Poemas sobre Sexo, Desejo e Erotismo: 10 Poemas da Antologia Verve Lasciva
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10 poemas sobre sexo, desejo e erotismo da antologia Verve Lasciva (TAUP, 2026): 102 poetas brasileiros que escrevem sobre o corpo sem pedir licença. Poesia sexual brasileira contemporânea.
A poesia erótica é tão antiga quanto a poesia — e tão necessária quanto ela. Do Cântico dos Cânticos bíblico aos haicais japoneses, dos trovadores medievais aos slammers contemporâneos, o desejo sempre foi matéria legítima da literatura.
No Brasil de 2026, a Antologia Verve Lasciva (TAUP) reúne 102 poetas brasileiros em torno de um projeto que não tem vergonha do que é: uma antologia erótica onde a linguagem deixa de ser instrumento e passa a ser corpo. Organizada por Mabelly Venson, o livro foi lançado em fevereiro de 2026 com poemas que sussurram e que gritam, que mordem e que lambem.
Em Verve Lasciva a palavra não descreve o desejo — ela o pratica.
Este post apresenta 10 poemas da antologia e o contexto de cada um — para quem quer ler poesia sexual brasileira feita com cuidado literário real.
Por que a poesia erótica importa
Antes dos poemas, uma afirmação: escrever sobre sexo não é escrever sobre menos coisa. É escrever sobre o corpo, sobre o desejo, sobre a vulnerabilidade, sobre o poder, sobre a identidade — e fazer isso com a precisão e a honestidade que a poesia exige.
A poesia erótica que tem força não é a que usa palavras chulas para chocar. É a que encontra a linguagem exata para a experiência que o cotidiano não consegue nomear. É a que faz o leitor reconhecer o que sentiu — ou imaginar o que ainda não sentiu.
A Verve Lasciva é isso: 102 poetas que aceitaram o desafio de escrever sobre desejo sem se esconder.
10 poemas da Antologia Verve Lasciva
1. Rozzi Brasil — “Sorvendo Pérolas”
O poema de abertura da antologia — e a escolha não é casual. Rozzi Brasil estabelece desde a primeira página o tom: o erotismo como experiência sensorial total, não apenas visual. O título já é convite e promessa.
Sorvendo Pérolas
tatuados nos meus sentidos
seus relevos encobertos
clímax perdidos
tato entre desejo e alma
arrepios em corpo lírico
aminioticamente respiro
gesto os grãos.
adentro
abro conchas com as mãos
como ostras sem as engolir
no céu da minha boca
suas pérolas em gotas
2. Paula Valéria Andrade — “Gozosas Gostosas Gloriosas”
O título é uma declaração estética: três adjetivos que começam com G, que soam como expiração, que acumulam intensidade. A aliteração no título já é forma a serviço do conteúdo — um poema que entende que sonoridade e sentido são a mesma coisa.
Gozosas Gostosas Gloriosas
quero te levar
aos lugares que gostas
na tua memória
quero levitar
aos lugares que gozas
tua pele de histórias
quero navegar
teus líquidos beber e banhar
lamber e gozar
rio e mar
de gozosas glórias
3. Flavia Ferrari — “Pintura”
A poeta paranaense usa a metáfora da pintura — o corpo como tela, o desejo como pigmento, o toque como pincel. Mas Flavia Ferrari nunca é literal: a metáfora vira matéria, o que era comparação vira presença.
Pintura
Enquanto me despia
Você misturava as tintas
Descruzei as pernas
Pedido seu
Relaxei os braços
Desejo meu
A tela permaneceu crua
Enquanto mãos, lábios, língua
Tocavam toda superfície
Do meu corpo em pose
Permaneci parada
Desejo seu
Trocamos de lugar
Pedido meu
Por fim, entrelaçadas
Nossa abstração
4. Francine Cruz — “Diálogo de Lábios”
A pesquisadora e escritora curitibana — autora de 9 livros e doutoranda na UFPR — traz para a Verve Lasciva uma poesia sobre o diálogo entre corpos: a boca não como lugar da fala, mas como lugar do toque. O lábio que fala e o lábio que beija são o mesmo músculo com funções diferentes — e o poema habita essa ambiguidade.
