Sim. É normal. E, se a gente for honesta, é até previsível.
O poema, enquanto está com você, vive num estado de promessa: ele pode melhorar, pode ganhar outra palavra, pode ser refeito, pode voltar a ser segredo. Depois de publicado, ele vira outra coisa — um objeto no mundo, com bordas definidas. E é aí que muita gente sente um desconforto: não necessariamente com o poema, mas com o fato de que ele agora não é mais só seu processo; é também memória, registro, rastro.
A sensação de “não gostei mais” costuma ter causas bem humanas — e quase nunca significa que o poema é ruim.

1) O poema muda… ou você muda?
Às vezes, você relê e pensa: “eu faria diferente”. E faria mesmo. Porque a pessoa que escreveu já não é exatamente a pessoa que lê.
A escrita é um recorte de tempo. Publicar é congelar esse recorte. Só que a vida não congela junto. Você continua aprendendo, lendo outras coisas, descobrindo novos ritmos, se tornando mais exigente com sua linguagem. O poema fica ali, parado, segurando a versão de você que existia naquele dia.
Então, sim: é normal crescer e sentir que o poema “não acompanha” mais.
2) O pós-publicação derruba a adrenalina do processo
Antes de publicar, a gente costuma ficar numa mistura de urgência e encantamento: “isso está vivo, isso está funcionando, isso precisa existir”. Depois que sai, o corpo relaxa — e, com o relaxamento, vem o olhar frio.
É como ouvir a própria voz gravada. No momento de falar, você estava inteira na mensagem; ao ouvir depois, você se estranha. Com poema, acontece parecido: a publicação tira o calor do “agora” e coloca o texto sob luz branca.
Esse estranhamento é comum. E, em artistas experientes, é quase um sintoma de atenção crítica, não de fracasso.
3) O poema publicado perde a possibilidade de ser “só tentativa”
Existe uma liberdade enorme em escrever algo que ninguém viu. A gente pode errar, exagerar, ser cafona, ser grandiosa, ser frágil — sem que isso vire identidade pública.
Publicar, principalmente em redes sociais, tem um efeito colateral: a sensação de que o poema vira um “cartão de visita”, um retrato que não pode mais tremular. Aí você começa a ler como se fosse alguém de fora julgando, e a pergunta muda de “isso me representa?” para “isso é bom o suficiente para me representar?”.
E essa segunda pergunta costuma ser muito mais cruel.
4) Às vezes não é o poema que você não gosta — é o contexto
Tem poema que você ama no caderno e detesta no feed. Não porque ele piorou, mas porque o entorno mudou:
- a legenda
- a arte
- os comentários
- o dia em que você publicou
- a pessoa que interpretou de um jeito torto
- o algoritmo que empurrou o texto para um público que você não queria
O poema vira palco de coisas que ele não pediu. Isso mexe com a gente.
E tem também o inverso: poema que, no livro, ganha outro corpo — porque está bem editado, bem posicionado, respirando numa sequência. Contexto é moldura e, em poesia, moldura é sentido.
5) O “não gosto mais” pode ser um tipo de luto
Publicar é perder um pouco do controle. Você não escolhe quem lê, o que entende, como usa, o que recorta.
Para algumas pessoas, isso gera um luto real: o luto pela intimidade do texto, pelo segredo que agora virou coisa pública. Especialmente quando o poema nasceu de algo sensível — dor, amor, trauma, luto, desejo, vergonha, fé.
Às vezes você não quer mais tocar naquele lugar. E o poema é uma porta. Não gostar dele pode ser só um jeito do corpo dizer: “eu mudei de fase”.
6) Mas e quando o poema realmente está ruim?
Pode acontecer. É normal também.
Todo mundo escreve poemas que depois parecem frágeis, imaturos, apressados, repetitivos. O erro não é isso existir; o erro é você acreditar que um poema “ruim” anula sua escrita.
Poeta não é quem acerta sempre. Poeta é quem continua escrevendo — inclusive atravessando a vergonha.
A pergunta útil, aqui, não é “como apagar isso?” e sim:
- O que eu aprendo com essa rejeição?
- É técnica (ritmo, imagem, excesso)?
- É estética (eu já não escrevo assim)?
- É emocional (eu não quero mais essa memória)?
- É pública (eu me senti exposta)?
Cada resposta aponta um caminho diferente.
7) O que fazer quando bate essa sensação (sem se sabotAR)
1) Espere um pouco antes de decidir apagar
O impulso de deletar costuma vir da ansiedade, não do critério. Dá um tempo. Volte depois.
2) Trate o poema como documento do seu processo
Você não precisa amar todas as suas fases. Você só precisa respeitar que elas existiram.
3) Reescreva — sem culpa
Publicar não é decretar “versão final eterna”. Muitos poetas revisam poemas ao longo da vida, reeditam em livros, mudam versos, reorganizam séries. O poema pode ter versões.
4) Se for rede social, use o recurso de arquivar
Nem tudo precisa ficar exposto para sempre. Arquivar é diferente de apagar. Arquivar é cuidar.
5) Edite o conjunto, não só o texto isolado
Às vezes o problema não é o poema, é o lugar em que ele está. Um poema pode ganhar sentido quando entra numa sequência, quando muda de seção, quando encontra silêncio.
8) Um jeito bonito de pensar: publicar é aceitar imperfeição
Publicar é dizer: “isso existiu, do jeito que deu, com as palavras que eu tinha”. E isso é humano. O poema não precisa ser perfeito para ser verdadeiro. Nem precisa te representar para sempre. Ele representou um instante.
E instantes passam.
Conclusão: é normal — e pode ser um sinal de maturidade
Não gostar de um poema depois de publicado pode ser:
- crescimento estético,
- autocrítica mais afiada,
- mudança emocional,
- cansaço de exposição,
- ou só o efeito natural do tempo.
Em todos os casos, isso não invalida sua escrita. Pelo contrário: pode ser exatamente o que prova que você está viva dentro dela.