Tempo que envelhece sem querer, de Cecília Guimarães — poesia em três movimentos para atravessar o mundo e voltar para si

Tempo que envelhece sem querer, de Cecília Guimarães

Há livros que não nascem de uma ideia, mas de um período. Tempo que envelhece sem querer, de Cecília Guimarães, carrega essa marca: é poesia escrita como quem atravessa décadas, atravessa uma pandemia, atravessa a própria casa — e, no meio do caminho, percebe que o tempo não é só medida: é personagem. Um personagem insistente, às vezes autoritário, às vezes íntimo, às vezes cruel, quase sempre inevitável.

A primeira coisa que chama atenção é o ritmo: a autora escolhe uma escrita que respira em linhas curtas, com cortes secos, espaços, repetições e silêncios. Há poemas que parecem bilhetes, orações, desabafos de madrugada. Outros lembram cenas rápidas, como se o cotidiano fosse filmado por dentro: “bom dia. café. trabalho. e-mail. whatsapp.” — e, de repente, a vontade de sair correndo para uma rua deserta. Esse jeito de compor cria um efeito raro: o leitor não “observa” a experiência; ele entra nela.

O livro se organiza em três partes — “Antes do mundo de ponta cabeça”, “Nos anos que a Terra parou” e “A volta para o mundo” — e essa estrutura funciona como um mapa emocional. Na primeira parte, aparecem infância, memória, cotidiano, uma espécie de inventário afetivo em que a vida ainda parece ter continuidade. Mas mesmo ali já existe o prenúncio: a poeta fala de porradas que entram sem pedir licença, de sonhos que mudam, de um mundo lá fora que ninguém ensina a enfrentar. É como se a infância fosse uma fotografia bonita que, vista de perto, revela fissuras.

Na segunda parte, o livro ganha um núcleo muito potente: a pandemia não entra como tema genérico, mas como experiência histórica e corporal. Cecília escreve com o olhar de quem pensa o tempo também como historiadora: surgem datas, perguntas sobre o sentido de estudar história quando o presente vira colapso, e uma consciência incômoda de que o tempo “criado pelos homens” pode ser autoritário. Aqui, o confinamento aparece como compressão: o silêncio roubado, o medo, a falta de perspectiva, a rotina que vira uma espécie de guerra sem escolha. E a escrita, em vez de explicar, registra: a vida em estado de tensão.

Ainda assim, o livro não se fecha na dor. Há lampejos de fantasia — como um desejo de que o “novo normal” fosse Carnaval — e esse gesto é mais do que escapismo: é uma forma de resistência sensível. A autora parece dizer que imaginar também é sobreviver. E que, quando tudo endurece, brincar (mesmo que por um minuto) pode ser um modo de manter o corpo vivo.

Na terceira parte, “A volta para o mundo”, a pergunta muda: não é mais apenas “o que aconteceu?”, mas “o que sobrou de mim?”. O tempo aparece como entidade que guia, empurra, provoca, visita sem ser convidado. A idade, a ansiedade, a sensação de não se reconhecer no espelho, o “vício da culpa” e o medo de parar — tudo isso compõe uma espécie de retorno em câmera lenta: o mundo reabre, mas a pessoa ainda está tentando reabrir por dentro.

Um dos grandes méritos do livro é o modo como ele desmonta a fantasia social da “mulher que dá conta de tudo”. Há um poema que expõe a hipocrisia desse mito: ninguém vê o peso, ninguém imagina o afeto necessário, e no fim a culpa cai justamente sobre quem tentou sustentar o impossível. É um momento em que a poesia vira denúncia sem perder a delicadeza — e, talvez por isso, acerta mais fundo.

O tempo, aqui, não envelhece “sem querer” por acaso: ele envelhece porque a vida pressiona. E Cecília escreve esse desgaste sem romantização, mas também sem cinismo. O livro reconhece o cansaço, o corpo que acusa, a mente acelerada, o peito que aperta. E, ao mesmo tempo, insiste em pequenas imagens de abrigo: chuva, café, bolo quente, gatos, samambaia. Como se o cotidiano também pudesse ser uma oração concreta.

No fim, Tempo que envelhece sem querer é um livro de retorno: retorno à infância, retorno ao corpo, retorno àquilo que a pressa e a sobrevivência costumam apagar. Não é uma poesia que promete cura; é uma poesia que oferece companhia. E isso, num mundo que exige desempenho até para sofrer, é um gesto imenso.


Ficha rápida

Título: Tempo que envelhece sem querer
Autora: Cecília Guimarães
Editora: TAUP — Toma Aí Um Poema
Ano: 2025 (1ª edição; publicado em 24 de julho de 2025)
Formato: 15 x 21 cm; 70 páginas
ISBN: 978-65-83841-27-8

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