Diálogo de Lábios
Lábios libidinosos
Deliciosos lábios
Saciam luxúrias
Atiçam labaredas
Lépidos lábios
Pétalas lascivas
Vermelhos lábios
Sorvem líquidos
Lábios labirínticos
Cale-se, lamba!
Lambuze-se
Lambuze-me!
5. Sol Soares — “Livraria da Putaria”
Um dos títulos mais ousados da antologia — e um dos mais inteligentes. A livraria como espaço de desejo: os livros que o leitor toca, as capas que atraem, o prazer que começa antes de abrir qualquer página. É poesia metaliterária e erótica ao mesmo tempo.
Livraria da Putaria
Transo com as minhas falas porque amo ver elas gozarem
Hoje de manhã rolou putaria… eu flertei com todos
os artigos beijei as dicotomias também fui consumida
pelo eufemismo enquanto lambia de leve a hipérbole
além de fazer um 69 com o alfabeto inteiro depois
me entreguei na sacanagem dos adjetivos (melosa,
dengoso, livre, molhada, cheiroso…) até o parênteses
veio sarrar com a gente de repente me envolvi em
um ménage apaixonada pelas reticências e junta
dos adjuntos ou seja concluindo em resumo até a
redundância apareceu na suruba onde a vírgula foi tão
lambida que nem quis pausar e o ponto final gozou a tal
ponto que nem se lembrou de pontuar
Sinto que até semana que vem em coautoria com meu
coração em relação com meu corpo todo e paquerando
aquele sorriso de canto no rodapé da libido quase sem
fôlego terminaremos o nosso vigésimo sétimo livro…
o título? Me fode gostoso!
6. Carolina Donadio — “Ártemis e Calisto”
A mitologia grega entra na antologia pela porta do desejo. Ártemis e Calisto — a deusa da caça e sua ninfa companheira — são uma das histórias de amor e traição mais antigas da tradição ocidental. Carolina Donadio as reatualiza sem modernizar: o mito tem a mesma temperatura que sempre teve.
Ártemis e Calisto
Com o jogo americano nas mãos,
me olha sem desviar.
Compenetrada,
morde os lábios, aperta os olhos,
sem me dar pistas do seu intento.
Depois, de um jeito leve e charmoso,
pousa os copos na mesa
e me desperta pelo nome.
Sento-me timidamente ao seu lado,
corada e nervosa.
Jantamos, com decoro,
nosso pequeno banquete de
arroz, tomate, inhame.
Cada garfada dessa ceia morde
um pedaço do seu corpo,
saboreia o salgado da sua pele,
enquanto a água que me serve umedece
a língua que lambeu teus seios em pensamento.
Você me vê enrubescer, impassiva,
como se gozasse com meu desespero
de comer-te de cabeça baixa.
7. Virna Sabayo — “Storytelling #69”
O número no título não é coincidência — é declaração. E o “storytelling” aponta para uma poesia que entende o sexo como narrativa: começo, desenvolvimento, climax. Virna Sabayo é uma das vozes mais inventivas da antologia precisamente porque brinca com a forma enquanto honra o conteúdo.
STORYTELLING #69
Quero inventar uma gramática líquida
Onde cada gota seja verbo. Cada respiração: travessia
Quero falar com o olhar. Sentir meus contornos borrados
Meu batom vermelho transformado em carne encarnada
Quero brincar de gangorra, montanha-russa
Incorporar a casa assombrada do parquinho de interior
Deixando você entrar em todos os buracos
E para cada um: gemidos específicos
Quero encenar a odalisca no travelling da tua barba,
Quadril que oscila — colmeia em transe —
Mel gotejando, abelhas girando em loop.
Quero sussurrar palavras sujas como teu nome sacro
Profanado em voz rouca, olhar fixo.
Quero me render. De joelhos, de cócoras
Numa reza performática. Boca aberta, língua a mostra
Uma súdita
Esperando tua réplica quente e espessa.
Branca: bandeira da paz. Hidro-paz.
Depois disso: som de asas batendo.
8. Rosa Rasuck — “Ao Receber Meu Amado em Mim”
Um dos poemas mais líricos da antologia — a palavra “receber” carrega hospitalidade, abertura, escolha. Não a passividade que o verbo às vezes implica, mas a atividade de abrir espaço para o outro. É poesia erótica de alta temperatura emocional.
