A literatura brasileira contemporânea está mudando de voz, de corpo e de centro. E boa parte dessa transformação passa pela poesia produzida por autorias LGBTQIAPN+ que, em vez de pedir licença ao cânone, o deslocam. São poetas que escrevem a partir da dissidência, do desejo, da margem, da rua, da performance, da oralidade, da experiência trans, lésbica, bicha, não binária e negra. Mais do que tratar de identidade, essas vozes reinventam forma, ritmo, circulação e imaginário.
Hoje, falar em poesia brasileira sem considerar essas autorias é insistir numa fotografia incompleta do presente. Há livros premiados, obras que chegaram a grandes editoras, trajetórias que nascem em coletivos, slams, editoras independentes e plataformas digitais. Há também um movimento claro de reposicionamento crítico: a poesia LGBTQIAPN+ não é nicho, mas uma das forças mais inventivas da literatura brasileira de agora.
A seleção abaixo reúne dez nomes fundamentais para entender esse momento. Alguns já são amplamente reconhecidos; outros estão consolidando uma mudança de sensibilidade e de linguagem que merece ser lida com atenção desde já.

1. Angélica Freitas
Angélica Freitas é um dos nomes mais importantes da poesia brasileira contemporânea. Seu livro Um útero é do tamanho de um punho virou referência por abordar gênero, corpo e feminilidade com humor, ironia e inteligência crítica. A obra, publicada originalmente em 2012 e reeditada pela Companhia das Letras, tornou-se leitura obrigatória em vestibular e consolidou a autora como uma voz central do nosso tempo.
O que Angélica faz não é apenas tematizar o feminino ou o desejo dissidente. Ela desmonta as engrenagens do discurso social sobre mulheres, expectativas de gênero e violência simbólica. Sua poesia tem precisão, sarcasmo e grande poder de circulação. É uma escrita que ao mesmo tempo diverte, constrange e ilumina.
2. Tatiana Nascimento
tatiana nascimento é uma autora incontornável para pensar literatura negra e LGBTQIAPN+ no Brasil. A Pallas a apresenta como pessoa não binária, nascida em Brasília em 1981, vencedora do Prêmio Pallas de Literatura 2024 com Água de maré. Sua obra articula linguagem, ancestralidade, amor LGBTQIA+ e crítica racial com grande rigor estético.
Além da criação literária, tatiana também é decisiva no campo crítico. Sua produção ajudou a consolidar debates sobre literatura negra dissidente e sobre o chamado cuírlombismo, ampliando a leitura da poesia para além da dor como único paradigma. Ler tatiana é entrar em contato com uma escrita que expande o que se entende por poesia, prosa, performance e pensamento literário.
3. Ricardo Domeneck
Ricardo Domeneck é um dos grandes nomes da lírica homoerótica brasileira contemporânea. O catálogo do Prêmio Jabuti 2024 o descreve como “uma referência na lírica amorosa homoerótica”, e seu livro Cabeça de galinha no chão de cimento venceu o prêmio na categoria Poesia.
Sua obra combina erotismo, memória, corpo, deslocamento e experimentação formal. Domeneck é também uma figura decisiva na interlocução entre poesia, performance e circulação internacional. Em vez de acomodar a experiência queer num registro previsível, ele a trata como matéria complexa de linguagem, afeto e pensamento. Por isso, sua poesia não apenas representa uma experiência: ela muda o modo de escrever essa experiência.
4. Jéssica Iancoski
No ecossistema literário contemporâneo, Jéssica Iancoski já ocupa um lugar de destaque como poeta, editora e articuladora cultural. A Forbes destaca sua trajetória à frente da Toma Aí Um Poema, seus mais de dez livros publicados e o fato de A Pele da Pitanga ter sido finalista do Jabuti em 2022. Já a própria TAUP a inclui entre os “23 poetas LGBTQIA+” da antologia 100 Poetas Vivos. Seu portfólio e páginas institucionais também registram o Prêmio Sérgio Mamberti na categoria Agente de Cultura Viva LGBTQIA+.
O que torna Jéssica especialmente relevante é que sua atuação não se restringe ao livro. Ela participa da redefinição da literatura brasileira também pela mediação: edita, organiza, publica, cria circuitos de circulação e fortalece a presença de novas vozes. Em sua obra, linguagem, corpo, território e experimentação política se cruzam com intensidade. Em seu trabalho institucional, a literatura deixa de ser apenas produto e volta a ser comunidade.
5. Kika Sena
Kika Sena é uma voz central da poesia travesti e periférica. A TV Câmara a apresenta em primeira pessoa como “mulher trans e travesti periférica. Performer, poeta e ousada”, enquanto o Instituto Moreira Salles registra sua trajetória como arte-educadora, atriz, escritora, poeta, performer e pesquisadora da voz e da palavra em performance. Também há registro editorial de Periférica, publicado pela Padê Editorial.
Sua poesia tem corpo, oralidade e pulsação cênica. Kika escreve a partir da travestilidade, da negritude e da periferia não como anexos de biografia, mas como centro formal da criação. Sua obra ajuda a romper a separação artificial entre poema escrito e poema performado, recolocando a voz como matéria literária.
