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Toma Aí Um Poema
Literatura & Poesia
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A câmara escura, de Nicholas Pili Monteiro

Há livros que se oferecem de imediato ao leitor. A câmara escura, de Nicholas Pili Monteiro, prefere outro movimento: o da aproximação lenta, da adaptação do olhar, como quem entra num ambiente escuro e precisa de algum tempo até começar a distinguir formas, sombras e profundidades.

Publicado pela Toma Aí Um Poema em março de 2026, o livro se apresenta como uma obra de poesia brasileira marcada por uma arquitetura muito consciente: são oito partes, interlúdios e um percurso que vai do breu à manhã, da inquietação íntima a uma espécie de reorganização sensível do sujeito. Já no sumário, percebe-se que não se trata de um conjunto disperso de poemas, mas de uma travessia pensada em etapas, com títulos como “O desbravar dançante dos breus”, “Os lábios trêmulos”, “Premências de um fim”, “Carícias e pêsames”, “Vinte e poucos outonos”, “Os clamores emudecidos”, “Coisas que morrem” e “O sussurro das manhãs”.

Esse desenho estrutural já diz muito sobre o livro. A câmara escura é uma obra atravessada por escuridão, desejo, memória, culpa, erosão do tempo, precariedade do corpo e busca de sentido — mas não como mera coleção de temas graves. O que Nicholas Pili Monteiro faz é transformar essas matérias em linguagem densa, imagética e ritmada, compondo uma poesia que trabalha a interioridade como espaço dramático. Desde os poemas iniciais, o eu lírico aparece às voltas com obscuridade, silêncio, desejo e desorientação, como se pensar e sentir fossem, ao mesmo tempo, formas de lucidez e de vertigem.

Há algo de muito forte no modo como o livro encena a consciência. Em poemas como “Escuro”, “Coreógrafo cego”, “Torpor” e “Desejo e conformidade”, a subjetividade surge como campo instável, atravessado por perguntas sobre existência, memória, corpo, linguagem e pertencimento. Não se trata de uma poesia confessional no sentido mais imediato, mas de uma poesia que investiga a experiência interior com seriedade filosófica e imaginação verbal.

Ao mesmo tempo, A câmara escura não se limita ao abstrato. Uma de suas maiores qualidades está justamente em conseguir unir elaboração conceitual e vulnerabilidade afetiva. Em vários momentos, o livro toca feridas muito concretas: medo, abuso, desejo interditado, humilhação, solidão, luto, exclusão, precariedade emocional e social. A segunda e a quarta partes, por exemplo, concentram poemas e prosas poéticas de forte impacto, em que a violência e a vergonha convivem com desejo, erotismo, carência e necessidade de reconhecimento. O resultado é um livro que não suaviza a experiência do sofrimento, mas também não a reduz a uma chave única.

Também chama atenção a maneira como o autor trabalha afetos dissidentes e vulnerabilidades masculinas sem recorrer a simplificações. Em textos como “Uma caixa de sombras”, “A.M. e a voz da encruzilhada”, “O intento de L.F.F. e a culpa de Nino”, “O equívoco” e “Conveniência do corpo aos olhos”, o livro explora desejo, culpa, vergonha, autopercepção e inadequação com uma franqueza rara. Há aqui uma escrita que se volta para zonas de conflito entre corpo, moral, desejo e olhar alheio — e que faz disso matéria poética contundente.

Outra força da obra está em sua imagética. A sombra, o espelho, a névoa, a fresta, a luz escassa, o corpo ferido, os olhos, a água, a lágrima, a ponte, o prado, os animais, a janela: tudo reaparece como parte de um imaginário coerente, em que o visível nunca é suficiente e em que toda percepção parece sempre ameaçada por algo que escapa. Até o projeto visual, com imagens sombrias e atmosféricas ao longo do volume, reforça essa estética de interioridade obscura e de revelação gradual.

Mas talvez o que torne A câmara escura especialmente interessante seja o fato de que, apesar de todo o peso que carrega, ele não termina no colapso. O próprio percurso do livro indica isso: depois de atravessar breus, tremores, fins, pêsames, outonos, clamores emudecidos e coisas que morrem, chega-se ao “sussurro das manhãs”. Essa passagem não apaga a dor anterior, mas sugere uma espécie de sobrevivência, um depois possível, ainda que frágil. É um livro que entende a escuridão sem fetichizá-la.

Para leitoras e leitores que gostam de poesia contemporânea de alta densidade emocional, com forte unidade imagética e disposição para mergulhar em zonas difíceis da experiência, A câmara escura é uma leitura que vale muito a pena. Nicholas Pili Monteiro escreve com intensidade, rigor e coragem, construindo uma obra que exige entrega — mas devolve, em troca, uma experiência literária profunda.

No fim, este é um livro sobre aquilo que se forma no escuro: pensamento, desejo, culpa, memória, medo, linguagem, lucidez. E talvez também sobre aquilo que, mesmo no escuro, insiste em procurar uma fresta.

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