Ao Receber Meu Amado em Mim
Desnudo ele, e eu
desnutrida
pelo tempo quando não sussurrei,
nem ao menos gritei de prazer
nos braços que não eram meus,
ouvi os sons por ele proferidos
ao estremecer ainda tímido dentro de mim,
roucos esses sons,
como se não quisessem mostrar o quanto
me desejou,
nos tempos em que não éramos nós
antes disso
nós dois passeando pelas peles ainda macias,
ainda lisas, um do outro,
permitindo cada corpo se inundar
e se afogar nos líquidos
produzidos pelos vários desejos de nos ter
esperamos o gozo chegar
nos envolvemos
nos chamamos pelos nomes de cada um
como se necessário fosse
para não nos confundirmos com os outros de nossas
vidas
e abafamos em nós
os sons que clamamos
esses dois corpos que se reclamam
se dizem donos um do outro
9. Marina Guerra — “Flauta”
O instrumento como metáfora — mas Marina Guerra inverte a lógica esperada: quem é instrumento, quem é músico? O poema joga com os papéis do toque, da respiração, do som que só existe quando dois elementos se encontram.
Flauta
Domina a minha carne
Tal qual um instrumento de sopro
Oferece a mim os seus doces beijos
Porque sou romântica, concedo
Atinjo notas obscenas,
Desafino no entremeio da canção,
Reduzo o tom e produzo jazz
Com a glória de um choro
Dedilha os botões e abre-os
Manuseia os metais do meu corpo
Torna-me sua
Recompensa a falta
De todo dia solitário
Que, entre refrões largos,
Não houve música.
10. Bartira Dias — “Tempo Livre”
Um dos poemas mais políticos da antologia — porque “tempo livre” é um luxo que muitos corpos não têm. O desejo precisa de tempo, de espaço, de não ter que pedir licença. Bartira Dias escreve sobre o prazer como direito, não como concessão.
Tempo Livre
quero teus vícios em meus orifícios
cios
inícios
de prazer auspícios
resquício
de orgasmos múltiplos
no meu ofício vitalício
de compor fogos de artifícios
entre teu membro e meu períneo sob os ísquios
onde tiro todo benefício
das pequenas mortes que prenuncio
no ócio
capital em desperdício
para o interstício do nosso bem viver…
A antologia completa: 102 poetas, uma pulsação
A Verve Lasciva não se organiza por tema, gênero ou forma — mas por pulsação. Há poemas que sussurram e lambem, outros que gritam e mordem. Erotismos delicados, ritualísticos, lembranças, sonhos, imaginação, vontades e desejos abrigados em estéticas diversas, como diversos são os corpos, os sentidos e as delícias que permeiam os caminhos do gozo.
Entre os 102 poetas, estão vozes de todo o Brasil — de poetas estabelecidos a estreantes, de diferentes identidades de gênero e sexualidade, de estéticas que vão do lirismo clássico ao verso livre experimental.
O gesto político da antologia está no que não está escondido: ao assumir o erótico como matéria legítima, a Verve Lasciva reinscreve o prazer no campo da criação, afastando-o da vergonha, do silêncio e da censura.
ISBN: 978-65-83841-68-1 Organização: Mabelly Venson Publicação: TAUP, fevereiro de 2026
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A poesia erótica na tradição brasileira
A poesia erótica não é novidade na literatura brasileira — é tradição. Alguns marcos:
Gregório de Matos (século XVII) escreveu sátiras eróticas escandalosas para os padrões da época colonial — e foi censurado por isso.
Gilka Machado (1893–1980) foi a primeira poetisa brasileira a escrever abertamente sobre o desejo feminino, em Cristais Partidos (1915).
Hilda Hilst (1930–2004) levou a poesia erótica ao limite da forma com a trilogia pornográfica dos anos 1990 — e foi incompreendida em vida, reconhecida depois da morte.
Angélica Freitas e seu Um útero é do tamanho de um punho (2012) trouxeram o corpo feminino como território político para a poesia contemporânea.
Eugênia Uniflora (Jéssica Iancoski) e sua América Xereca (2023) nos apresenta uma linguagem erótica para falar do não-erótico.
A Verve Lasciva é o mais recente capítulo dessa história — com 102 vozes que provam que o erotismo na poesia brasileira nunca foi exceção. Sempre foi parte do que a poesia pode e deve fazer.
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