Resenha de Ah, que seja, de João Pelisari
Há livros de estreia que procuram apresentar certezas. Outros preferem demonstrar domínio técnico ou estabelecer uma identidade literária rígida. Ah, que seja segue por um caminho diferente. Desde suas primeiras páginas, João Pelisari assume a dúvida como matéria-prima da criação. O próprio texto de abertura já anuncia essa postura ao refletir sobre a dificuldade de desejar algo sem saber exatamente o que será, transformando a expressão “ah, que seja” em uma espécie de filosofia íntima da imperfeição, da espera e da incerteza.
O subtítulo da obra — ou poesias de quem cansou de esperar a perfeição — oferece uma chave importante para a leitura. Em vez de buscar respostas definitivas, João Pelisari constrói uma poesia que abraça a incompletude. Seus poemas parecem nascer justamente do atrito entre aquilo que se sente e aquilo que não se consegue dizer plenamente. O resultado é uma coletânea marcada pela vulnerabilidade, pela autorreflexão e por uma consciência constante das próprias limitações.
Dividido em seis seções — “Cronismos de Cartola”, “Do Atracar e Suas Contradições”, “Ínfimo Pessoal”, “Sopro de Sol”, “Feridinhas Sibilantes” e “Do Que Fazer” — o livro apresenta uma trajetória que alterna memória, amor, angústia existencial, metalinguagem e amadurecimento. Embora os temas sejam variados, há um elemento que os une: a tentativa de compreender a própria experiência humana através da linguagem.
Uma das características mais marcantes da escrita de Pelisari é a presença constante da memória. Em poemas como “Brisa”, “Sexta-feira da Paixão” e “O Sol Amanheceu em Giz de Cera”, a infância aparece não como um paraíso idealizado, mas como um território emocional de descoberta e perda. O autor demonstra grande habilidade para transformar lembranças aparentemente simples em reflexões mais amplas sobre crescimento, tempo e identidade. A infância surge como um espaço onde o mundo ainda parecia carregado de encantamento, antes que a vida adulta impusesse suas dúvidas e contradições.
Ao mesmo tempo, o livro é profundamente urbano e contemporâneo. Em “Avenida”, por exemplo, os carros tornam-se símbolo de uma civilização acelerada, incapaz de parar para contemplar a própria existência. A repetição dos versos enfatiza a sensação de movimento incessante e produz uma crítica sutil ao ritmo moderno. Essa tensão entre contemplação e velocidade percorre toda a obra, como se o poeta estivesse constantemente tentando preservar espaços de sensibilidade em meio ao ruído do cotidiano.
Outro eixo importante do livro é a construção da identidade. Muitos poemas são atravessados por perguntas sobre quem se é e sobre como se habita o próprio corpo e a própria história. Em “Caminho”, “Não Volto” e “Poesia do Expurgado”, o eu lírico aparece dividido entre múltiplas versões de si mesmo, incapaz de encontrar uma definição estável. A identidade, aqui, não é uma conquista definitiva, mas um processo permanente de negociação entre desejos, fracassos, expectativas e lembranças.
Essa dimensão introspectiva alcança alguns dos momentos mais fortes do livro na seção “Ínfimo Pessoal”. Em textos como “Da Patologia”, “Vida e Morte” e “Julgamento”, Pelisari confronta a fragilidade humana de forma direta e sem proteção. O medo da insuficiência, o desgaste emocional, a consciência da mortalidade e a dificuldade de encontrar sentido surgem com intensidade, mas sem cair em dramatizações excessivas. Há uma honestidade desconfortável nesses poemas, como se o autor estivesse disposto a expor não apenas suas qualidades, mas também suas contradições e fracassos.
A literatura ocupa um papel central nessa jornada. O livro está repleto de referências a autores, tradições poéticas e reflexões sobre o próprio fazer literário. Em “Doo Poemas aos Pernilongos”, o humor surge ao lado de referências a Carlos Drummond de Andrade e Olavo Bilac, enquanto “Do Ofício” apresenta uma visão madura sobre a criação artística, lembrando que inspiração e trabalho raramente caminham separados. O poeta demonstra consciência de sua inserção em uma tradição literária, mas sem transformar essas referências em mero exercício de erudição.
Na seção “Feridinhas Sibilantes”, o amor assume protagonismo. Os poemas amorosos de Pelisari se destacam por evitar tanto o sentimentalismo exagerado quanto a ironia defensiva comum em parte da poesia contemporânea. Em textos como “Hoje é pra Falar de Nós”, “Cabresto”, “Dor” e “Zíper e Chaves”, o amor aparece como força transformadora, capaz de reorganizar a percepção do mundo e da própria identidade.
Entre esses poemas, “Zíper e Chaves” merece destaque especial. A imagem do coração guardado em um bolso de calça e posteriormente libertado para o mundo cria uma metáfora simples, mas extremamente eficaz, sobre vulnerabilidade emocional. Trata-se de um dos textos mais bem construídos da coletânea, reunindo delicadeza, narrativa e simbolismo em equilíbrio raro.
Formalmente, Ah, que seja apresenta diversidade. Há poemas mais próximos da prosa poética, outros que dialogam com formas tradicionais, sonetos, jogos sonoros, experimentações linguísticas e textos de forte musicalidade. O autor demonstra gosto pela sonoridade das palavras, pelas aliterações e pelos deslocamentos semânticos, como se vê em “Execução” e “Catalanismos”. Essa variedade impede a monotonia e revela um escritor interessado em explorar diferentes possibilidades da linguagem.
A seção final reúne alguns dos poemas que melhor sintetizam o espírito do livro. Em “Ode à Maior Virtude”, a poesia é apresentada como uma experiência compartilhada por todos aqueles que observam o mundo com sensibilidade. Já “Que seja.” encerra a obra retomando o título e transformando-o em uma declaração de esperança. Não uma esperança triunfante ou ingênua, mas uma esperança consciente das perdas, das limitações e da inevitabilidade da morte. Ainda assim, uma esperança que insiste em permanecer.
Ao final da leitura, fica evidente que Ah, que seja é um livro sobre o difícil exercício de existir. Seus poemas transitam entre a ternura e a angústia, entre a fé e a dúvida, entre o desejo de compreender e a aceitação de que nem tudo pode ser compreendido. A obra encontra sua força justamente nessa recusa das certezas absolutas. João Pelisari escreve como alguém que ainda está procurando respostas, e talvez por isso seus versos soem tão humanos.
Mais do que uma coleção de poemas, Ah, que seja é o retrato de uma consciência em formação, de alguém que transforma dúvidas em linguagem e faz da imperfeição não um defeito, mas uma forma legítima de habitar o mundo. Seu mérito está justamente em compreender que crescer, amar, criar e viver são processos inacabados — e que talvez a melhor resposta para isso seja, simplesmente: ah, que seja.
Loja TAUP
Continue com a TAUP
Livros e publicações da nossa loja para continuar a leitura depois deste post.