. O próprio título é uma espécie de contradição luminosa. A autora recupera a ideia de candura não como ingenuidade passiva, mas como força de quem continua acreditando, amando e existindo, mesmo depois da devastação. Nas páginas introdutórias, Puterman associa essa candura à sobrevivência feminina e à recusa de aceitar a violência como destino silencioso. É essa inversão que sustenta a originalidade do livro: aqui, a vulnerabilidade não aparece como fraqueza, mas como matéria de resistência.

Também chama atenção a forma como o livro articula experiência íntima e dimensão coletiva. A dedicatória às mulheres que sobreviveram — e, com maior dor, às que não sobreviveram — amplia o horizonte da leitura e situa Candura num campo em que poesia, denúncia e elaboração subjetiva convivem sem que uma dimensão apague a outra. Não se trata de um livro “sobre um caso”, mas de uma obra que transforma a experiência individual em linguagem compartilhável, ainda que nunca pacificada.

Para quem acompanha a poesia contemporânea brasileira, Candura é uma leitura que merece atenção por sua capacidade de unir impacto e construção. E, para leitoras e leitores em busca de um livro que toque fundo sem abrir mão de rigor sensível, esta é uma indicação certeira. Alice Puterman escreve com a urgência de quem sabe que dar nome às violências é também um modo de romper o silêncio — e, talvez, de começar a devolver a vida a si mesma.

Candura não é um livro fácil — e ainda bem. Alguns livros não vieram para confortar de imediato; vieram para acompanhar, estremecer e permanecer. Este é um deles.

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