Resenha: Em um só fôlego, de Arcilio Sales

Em Em um só fôlego, Arcilio Sales transforma a experiência da dor psíquica em matéria poética bruta, contínua e sufocante. Desde a capa e a dedicatória, o livro já anuncia um percurso íntimo, atravessado por um “momento cinza” da vida do eu lírico, que se desdobra ao longo dos poemas como uma travessia pela depressão, pela angústia e pela tentativa de permanecer vivo por meio da escrita.

A força do livro está justamente em sua recusa ao ornamento excessivo. Arcilio escreve com insistência, repetição e acúmulo, como se cada poema fosse menos um exercício estético isolado e mais um registro de sobrevivência. A dor não aparece como conceito abstrato, mas como presença invasiva, corpo estranho, sombra, febre, vazio e perseguição. Em vários momentos, o texto personifica a depressão como uma entidade que ocupa, sequestra e corrói o sujeito, até que ela enfim ganha nome de forma explícita, deixando claro o eixo temático da obra.

Esse movimento de nomeação é um dos pontos mais potentes do livro. Antes disso, a dor surge como algo “que não se denomina”, um mal sem contorno fixo, mas de efeitos devastadores. Quando o nome “depressão” aparece, não funciona como simplificação, e sim como clímax: o leitor compreende que todo o percurso anterior foi a tentativa de dizer o indizível. Essa progressão dá unidade ao livro e sustenta seu ritmo confessional.

Outro aspecto relevante é a presença da escrita como gesto de contenção. Repetidamente, o eu lírico afirma escrever para não sucumbir, como se a palavra fosse o último fio entre a lucidez e o colapso. Isso dá ao livro um valor duplo: literário e testemunhal. Os versos não apenas representam a dor, mas encenam uma luta contra ela. A frase final sintetiza com precisão esse projeto: “A dor queria sair, / eu ousei me manter são, / então escrevi.”

Formalmente, o livro aposta em versos livres, dicção direta e forte repetição lexical. Essa escolha pode soar, para alguns leitores, menos afeita à contenção ou à elaboração imagética mais complexa. No entanto, dentro da proposta da obra, essa insistência funciona: a repetição reproduz a ruminação, o cansaço, o retorno obsessivo dos pensamentos e a sensação de aprisionamento. O livro não quer suavizar a experiência — quer fazê-la pulsar diante do leitor.

Também chama atenção a construção de contrastes entre interior e exterior. O mundo continua existindo, aparentemente normal, enquanto o sujeito desmorona por dentro. Essa dissociação entre aparência e sofrimento é uma das camadas mais humanas do livro, porque comunica de forma nítida a solidão de quem sofre uma dor invisível. Ao lado disso, elementos como o marido, os “filhotes”, o vento, o sono e os remédios surgem como pequenas forças de sustentação, frágeis, mas decisivas.

No fim, Em um só fôlego é um livro de enfrentamento. Mais do que falar sobre depressão, ele procura colocar o leitor dentro de sua duração, de sua repetição e de seu peso. É uma obra que incomoda, justamente porque não alivia. E é aí que reside sua potência: ao transformar sofrimento em linguagem, Arcilio Sales produz uma poesia de urgência, marcada pela vulnerabilidade, pela coragem e pela tentativa insistente de permanecer.

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