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Toma Aí Um Poema
Literatura & Poesia

O SILÊNCIO DA LOBA “Eloquentium silentium”. Silêncio que diz muito.

Margarida Montejano nos presenteia com o feminino abordado em suas infinitas nuances, seus contos me fizeram subentender o fio invisível que liga a todas nós. Da mitológica à sonhadora. Da que busca justiça à que procura o mar de uma Cananeia fantasiada em uma infância raiz. Da que, ao acaso, lembrou-se que podia voar àquela que, por descaso, descobriu como a dor pode ir mais e mais fundo.

Os olhos sensíveis de nossa poeta interiorana enxergam, e trazem nos contos desta belíssima obra, o feminino massacrado, o passarinho silenciado na alma de quem sente culpa de ser mulher, com um hipnótico fiozinho de luz na utilidade ao patriarcado. Do peso de lembrar a reza para não atrair o que de mau possa acontecer à toda família. Do ser, apesar de qualquer pesar, bela, cuidadora, recatada e do lar.

Mas a alcateia é mais do que a soma de lobas. Traz no conjunto a força do fio que nos une, saibamos ou não, queiramos ou não. Fio invisível, mas não inaudível. Não para lobas, que ouvem sons e frequências muito mais altas e a distâncias inimagináveis.

Os contos deste livro nos trazem a amiga que não desistia, o primeiro amor do primo, a escolha por celebrar a vida, viagens em figurinhas, Rio de Janeiro, Coimbra…. Afinal, quem gosta de dias nublados ou de sinais fechados? Aprendemos que vida e morte não são sinônimas, mas que a sororidade abarca a todas: a que não tem tempo nem para um café, a que cheira delícias por trás de paredes desbotadas, a que tem uma amiga para chorar junto e a que não tem.

É a vida feminina retratada por aquarelas magníficas de Ruy Trochmann e pelas palavras serenas, mas incisivas, de Margarida Montejano. Vida de mulheres que gritam para se fazerem presentes, mas que saem para o mundo na ponta dos pés para não se fazerem vistas. 

Algumas lideram a alcateia. Vão à frente. Outras, ainda adormecidas, sonâmbulas que não notam ferir o bando, que não percebem que o cuidado de uma é o cuidado do todo e eu sou o todo. Lobas que tentam amenizar o mundo em que o bicho mereceu o cuidado, a criança não. Lobas que ajudam a lamber as feridas e algumas delas são inimaginavelmente profundas.

Cada uma sabendo que sua música pode ser outra, mas continua loba. Sua ancestralidade não nega e sua descendência assim prosperará. Seguem, apesar de toda desconfiança e repúdio. Assim como gatas, lobas também não obedecem.

Fernanda Sanson Durand
escritora
@fernanda.sanson

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