Artigo de opinião — Por uma educação poética | Katiuce Lopes Justino

Em minha experiência em diversos seguimentos da educação em São José do Rio Preto (como professora do Curso de Letras, Formadora de professores de Educação Básica, professora de língua portuguesa e literatura e Coordenadora Pedagógica), tenho abordado incessantemente a necessidade cotidiana da percepção poética como recurso cognitivo para o desenvolvimento de uma educação humanizadora, buscando a formação de sujeitos comprometidos com a sensibilidade, o acolhimento do outro, a valorização da arte e da singularidade humana.

Ora, se se quer uma educação que valorize a subjetividade (seu reconhecimento e sua experienciação), é preciso fornecer aos professores ideias e subsídios que possam alimentar sua apreciação estética, aguçando sua abstração em busca de novas perguntas e novas hipóteses que depois possam chegar até os alunos. A poesia é uma fonte sublime de inspiração diária e um bom professor não poderá prescindir de inspirar seus alunos. Conviver com a arte literária é, ao mesmo tempo, uma obrigação e um direito dos professores. Aliás, quem tiver o direito assegurado a essa convivência desde a infância jamais irá chamá-lo de obrigação.

            Nessas incursões pelo poético pratica-se um exercício de alteridade que muitos tratam como uma espécie de magia, um saber secreto: o corpo a corpo com a linguagem elevada à esfera artística, fenômeno que todos conseguem divisar mas que a maioria costuma temer, como se algo nos poetas fosse fruto de uma artimanha perigosa.

            E é mesmo. Mas essa artimanha é tecida no e com o texto, valendo-se o artífice de certas nuances de percepção, certa expertise de construir um rio profundo no qual caibam diversas camadas, enganosamente homogêneas, como é enganosamente homogênea a água dos rios profundos. Todo texto verdadeiramente artístico desemboca em muitos mares de significação, por vezes até contraditórios entre si. Essa espessura de compreensão deve sempre ser considerada e há de colaborar imensamente para desenvolver um olhar treinado para a profundidade do Outro.

            Por outro lado, essa abertura complexa para a imaginação criativa, que é a marca do poético, ou seja, sua capacidade de ser e não ser ao mesmo tempo, definindo com precisão aquilo que não se explica ou como que virando a realidade de ponta cabeça (para mostrar seu lado oculto) é também a única possibilidade de sobrevivência do poema como ideia inaugural numa terça-feira qualquer, sua resistência a morrer de tédio. Se assim não fosse, lá estariam os pobres poemas já “interpretados”, ou seja, asfixiados por uma explicação definitiva e monótona, ou seja, fechada.

            Não. É justamente sua condição de enigma que assegura ao texto artístico sua longa vida de releituras e metamorfoses, incorporando espaços vazios que são preenchidos pela própria experiência íntima do leitor ou mesmo pela Cultura ou pela Tradição de um país ou de uma comunidade. Explico-me com a intervenção do grande poeta português Fernando Pessoa, na pele de Alberto Caeiro, o pastor de grande sabedoria:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

Após ler e reler esse ballet de palavras, vejamos como se mergulha no velho rio de significações inserido em seu leito. Em primeiro lugar, o paradoxo: 

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, 

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia”. 


            Obviamente, utilizando o senso comum, um rio famoso e importante como é o Tejo deve de ser, haja vista as cidades que margeia, sua história, seu tamanho e importância …  mais belo (ou grandiloquente) que o rio de “minha aldeia”. Porém, o que o poema diz é o contrário: O Tejo não é mais belo porque não margeia minhas histórias, minhas importâncias, meu povoado. O sentido de pertencimento não está no Tejo, mas sim no pequeno e desconhecido rio, metáfora do que é familiar, autêntico, íntimo.O paradoxo de Ser e Não Ser o Tejo o mais belo rio, portanto, neste caso, não atrapalha a compreensão, como faria num outro tipo de texto, mas aguça a significação. Tal é a forma de articulação do texto literário. 

Também podemos observar neste trecho uma peripécia da linguagem: trazer o significado ao pé (como diriam os portugueses) daquela pessoa que está lendo o poema, em qualquer tempo e em qualquer parte do mundo, por meio do pronome possessivo “minha”.  Como esse tipo de palavra tem a capacidade de se metamorfosear de acordo com a pessoa que fala (basta você, caro leitor pronunciar o trecho “o rio que corre pela minha aldeia pensando ser você mesmo o dono deste rio e desta aldeia… ), tal estratégia é usada magistralmente para ampliar o sentido que habita todo texto. Cada leitor vê-se no papel do eu que fala no texto e vê ainda uma sombra de Fernando Pessoa, sua Cultura ou sua Tradição, já que se evoca nas estrofes subsequentes a glória das Naus Portuguesas. Tudo é sobreposto, nada é retirado.

Em 2020, com a pandemia mundial do coronavírus, fomos convidados a olhar novamente para nosso mundo interior. Com uma mudança drástica na rotina e um retorno à nossa pequena casa, voltamos a necessitar de fôlego imaginativo. A vivência de relações que estavam administradas pela ordem exterior precisou ser acomodada no pequeno espaço dos afetos domésticos, com maior convivência íntima. O tempo que escorria  pelas mãos passou a pairar sobre nossas cabeças em domingos ensolarados. Mas não eram férias do mundo contemporâneo, era uma ameaça violenta nos colocando de castigo a pensar sobre nossos problemas e a sofrer perdas reais de pessoas amadas. 

Tal fato aumentou a necessidade de tornar pública essa reflexão sobre o poético e suas possibilidades na formação humana e creio que o tema tenha tomado seu lugar definitivamente. Vamos falar mais sobre isso?

Profª Drª Katiuce Lopes Justino

Um comentário “Artigo de opinião — Por uma educação poética | Katiuce Lopes Justino”

  • Sandra Fontenelle

    diz:

    Muito pertinente o artigo da professora Katiuce Justino. Entre outras coisas, escrevo prosa poética para o público infantojuvenil e percebo que há ainda nas escolas uma predileção pelos gêneros de aventura e fantasia. Não que eles não tenham o seu valor, mas a poesia é sem dúvida fundamental no enriquecimento da subjetividade

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