Poesia urgente para o tempo presente: Resenha do livro “Poiesis na caixa de costura”, de Sandra Pinto – Tânia d’Arc
Uma poesia urgente para o tempo presente, assim é a escrita poética de Sandra em Poiesis na caixa de costura, publicado pela Editora TAUP em dezembro de 2025. Tal característica se apresenta já na forma com o minimalismo na linguagem, em contraste com o excesso de informações que nos atingem diariamente, por todos os lados.
A redução no uso de recursos como a pontuação e as maiúsculas, utilizando-as como ferramentas expressivas em momentos pontuais, amplia a nossa leitura e nos desafia a entender ou a encontrar novos significados. As possibilidades de leitura se alargam. Afinal, quando um autor faz uso do ponto final, ele indica que algo terminou ali, quando utiliza a vírgula, demonstra que há separação entre partes de uma mesma ideia; mas quando Sandra reduz marcações como essas em seus poemas, nos dá a liberdade de combinar um verso com o anterior ou com o seguinte. Em cada uma das combinações, temos diferenciações na mensagem, ainda que muito sutis. E isso é muito potente, já que a literatura de qualidade é feita justamente de sutilezas.
Nesse caso, o minimalismo na forma nos leva a uma multiplicidade de ideias — é o primeiro movimento do micro ao macro neste livro.
Outro aspecto que coloca a poesia de Sandra no centro do nosso tempo é a mescla entre o uso de “tu” e você”, tão comum na linguagem coloquial e oral — e mais marcado ainda em alguns estados, como o Rio de Janeiro, de onde a autora se origina. Na escrita, essa mistura se iniciou com os modernistas brasileiros e hoje marca presença na literatura contemporânea, que se veste de si, que aceita sua época — em vez de admirar e copiar apenas o passado, em uma nostalgia do retrocesso, à qual muitos ainda estão fissurados.
Outro recurso linguístico utilizado pela autora é o deslocamento de palavras e objetos de seu uso comum, como acontece com o verbo “cintilar” e com o relógio surrealista: “Letras amorosas e saudosas cintilaram o amor”, “o paetê cintilava / a sinuosidade de Samira”, “caminhava por entre os vãos dos quadros / um relógio furta-cor em formato de concha / cintilava a passagem do tempo / sem ponteiros das horas / marcava os segundos, finitos e urgentes”.
Com relação à forma, podemos dizer que a atualidade da poesia de Sandra se mostra nos desvios gramaticais mantidos com consciência e intenção, assim como fez Oswald de Andrade no poema Pronominais.
Por outro lado, a poética dela mostra-se também atemporal quando se utiliza de metáforas eficientes e marcantes — figura de linguagem consagrada na poesia de todas as eras. Fazendo uso desse recurso, a autora traz imagens de cenários grandiosos do cotidiano, levando-nos a eles de um jeito único e inovador: “O sol escorrega para o outro lado do mundo. O fogo se apaga no horizonte”, “ O disco lunar, beijado pelo sol, surge dourado”.
Da mesma maneira que na linguagem, essa urgência no tempo presente se reflete também no conteúdo, em uma releitura — ainda que inconsciente — da Caixa de Pandora. Mas, aqui, o que temos é uma caixa de costura, embora também da criação (poiesis): criação da humanidade, criação poética e criação artística. Quando ela se abre, eclodem todos os males: dores emocionais e psicológicas, questões filosóficas, luto, busca de si, catástrofes mundiais, dores alheias, desigualdades sociais, desequilíbrio ambiental etc. Mas não se preocupe, esta caixa tem manual de instruções. Na abertura de cada seção, Sandra nos aconselha, poeticamente, com técnicas específicas e apropriadas para bordarmos nossa trajetória em cada estágio dessa viagem à qual somos convocados.
Para além dos males, ao abri-la, nos deparamos com os trajes dos personagens (humanos ou não) presentes nesta trama. Em nossas mãos, eles ganham vida e, assim, a autora nos leva para passear em seu universo íntimo e universal.
Vestida de senex, uma espécie de eu-lírico e narradora-personagem, ela nos guia durante a jornada. Nessa nova versão, a mulher que acessa o bem e o mal não se apresenta na mesma figura clichê que Pandora e Eva, belamente estonteantes. Aqui ela é a senex, é sábia, detentora dos saberes. Ela não usa o espelho de Oxum em busca da beleza física, ao contrário, usa-o para o autoconhecimento e distanciamento do ego. E está disposta a emprestá-lo para todos “que têm bom coração / e um par de olhos aguçados para ver / além da própria imagem refletida”. Assim, Sandra se utiliza desse eu-lírico para compartilhar seus conhecimentos e pontos de vista sobre história, arteterapia, psicologia junguiana, ciência, tecnologia, mitologia grega, ocultismo, religiões afro-brasileiras e asiáticas, poesia, surrealismo, entre outras áreas do saber.
A autora traz todas as experiências e aprendizados da senex, passando por lembranças desta e de outras existências.
Depois de ter vivido e aprendido muito, essa mulher sábia está em busca de si e da sua criança interior: “a senex é sábia / cerze suas memórias / criançando”. E faz isso por meio da costura (e da escrita tecida), enfatizando o contraste entre reencontrar a infância através de uma atividade realizada predominantemente por pessoas mais velhas. Por meio da costura, a senex vai tecendo a vida, o universo e o destino. E assim, o novo e o velho vão se conectando, um levando ao outro, como num ciclo sem fim.
Nessa busca interna e pessoal, se depara e nos escancara as mazelas e belezas do mundo atual, antigo e sempre o mesmo, e nos leva para outros: “saiu desse mundo / entrou em outro / onde os séculos são eternos / onde os lugares são lunares”. E assim, nós também vamos encontrando nossos próprios males internos — do micro para o macro agora na seara do conteúdo.
