
Livro premiado vira ferramenta de inclusão
No começo de 2025, a escritora e editora Jéssica Iancoski viu sua obra A pele da pitanga — livro finalista do Prêmio Jabuti 2022 — ganhar uma nova vida. A autora idealizou um projeto de distribuição gratuita do título em escolas públicas de Curitiba, iniciativa contemplada em edital da Fundação Cultural de Curitiba. O objetivo, afirma a editora, era democratizar o acesso a uma obra que questiona a colonização dos corpos e propõe um olhar decolonial para a história brasileira.
O projeto prevê a distribuição de 1 500 exemplares físicos do livro, com prioridade para estudantes do ensino fundamental II e médio, professores, bibliotecas comunitárias e Faróis do Saber. Além dos livros impressos, foram produzidas versões em braille, audiolivro e PDF acessível, garantindo que leitores com diferentes necessidades pudessem entrar em contato com a obra. A proposta também inclui 15 encontros educativos em escolas públicas e dois eventos abertos à comunidade, em que mediadores conduzem rodas de leitura e debates.
Poesia como convite ao debate
A pele da pitanga não é um livro “didático” no sentido tradicional. Publicado pela editora‑ONG Toma Aí Um Poema (TAUP), o volume traz poemas que entrelaçam memórias ancestrais, crítica social e lirismo decolonial. O texto conta com prefácio da rapper e ativista Kaê Guajajara, intitulado “É preciso dizer que foi invasão”, que posiciona o livro como um manifesto contra a colonização dos corpos e o apagamento cultural. Jéssica escreve sobre território, identidade e resistência cultural, evocando imagens de plantios, frutos e ciclos para falar de violência e reparação histórica.
Segundo a autora, a iniciativa da distribuição surgiu da percepção de que muitos jovens curitibanos nunca tinham contato com obras que refletissem a sua realidade. “A literatura é uma tecnologia de liberdade”, costuma repetir. Ao enviar exemplares para escolas e bibliotecas, ela espera que os estudantes vejam na poesia uma chave para compreender o mundo e, ao mesmo tempo, questioná‑lo.
Encontros que despertam pertencimento
As atividades nas escolas são conduzidas por Mabelly Venson, educadora e produtora cultural. Ao longo de agosto de 2025, Mabelly mediou rodas de leitura em turmas do fundamental II e médio, propondo uma abordagem sensível: em vez de ler em silêncio, os estudantes discutiam os poemas em grupo, relacionando‑os com as próprias histórias. Ela relata que muitos alunos reconheceram nas páginas de A pele da pitanga experiências de racismo, exclusão ou invisibilidade que costumam ficar fora do currículo escolar.
Mabelly ressalta que a poesia abriu espaço para conversar sobre identidade e pertencimento. “Os estudantes se reconhecem nos conflitos, nas perguntas e nas imagens do livro. A poesia abre caminhos para falar de identidade, pertencimento e história de um jeito sensível e acessível”, afirmou à reportagem. A educadora também destacou que, em algumas escolas, os livros passaram a integrar clubes de leitura e projetos interdisciplinares, o que multiplicou o alcance da iniciativa.
Reconhecimento e impacto social
Jéssica Iancoski é conhecida por conciliar poesia com atuação social. Fundadora da TAUP, a primeira editora‑ONG do Brasil, ela já publicou mais de 2 000 autores e produziu mais de 1 500 poemas audiovisuais que somam mais de 1 milhão de acessos, além de ter sido premiada com o Candango de Literatura e o Sérgio Mamberti. A distribuição de A pele da pitanga amplia esse alcance: ao garantir que a obra circule gratuitamente, ela reforça o compromisso da editora com a inclusão e a bibliodiversidade.
Para muitas escolas, o projeto representou um contato inédito com um livro de poesia contemporânea que dialogue diretamente com a realidade dos estudantes. E, para Jéssica, é mais um passo no processo de transformar a literatura em ferramenta de emancipação social. “Não adianta publicar se os livros não chegam a quem precisa deles”, resume.
Serviço
- Projeto: Distribuição gratuita de A pele da pitanga (finalista do Jabuti)
- Idealização: Jéssica Iancoski (TAUP)
- Financiamento: Edital da Fundação Cultural de Curitiba / Lei Aldir Blanc
- Conteúdo: 1 500 livros físicos, audiolivro, PDF acessível e versão em braille
- Atividades educativas: 15 encontros nas escolas e dois eventos abertos ao público
- Temas abordados: identidade, memória, colonização, resistência cultural.
Ao levar A pele da pitanga às salas de aula, o projeto mostra que a literatura pode ser instrumento de formação crítica e de transformação social, sem perder a poesia. Estudantes, professores e bibliotecas ganham um material gratuito e plural; a cidade, uma experiência que valoriza vozes historicamente silenciadas. Como resume Mabelly Venson, “a poesia de Jéssica faz com que os jovens se enxerguem e compreendam que suas histórias também merecem ser contadas”