ARTIGO | Filme Cops and Robbers: um retrato do racismo nos Estados Unidos — Sophia Bicudo

Curta-metragem lançado em 2020 na plataforma de streaming Netflix, “Polícia e Ladrão” (no original, Cops and Robbers), de aproximadamente 6 minutos, foi dirigido por Arnon Manor e Timothy Ware-Hill, produzido por Lawrence Bender, Arnon Manor e Timothy Ware-Hill e escrito e performado por Timothy Ware-Hill. Ao longo dessa produção cinematográfica, a temática do racismo é retratada, com destaque para formas de violência empreendidas contra pessoas pretas. Desse modo, objetivando ampliar a discussão trazida por esse curta-metragem, no presente texto apresento uma breve perspectiva histórica do racismo nos Estados Unidos, o conceito de racismo, assim como exemplos de outras produções cinematográficas que dialogam com essa temática, de tal forma que trago elementos a serem pensados, principalmente, em conjunto com o roteiro desse filme, transcrito abaixo.

Quero voltar para quando fazíamos caixa de feira de aro.
Quando “mão para cima” era para dar toco, não para se proteger de disparo.
Agora os moreninhos estão bloqueando os tiros.
Em vez de “jogo e quadra” é “enquadra e cela”.
Em vez de “cesta e enterra” são “sete palmos da terra”.
Quero o time com camisa contra o time sem camisa.
Não os pretos contra os de cinza…
Atletas clamam por justiça racial e tratamento…
Sete, oito…
Quero aquele tempo…
Posso ir?
…quando polícia e ladrão era no portão.
Quando crianças brincavam de médico e injeção.
Agora tomam tiro no portão.
Andando ou não na linha, o sangue mancha o chão,
em vez de a amarelinha.
Quero voltar no tempo em que eu pedia para minha mãe para brincar
“Mãe, posso pular? Posso me arrastar? Posso andar por aqui?”
Agora os gritos não são de brincadeira. 
São das mães reconhecendo o corpo dos filhos na ladeira.
Posso saber por que ele está morto sendo que ele estava desarmado?
Posso lutar pelo nome dela sem ser difamada ou maltratada?
Talvez ela tenha resistido porque seu corpo estava todo retorcido?
Desesperado porque estava sendo estrangulado?
Será que eu posso protestar sem ter que me deitar?
Posso ter justiça e o assassino ser condenado?
Posso ter meu momento de raiva pelo que minha cria sofreu?
Posso dizer: ‘Foda-se o sistema’?
A mãe pode…a mãe sou eu.
Logo eu vou acabar
Com os problemas deste mundo
Os problemas deste mundo
Os problemas
Quero aquele tempo que brincávamos de estátua.
Agora é o giroflex azul e vermelho que a noite clareia.
Onde o bicho papão se esconde sob a cama,
como o fantasma que assombra, apaga a nossa luz e nos afronta.
Porque a luz negra mesmo reluzente não convence os outros do que é evidente..
Tipo várias provas de rastro do presidente.
A luz negra sempre revela o que esses caras fazem na calada.
Mas o preto é a ausência de luz, né?
Nossos gritos por justiça são gritados no vazio.
Mas é com a gente que eles falham em usar força demais, viu?
Porque o mundo permite essa fita.
Mesmo quando o preto está na luz, eles não veem, acredita?
Mão para cima, documento.
Mão para cima, documento.
Mão para cima, documento.
Mão para cima, documento.
Mão para cima, documento.
Mão para cima, documento.
Mão para cima, perdeu!
Eu só quero voltar a brincar de polícia e ladrão.
Agora vidas pretas são roubadas por esses cosplays de polícia.
Será que a polícia foi criança um dia?
Quando todo mundo brincava junto. 

[Transcrição da legenda em português, meus grifos]

O racismo está enraizado no cotidiano e nas relações dos norte-americanos; arraigados no racismo, os Estados Unidos têm um histórico de sistemáticas violências contra pessoas pretas: a Declaração de Independência e a Constituição dos EUA foram lenientes com a discriminação racial (apenas após a aprovação das 13ª, 14ª e 15ª emendas constitucionais o racismo foi oficialmente findado, ainda que não na prática, com o filme “Nascimento de Uma Nação” (1915), por exemplo, incitando o racismo); estados sulistas aprovaram as leis Jim Crow, as quais mantiveram o racismo institucionalizado nessas localidades; grupos terroristas como a Ku Klux Klan perpetuaram violências extremas contra pessoas negras (por exemplo, linchamentos, estupros); a instauração da política “Separated but equal”; pessoas negras são injustamente presas (como retratado pelo documentário de 2016 “A 13ª Emenda”) (GOMES, 2001; MONSMA; 2015; LEVITSKY e ZIBLATT, 2018). Nesse sentido, o racismo não é um fenômeno de “agora” (como o roteiro parece indicar em alguns momentos), mas sim histórico, sistemático e estrutural (MUNANGA, 2009; RIBEIRO, 2019). Porém, qual a definição de racismo?