É nessa busca em meio ao universo da costura que nos deparamos com tantos problemas oriundos dessa indústria: o fast fashion, a “moda do terceiro milênio descartada a cada estação”; a poluição ambiental; o descarte inapropriado em países da África e no Atacama; o neocolonialismo têxtil; o consumismo exacerbado; a crueldade com o bicho da seda; as desigualdades sociais; a exploração da mão de obra; o trabalho automatizado seguindo as linhas de produção iniciadas na Segunda Revolução Industrial; o trabalho escravo das fábricas asiáticas em contraste com o trabalho escravo das senzalas; peças de renda vendidas para o exterior por valores exorbitantes, enquanto quem as produz não recebe quase nada. Entre outros aspectos que, de certo modo, já ficaram no passado, mas que não devem ser esquecidos, como a luta das mulheres arpilleras da ditadura no Chile.
Quando nos mostra “o fogo a consumir / Samira & Amir” na noite libanesa, Sandra revela as dores das guerras sangrentas, conectando os males da indústria da moda a outros males do mundo. A musicalidade da dança de Samira, em seu vestido de paetê, abre e fecha esse poema tão belo e triste ao mesmo tempo.
Neste livro-caixa, também somos levados a outras problemáticas da atualidade, como o uso de inteligência artificial e outras tecnologias: “a grande revolução cibernética / nos aproximará da inteligência universal / ou será o início da diáspora humana?”
A autora também fala sobre o aquecimento global e o derretimento das calotas polares: “o puzzle do planeta está incompleto / falta um pedaço de chão branco”. E nos mostra que “a destruição é real / o sol se pôs / o homem se opôs à vida / rendeu-se por ninharias”.
Mas há também a quimera e o mistério — da vida e para muito além dela — que perpassa o livro todo, remetendo ao mistério presente no poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, uma de suas principais referências e um dos personagens do livro. Em “Janus”, por exemplo, fala dos fantasmas da humanidade, que são fantasmas de todos nós: “há mistérios que devem permanecer / fora do alcance dos nossos olhos infantis”.
Diante das atrocidades deste mundo, nos leva para o onírico — que já havia se apresentado no início do livro no poema “remendos do inconsciente”, afinal, faz parte de nosso interior, do nosso inconsciente individual e coletivo. Nessa parte do livro, no entanto, tentando nos salvar, ele nos leva para viagens multidimensionais pela Via Láctea, passando pelo buraco negro Gargantua e por outros universos.
E, fazendo referência a uma música de Chico Buarque, a autora indaga: “o que será que será / que todos os avisos não vão evitar?” Ela própria dá respostas e faz previsões para o futuro, trazendo soluções para a economia e para o uso da água potável, mas provoca: “e quanto aos plásticos?”
Este multiverso temático é muito bem costurado e arrematado, com coerência na forma e no uso da linguagem, que varia de poema para poema, mas, ainda assim, mantém uma identidade muito própria. Nessa grande viagem, o fio que une tudo é a poesia, que vai amarrando cada elemento, nos puxando e nos guiando em cada estação.
E assim como na Caixa de Pandora, apesar dos males, aqui também há esperança e ela tem nome: Amor, amor em ponto alto. Depois dessa jornada multidimensional, retornamos ao amor, à origem de tudo, que também tem seus problemas, mas que sempre exala esperança. O Amor é a própria esperança, a materialização dela — embora nos pareça tão imaterial. Viemos dele e retornaremos a ele, “afogados no amor maior” no “mar cósmico”.
E logo em seguida, vem o arremate final e, novamente, o encontro com o Amor, agora o próprio. Na última seção, depois de uma longa viagem pelos confins do(s) universo(s), a senex volta para si mesma e se reconecta com sua essência e sua deusa mãe, sua deusa interior, “com a ternura e inocência de uma criança”.
Diferentemente do que ocorre com a figura estigmatizada de Pandora, aqui não é a mulher que abre a caixa e libera todos os males, aqui é a senex que tece a trama bem alinhavada dessa caixa de renda, delicada e pulsante como a própria vida. Não é ela quem recebe o presente, passiva. Ao contrário, ela é a força propulsora que presenteia a quem quiser e puder ver “além da própria imagem refletida”.
Tânia d’Arc é formada em Letras (português e espanhol) pela Universidade de São Paulo (USP), pós-graduada em Mídias Digitais pela Universidade Positivo e, desde 2017, trabalha com redação e revisão de textos. Em 2023, publicou o livro O que te escrevo é pedra bruta e delicada (Patuá), de poesia. A obra foi lançada na Flip e ficou entre os semifinalistas do 1° Troféu Capivara – Prêmio Literário da Cidade de Curitiba. Em 2024, lançou o de contos Entraves & entranhas (Patuá), apresentado ao público na Flip, e o infantil O Natal do Beto (Donizela). Participa de várias antologias, divulga seus textos no Instagram, é integrante e redatora do Coletivo Marianas e do Mulherio das Letras Paraná e participa do Coletivo Escreviventes. Acompanhe a autora em: @taniadarc
Informações do livro
Título: Poiesis na caixa de costura
Autoria: Sandra Pinto
Editora: Toma Aí Um Poema (TAUP)
Ano de publicação: 2025
Link de compra: https://loja.tomaaiumpoema.com.br/livro-poiesis-na-caixa-de-costura-de-sandra-pinto
Loja TAUP
Continue com a TAUP
Livros e publicações da nossa loja para continuar a leitura depois deste post.