Design e poesia: as capas premiadas de Jéssica Iancoski e o projeto gráfico como linguagem

Ao caminhar pela estante de uma livraria, muitas pessoas se apaixonam pela capa antes mesmo de folhear as páginas. Para a capista de livro e poeta Jéssica Iancoski, a imagem é a porta de entrada para mundos possíveis. Alçada à cena nacional por unir design e poesia, ela enxerga a capa como mais do que um “envelope”: é uma peça de comunicação que dialoga com o texto, convoca o leitor e amplifica a mensagem do livro.

Foto Jéssica Iancoski | Divulgação
Foto Jéssica Iancoski | Divulgação

O início de uma trajetória premiada

Nascida em Curitiba, Jéssica é designer, editora e fundadora da ONG Toma Aí Um Poema (TAUP). A expressão “a palavra como imagem” resume seu trabalho, que combina textos experimentais e elementos visuais. Em 2022 ela recebeu o Prêmio Candango de Literatura por sua capa para As Laranjas de Alice Mazela, reconhecimento que consolidou seu nome entre os principais capistas de livro do país. No mesmo ano, a artista também recebeu o Prêmio Sérgio Mamberti de Agente de Cultura Viva LGBTQIA+, pela contribuição cultural que desenvolve à frente da editora-ONG.

Uma estética de minimalismo e conceito

A página de capas de livro do seu portfólio descreve a coleção de trabalhos como diversificada: projetos minimalistas, ilustrativos e fotográficos que dialogam com o modernismo e a tipografia. Essa variedade reflete uma busca por linguagem própria: cada projeto gráfico busca condensar a essência da obra em poucos elementos visuais.

Um exemplo é a capa de Uçá, da poeta Aline Monteiro. Em artigo no blog da TAUP, a arte da capista é descrita como ousada e minimalista: a capa usa um fundo de areia com um único elemento vermelho; a palavra “UÇÁ” se transforma em um caranguejo, com o cedilha virando olhos, e a tipografia se misturando à imagem. A matéria destaca que Jéssica reduz elementos ao essencial, garantindo que a imagem não explique o livro, mas abra espaço para a imaginação do leitor.

Outro projeto inovador foi a Coleção Gralha Azul, que reuniu 23 autores paranaenses. O jornal Bem Paraná relatou que Jéssica, responsável pelo design, criou uma capa com “orelha sanfonada” (uma aba em forma de sanfona) para proporcionar uma experiência tátil diferente; a proposta pretende que o ato de abrir o livro seja também uma exploração visual e sensorial. Essa solução mostra como ela não se limita às artes digitais e incorpora o objeto físico em suas ideias.

O projeto gráfico como narrativa

Seu trabalho não se restringe a inventar imagens bonitas. Em entrevista ao blog da TAUP, Jéssica comenta que ver o próprio nome na capa e num projeto gráfico com ISBN pode reconfigurar a vida de autores iniciantes. Ela defende que a capa é um “abraço” para quem nunca foi lido e que a publicação de um livro é um ato de resistência. Essa visão política transparece em suas escolhas gráficas: cada projeto busca romper com padrões comerciais e valorizar as vozes que historicamente foram silenciadas.

Em 2024, por exemplo, a escritora Flavia Ferrari lançou o livro Espólio com projeto gráfico de Jéssica. A crítica observou que a edição independente, costurada manualmente, reforça a temática do livro – uma investigação sobre herança e linguagem – e insere o objeto como parte da narrativa. Esse cuidado reforça como a capista trata a materialidade do livro como extensão do texto.

Capas como manifesto artístico

A atuação de Jéssica também inclui a curadoria visual de antologias e projetos coletivos. Em 2025, ela assinou o design de Verve Lasciva, antologia erótica com 102 poetas, onde a capa explora o erotismo a partir de uma paleta vibrante e simbólica, legitimando o erótico como matéria literária. Os lançamentos, oficinas e debates promovidos pela TAUP fortalecem a bibliodiversidade e aproximam leitores de obras que não cabem nos grandes circuitos.

Apesar de transitar pelo ativismo editorial, Jéssica mantém o equilíbrio entre técnica e poesia. Seu portfólio mostra influências modernistas, uso de cores fortes, formas abstratas e tipografia experimental, sem perder de vista o público leitor. Cada capa é fruto de diálogo com autores e curadores. Ao premiar As Laranjas de Alice Mazela, o júri do Prêmio Candango destacou a harmonia entre conceito e execução, prova de que a junção entre design e poesia pode gerar obras de arte.

Legado para a cultura editorial

A história de Jéssica Iancoski como capista de livro reafirma que o design editorial é uma forma de linguagem. Ao criar capas premiadas e inovadoras, ela se posiciona como ponte entre texto e público, e sua prática inspira novos designers a tratar o livro como universo simbólico. Seu ativismo pela bibliodiversidade e pelas minorias também reforça que escolher uma capa é, muitas vezes, escolher quem terá acesso à leitura.

Ao final, suas capas convidam o leitor a abrir o livro, mas também a abrir-se para novas narrativas. E, como bem resume seu lema, quando a palavra vira imagem, a literatura ganha outra camada de significado.

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