Dentre várias definições, podemos compreender o racismo como um fenômeno social, ideológico e histórico (DE PAULA et al., 2020) “disparador de preconceitos, formas de discriminação e violência” (SILVA, 2018, p. 5), o qual está vinculado ao contexto histórico, cultural e econômico da sociedade, sendo responsável por criar “mitos, padrões, critérios, estereótipos que definem valores morais e estéticos, conformando o que deve ser considerado como bom, bonito e correto e, consequentemente, o que não o é” (DE PAULA et al., 2020, p. 3). Nessa perspectiva, a violência policial, retratada no curta-metragem “Polícia e Ladrão” nas falas “Agora os moreninhos estão bloqueando os tiros. Em vez de ‘jogo e quadra’ é ‘enquadra e cela’. Em vez de ‘cesta e enterra’ são ‘sete palmos da terra’.”, “Agora tomam tiro no portão. Andando ou não na linha, o sangue mancha o chão” e “Agora vidas pretas são roubadas por esses cosplays de polícia.”, são marcas do racismo agressivo nos Estados Unidos, no qual vidas pretas são furtadas diariamente – “Mão para cima, documento. Mão para cima, perdeu!” –, levando Timothy Ware-Hill a indagar “Será que a polícia foi criança um dia? Quando todo mundo brincava junto”. 

Esse cenário de injustiça, por sua vez, é ilustrado também nos filmes “O sol é para todos” (1962), “Adivinha quem vem para jantar?” (1967), “No calor da noite” (1967), “Mississipi em chamas” (1988), “Malcolm X” (1992), “Hurricane – O furacão” (1999), “Histórias Cruzadas” (2011), “Green Book: O guia” (2018) , “Olhos que condenam” (2019), “Judas e o Messias Negro” (2021), “Dois estranhos” (2021), dentre outros. Retratando o racismo, por vezes, evidenciam o(s) silêncio(s) – “Nossos gritos por justiça são gritados no vazio” – referentes a esse fenômeno. Desse modo, dão enfoque a violências naturalizadas, tal como a sistemática opressão das mulheres afro-americanas no plano econômico, em posições subalternas e desvalorizadas, como empregadas domésticas, situação evidenciada em “Histórias Cruzadas” (2011), assim como do encarceramento maciço e injusto de homens afro-americanos, mostrado em “No calor da noite” (1967), “Hurricane – O furacão” (1999), “Olhos que condenam” (2019) e “Judas e o Messias Negro” (2021). 

Tendo isso em mente, indagamos, juntamente com Timothy Ware-Hill: “Posso saber por que ele está morto sendo que ele estava desarmado? Posso lutar pelo nome dela sem ser difamada ou maltratada? Talvez ela tenha resistido porque seu corpo estava todo retorcido? Desesperado porque estava sendo estrangulado? Será que eu posso protestar sem ter que me deitar? Posso ter justiça e o assassino ser condenado?”. Embora, parte da população responda “sim” aos questionamentos anteriores e a Constituição dos EUA permita legalmente e, nesse sentido, precisa resguardar esses direitos de todos os norte-americanos, a(s) realidade(s) gritadas nas redes sociais, jornais, livros, filmes, afirmam o contrário ao mostrar injustiças perpetuadas histórica e sistematicamente contra pessoas pretas. Isso necessita urgentemente ser transformado: a sociedade não deve ser estrutura na hierarquia da diferença e, logo, na opressão. 

Por essa razão, costuro o presente texto visando não apenas conceber um olhar particular sobre o curta-metragem “Polícia e Ladrão”, mas, principalmente, enfatizar a importância do enfrentamento do racismo no dia-a-dia. Através de manifestações e passeatas, conversas diárias entre colegas, amigos e familiares, produções artísticas, participação em palestras, entre outros, sua contribuição para a luta contra o racismo é imprescindível. Por esse motivo, rogo que não pare por aqui, mas sim continue na necessária revolução contra o racismo para que nossos gritos por justiça sejam ouvidos, de forma que possamos ter justiça

Referências

DE PAULA, S. et al. RACISMO NO CONTEXTO CONTEMPORÂNEO: CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA SOCIAL PARA A PROBLEMATIZAÇÃO DO PRECONCEITO. TCC-Psicologia, 2020.

GOMES, N. Racismo e xenofobia nos Estados Unidos da América. Janus 2001: actualidade das migrações, 2001.

LEVITSKY, S & ZIBLATT, D. Como as democracias morrem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2018

MONSMA, K. Racismo e antirracismo: ampliando o debate. Sociologias, v. 17, p. 14-32, 2015.

MUNANGA, K. Negritude: usos e sentidos. 4ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2009

RIBEIRO, D. Pequeno Manual Antirracista. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019

SILVA, M. B. D. O racismo sob a perspectiva da psicologia social. 2018.

Sophia Bicudo Passos da Fonseca. Autora do livro “Escritos Poetizados”, publicado pela editora Grupo Atlântico Editorial através da chancela Primeiro Capítulo, do poema “Confinamento Final” integrante da “Coletânea de Poemas Feministas Bertha Lutz”, publicado pela editora Persona, do poema “Dizeres ao Viver” integrante da coletânea “LGBTQQICAPF2K+: O Amor é gigante”, publicado pela editora Toma Aí um Poema, do poema “Protetivos além tecidos”, publicado pela editora VersiProsa na coletânea “PoesiaBR#01”, do artigo “O(s) feminino(s) na obra Identidade”, publicado no jornal Holofote, dentre outros publicados no blog da editora Toma Aí Um Poema. Atualmente cursa psicologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.

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