A Primavera Sempre Volta: o livro de poesia que não mente sobre o luto
Quando três linhas dizem o que nenhuma terapia conseguiu nomear
Existe uma diferença entre escrever sobre dor e escrever a partir dela. Cecília Zugaib escolheu o segundo caminho — e fez isso na forma mais exigente possível: o haiku, onde não há espaço para enfeite, onde cada palavra precisa ganhar seu lugar ou sair.
A Primavera Sempre Volta, publicado pela editora Toma Aí Um Poema em maio de 2026, é um livro de poesia sobre luto — mas não só sobre a morte de alguém. Cecília parte de uma compreensão mais funda da palavra: luto vem do latim lugere, chorar, e abarca todas as perdas, os fins que não têm velório, as pessoas que partem sem morrer, os amores que se enterram em vida. É esse território que ela mapeia, poema a poema, com a precisão de quem sabe que exagerar seria trair a experiência.
Uma arquitetura emocional muito bem construída
O livro se organiza em cinco seções que seguem as fases do luto: Choque, Ira, Depressão, Aceitação e Transformação. Essa estrutura não é decorativa — ela guia o leitor por um percurso que qualquer pessoa que já perdeu algo reconhecerá no próprio corpo. A sequência não é linear, e Cecília sabe disso. Em “Espiral”, ela escreve: “Não é linear / nem o decorrer da vida / nem o pesar.” É uma das muitas passagens em que o poema comenta a própria jornada sem deixar de ser poema.
A seção de Choque abre com “Bandeira Vermelha” — “Tantos alertas / Insisti em seguir / Despenquei no abismo” — e já apresenta a voz da autora: direta, sem vitimismo, capaz de se responsabilizar sem se flagelar. Há uma maturidade nessa escrita que não é comum em livros de poesia confessional, onde o risco de se perder no próprio sofrimento é enorme.
O que faz esse livro de poesia se destacar
Livros de poesia sobre saúde emocional e autoconhecimento proliferaram nos últimos anos, muitos caindo numa linguagem de autoajuda em verso — bonita na superfície, vazia por dentro. Cecília escapa disso porque não está tentando consolar ninguém. Ela está tentando nomear. Há uma diferença enorme.
“A Boa Moça” talvez seja o poema mais cortante do livro: “Socorro! / Esqueci-me de mim / por tantos anos.” Três linhas que qualquer mulher que aprendeu a ser boa antes de ser ela mesma vai sentir no estômago. Não há explicação, não há lição moral — só o reconhecimento, nu.
Da mesma forma, “Engasgo” — “Preciso chorar / Não consigo / Escrevo poema” — funciona como uma declaração de poética disfarçada de confissão. A escrita como válvula, como o único lugar onde a emoção encontra saída quando o corpo trava. Para quem usa palavras para processar o que não consegue falar, esse poema em particular vai parecer um espelho.
Para quem é esse livro
A Primavera Sempre Volta é para quem está no meio de algo difícil e precisa saber que o que sente tem nome — mesmo que seja um nome em três linhas. É para quem já saiu do outro lado e quer entender o que atravessou. É para quem gosta de poesia que não se envergonha de ser emocional, mas que também não se satisfaz com o emocional fácil.
O último poema, “Autoeclipse”, fecha o livro com uma imagem que fica: “Da lagarta à borboleta / Despeço-me de mim / Sou meu sol agora.” Poderia ser clichê. Não é — porque Cecília ganhou esse verso ao longo das 80 páginas anteriores. A primavera, quando chega aqui, foi merecida.
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