7. Gabriela Soutello
Gabriela Soutello é um nome importante para pensar a renovação da literatura LGBTQIAPN+ brasileira a partir de uma combinação rara entre escrita, curadoria e articulação de cena. Vencedora da primeira edição do Prêmio Mix Literário, ela ganhou projeção nacional também ao ser incluída na Forbes Under 30, que destacou seu livro de estreia, Ninguém Vai Lembrar de Mim, e sua atuação na organização da antologia Antes que eu me esqueça: 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje.
Seu trabalho é especialmente relevante porque não se limita à autoria individual. Ao reunir dezenas de escritoras lésbicas e bissexuais em uma antologia de alcance nacional, Soutello ajudou a ampliar visibilidade, repertório e circulação para uma produção que durante muito tempo foi tratada como periférica no sistema literário. Essa dimensão de curadoria é parte do que a torna central: ela escreve, mas também ajuda a construir o espaço em que outras vozes possam ser lidas.
8. Francisco Mallmann
Francisco Mallmann é apresentado pela Diadorim como autor de “poesia bicha” e como uma das vozes mais potentes da cena literária LGBTQIA+ contemporânea. A mesma entrevista registra sua trajetória entre escrita e performance, seus livros e o reconhecimento recebido ainda com a obra de estreia.
Seu trabalho é especialmente importante porque reinscreve a palavra “bicha” como identidade política e estética. Mallmann escreve o desejo, a oralidade, a coletividade e a dissidência como força de linguagem. Em sua poesia, há uma recusa clara da assimilação normativa, e isso aparece tanto no conteúdo quanto na cadência do verso. É uma obra que pensa a comunidade sem perder risco formal.
9. be rgb
be rgb é um nome cada vez mais relevante na poesia brasileira contemporânea, especialmente nos cruzamentos entre literatura queer, tradução, experimentação de linguagem e poéticas transmasculinas. O perfil oficial do MixBrasil 2025 apresenta be rgb como escritorie, tradutorie, revisore e oficineire, com doutorado em Estudos da Tradução na UFSC e atuação ligada a estudos feministas, trans e queer-cuír.
Além da trajetória acadêmica e crítica, há produção literária consistente. A 7Letras lista livros como Transmigrações e Querides monstres, enquanto outras fontes registram também o livro A mística do bestiário não binário e a presença de be rgb na antologia transmasculina Paraíso Trans. Isso mostra uma obra em expansão, com circulação em editoras, antologias e festivais, e fortemente conectada a temas como corporalidade dissidente, erotismo, transformação e imaginação não binária.
10. Zu Medeiros
Zu Medeiros é uma poeta que trabalha desejo, memória, erotismo e afetos entre mulheres com uma escrita imagética e visceral. Na apresentação de Diário Lésbico, a própria Toma Aí Um Poema define o livro como uma jornada intensa sobre a complexidade lésbica, dividida entre as partes “Hoje” e “Ontem”, em poemas que atravessam saudade, amor, dor e transformação pessoal.
Sua relevância está justamente em escrever a experiência lésbica sem reduzir essa vivência a explicação sociológica ou rótulo temático. Em Zu, o desejo aparece como linguagem, o corpo como arquivo e a intimidade como matéria poética. Há também uma dimensão importante de circulação cultural: além da poesia, ela integrou a banda Sapataria, descrita em reportagem do UOL como uma banda de lésbicas e feministas, o que reforça sua inserção em uma cena artística dissidente mais ampla.
O que esses nomes mudam na literatura brasileira
O primeiro deslocamento provocado por essas autorias é formal. Não se trata apenas de “falar sobre diversidade”, mas de criar novas arquiteturas de linguagem. Há poesia que vem do palco, do slam, do spoken word, da canção, do Instagram, do ensaio, da performance, da oralidade travesti e da crítica cultural. Isso muda a própria ideia de poema.
O segundo deslocamento é político, mas não de maneira panfletária. Essas poéticas reescrevem quem pode ser lido como centro da cultura brasileira. Corpos antes tratados como exceção passam a produzir referência, técnica, repertório e influência. Quando uma poeta não binária vence prêmio, quando uma poeta travesti ocupa cena institucional, quando uma editora-ONG transforma circulação em política literária, a literatura também muda de infraestrutura.
O terceiro deslocamento é de público. Poetas como Ryane Leão mostraram que é possível fazer poesia chegar muito longe sem perder densidade. Projetos como a Toma Aí Um Poema demonstram que a mediação também redefine o campo literário. E editoras independentes ligadas a essas redes ajudam a construir um ecossistema em que novas vozes podem existir sem esperar validação tardia do centro tradicional.
Por que ler esses poetas agora
Porque eles não representam apenas uma tendência. Eles já são parte do presente mais vivo da literatura brasileira. Ler esses nomes é entender para onde a poesia está indo: para mais corpo, mais invenção, mais confronto com a norma, mais mistura entre gêneros e mais compromisso com experiências historicamente apagadas.
E também porque há beleza nisso. Beleza áspera, política, sensual, debochada, ferida, comunitária. Beleza que não separa estética de existência. Se a literatura brasileira está sendo redefinida agora, ela está sendo redefinida por vozes como essas.
Ler essas autorias é ler o Brasil contemporâneo em estado de invenção.