Quanto tempo dura o luto?, de C.B.J — um livro pequeno que abre um espaço enorme para o amor que fica

Quanto tempo dura o luto?, de C.B.J

Há histórias que parecem escritas com o cuidado de quem segura um copo cheio até a borda: qualquer movimento brusco derrama. Quanto tempo dura o luto?, de C.B.J, é assim — um livro delicado, íntimo, e ao mesmo tempo muito amplo, porque entende que luto não é só tristeza: é também memória, presença, transformação, e um tipo de amor que continua trabalhando dentro da gente, mesmo quando tudo já mudou.

A narrativa acompanha dois irmãos, Cezar e Miguel, depois da morte do avô (que também se chamava Miguel). Cada um carrega a ausência de um jeito: um mais “por dentro”, tentando organizar o mundo com lógica e planos; o outro mais entregue ao fluxo, como quem aceita que nem tudo se explica — mas tudo se sente. O livro cresce exatamente nessa diferença: em vez de opor os dois, ele mostra como irmãos podem ser bússolas um do outro quando a vida vira neblina.

O texto se estrutura como uma espécie de montagem afetiva, atravessando tempos distintos (infância, adolescência, vida adulta) e costurando cenas que parecem simples — um sábado, uma música no rádio, um carro, um calor de tarde, uma estrada — até a gente perceber que são essas pequenas imagens que viram abrigo quando o luto chega. Aqui, a saudade não é uma figura abstrata: ela tem cheiro, textura, som, um certo tipo de silêncio.

Um ponto muito bonito é como a história trata o luto não como “fase a ser vencida”, mas como experiência que muda a forma de existir. A pergunta do título volta como refrão íntimo, mas não busca uma resposta fechada. O que o livro sugere, com delicadeza, é que o luto não se mede em calendário: ele acontece em ondas, em lembranças inesperadas, em lugares que continuam os mesmos e, ao mesmo tempo, irreconhecíveis. A dor não é negada — mas também não vira espetáculo. Ela é tratada com respeito.

A relação entre os irmãos é o coração do livro. Há uma ternura muito bem construída no jeito como um aprende a ler o outro sem invadir, como a conversa cresce aos poucos, como o cuidado aparece nos gestos mínimos. E há ainda uma camada especialmente sensível quando o texto toca nos “lutos de identidade” — as versões antigas de nós mesmos que ficam pelo caminho, as mudanças que exigem coragem, as perdas que não são necessariamente ruins, mas ainda assim pedem elaboração. O livro não “explica” isso didaticamente: apenas inclui como parte real da vida.

As ilustrações e o projeto gráfico reforçam o clima: traços que parecem memória desenhada, imagens que funcionam como pausas de respiração entre cenas, e um uso de vazio e silêncio visual que combina com o tema — como se a página também soubesse que ausência é uma forma de presença.

No fim, Quanto tempo dura o luto? é um livro sobre a pergunta que quase todo mundo evita fazer em voz alta. Mas, mais do que responder, ele propõe outra coisa: olhar para o luto como prova de amor, como marca, como ponto e vírgula — não para romantizar a perda, e sim para lembrar que sentir falta também é uma maneira de continuar junto.


Ficha rápida

Título: Quanto tempo dura o luto?
Autoria: C.B.J
Gênero: romance (narrativa curta ilustrada)
Editora: TAUP — Toma Aí Um Poema
Ano: 2025 (1ª edição)
Formato: 13 x 16 cm, 56 páginas, ilustrado
Projeto gráfico e ilustrações: Alexandra Higino
ISBN: 978-65-986435-7-7

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