Resenha Cachoeirão, de Elias de Aquino

Em Cachoeirão, Elias de Aquino constrói um livro de poesia em que a água não é apenas imagem recorrente, mas princípio organizador da linguagem, da memória e da experiência. Desde o título, a obra se apresenta como fluxo, queda, correnteza, vazante, maré, nascente e travessia. O que se lê aqui não é uma coleção dispersa de poemas, mas um corpo poético coeso, guiado por paisagens aquáticas que se transformam em matéria afetiva, ancestral e sensorial.

A estrutura do livro reforça essa unidade. Dividido em seções como “Carapanã à tarde”, “Alojamento de mariscos”, “Trívia das sombras”, “Deserto doce” e “És isto entre os montes”, Cachoeirão faz da travessia seu gesto central: atravessa rios, mares, margens, serras, vazantes e fundos, mas também cruza territórios íntimos, familiares e históricos. O sumário já indica esse desenho, no qual geografia e emoção se confundem, como se cada poema fosse um ponto de um mapa ao mesmo tempo físico e interior.

Um dos grandes méritos do livro é a capacidade de fundir paisagem e corpo. Em Elias de Aquino, o rio não é cenário: ele passa a ser voz, carne, memória e linhagem. Em poemas como “nascente”, “aporé”, “santuário” e “paraguai”, a água aparece como origem, força vital, profundidade identitária e lugar de pertença. Há uma espécie de cosmologia íntima em curso, em que o sujeito lírico se compreende pelos cursos d’água, pelas cheias e pelas funduras, num movimento que liga natureza, ancestralidade e subjetividade.

Também chama atenção a qualidade imagética da escrita. Elias escreve com intensa consciência plástica: muitas vezes seus poemas parecem pintados antes de serem narrados. Isso conversa diretamente com a apresentação biográfica do autor, que o situa como artista interdisciplinar ligado à pintura, à instalação, à performance e à escrita, com interesse em memória, afeto, violência e território sul-mato-grossense. Essa formação transborda para a poesia: a palavra não apenas diz, mas desenha, recorta, ilumina, escurece e move.

Outro aspecto forte do livro é a maneira como ele articula intimidade e coletividade. Há poemas em que a memória familiar emerge de forma delicada e contundente, como em “as mãos de um e de outro”, “cabeça”, “maria” e “endecha às crianças distantes”. Nessas composições, o afeto familiar não aparece idealizado; ele surge como herança física, gesto, ferida, luto, silêncio e permanência. O livro cresce muito quando trabalha essa escala do íntimo, porque então a água deixa de ser somente elemento natural e passa a funcionar como transmissão entre gerações.

Há ainda um dado importante: Cachoeirão não se limita ao deslumbramento paisagístico. Embora o livro seja carregado de beleza sensorial, ele também é atravessado por perda, luto, sombra, violência e precariedade. Em “enchente”, por exemplo, a água surge em chave destrutiva; em “trívia das sombras”, o amor é marcado por combustão e ruína; em “descensão” e “insisto”, o luto comparece como experiência que transforma a matéria da existência. Isso impede que a obra se acomode numa contemplação fácil: a água aqui também arrasta, afunda, rompe e exige.

Formalmente, Elias de Aquino aposta em versos curtos, cortes bruscos, forte musicalidade e condensação imagética. Em muitos momentos, a elipse faz parte da força do poema: o sentido não se entrega de imediato, mas se abre aos poucos, como paisagem observada em deslocamento. Isso pode exigir releitura, especialmente de leitores que busquem uma poesia mais discursiva ou linear. Mas é justamente aí que reside parte da potência do livro: ele convida menos à decifração total do que à experiência de imersão.

Cachoeirão sabe o que quer ser — e realiza isso com notável consistência.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *