
Em Corpilhas, Luciana Andradito entrega um livro de poesia de rara inventividade, beleza sensorial e força imagética. Desde a apresentação inicial, a obra se afirma como um “arquipélago de sentidos”, e essa definição é precisa: cada poema funciona como uma ilha singular, mas todas se conectam por uma mesma corrente estética, afetiva e musical. O resultado é um livro profundamente coeso, vivo e deslumbrante, capaz de transformar paisagem em linguagem e linguagem em corpo.
Um dos aspectos mais luminosos da obra é sua concepção poética. Luciana faz da ilha um princípio de criação: ilha como corpo, como memória, como erotismo, como deslocamento, como imaginação, como território e como travessia. O sumário já anuncia esse projeto com notável inteligência formal, ao organizar o livro em movimentos como “deriva”, “ressoa”, “adentra”, “avista”, “abrolhada” e “abarca”. Há, desde a arquitetura da obra, um senso claro de percurso, expansão e mergulho.
A linguagem de Corpilhas é um dos seus maiores triunfos. Luciana escreve com frescor, ousadia e grande liberdade inventiva. Seus versos criam vocábulos, deslocam sonoridades, friccionam sentidos e fazem a palavra ganhar textura, sal, relevo e movimento. Em poemas como “corpúsculo”, “corpilhas”, “poesilhas” e “tectônica”, percebe-se uma autora que domina o artesanato do poema e, ao mesmo tempo, se permite experimentar com exuberância. Há inteligência formal, mas também prazer de linguagem — e essa combinação torna a leitura vibrante.
Outro ponto admirável é a musicalidade. O livro pulsa em ritmos múltiplos: há momentos de canto, de batuque, de dança, de marulhada e de mantra. Poemas como “ilha do som”, “forró coral”, “suingue da cor” e “amor tropical” revelam uma poesia que escuta o mundo e devolve essa escuta em cadência verbal. Luciana articula com naturalidade português, espanhol, referências tropicais, oralidade e invenção sonora, compondo uma dicção muito própria, expansiva e calorosa.
Também impressiona a força visual do livro. A escrita de Luciana cria paisagens intensas, quase táteis, em que o leitor vê o azul, o sal, as pedras, as margens, os corais, os vulcões e as praias como se estivesse diante deles. Essa potência imagética dialoga lindamente com as ilustrações de Álvaro Maia, que ampliam o universo simbólico da obra e reforçam sua unidade estética. A capa e as imagens internas fazem do livro um objeto artístico completo, no qual palavra e ilustração se engrenam com harmonia e personalidade.
Há ainda uma dimensão muito rica de geografia afetiva. Corpilhas atravessa lugares reais e imaginados, tropicais e míticos, brasileiros e estrangeiros, mas tudo passa pelo filtro de uma subjetividade poética muito consistente. O livro cria um mapa sensível em que Açores, Abrolhos, Isla Mujeres, Huahine, Ilha do Bananal e tantas outras paisagens ganham nova espessura pela linguagem. Luciana não apenas descreve espaços: ela os reinventa, os encarna e os transforma em experiência poética.
A obra também se destaca pela potência feminina e criadora que a atravessa. Em poemas como “mulher vulcão”, “corpo vulcão” e “formadura”, o corpo surge como território de força, transformação, energia vital e reinvenção. Luciana constrói uma poesia que é, ao mesmo tempo, telúrica e delicada, intensa e precisa, expansiva e muito bem lapidada. Essa voz poética tem firmeza, imaginação e magnetismo.
É bonito perceber, ainda, como Corpilhas celebra o encontro entre arte, natureza e linguagem. O livro é atravessado por mares, rios, ventos, pedras, sementes, corais e correntes, mas tudo isso é elaborado com sofisticação verbal e imaginação formal. Não há aqui mero paisagismo: há pensamento poético, elaboração sensível e um trabalho minucioso com imagem e som. O verso final reproduz bem essa força criadora ao afirmar o esforço de “fazer o que mais podia / para caber num verso / a minha fantasia”. Essa fantasia, no livro, transborda com beleza.
No conjunto, Corpilhas é um livro marcante, original e encantador. Luciana Andradito confirma uma voz poética de grande personalidade, capaz de criar um universo lírico próprio, sensual, oceânico e profundamente inventivo. Trata-se de uma obra que convida ao mergulho e recompensa o leitor com imagens memoráveis, musicalidade intensa e uma poesia que vibra em cada página.