Poemas das Multidões: poesia surrealista, de Arthus Mehanna — quando o delírio vira método e a imagem vira mundo

Há livros que não querem ser “entendidos” — querem ser atravessados. Poemas das Multidões: poesia surrealista, de Arthus Mehanna, é um desses. A sensação de leitura é a de entrar numa correnteza: a realidade vai perdendo o contorno “normal” e, no lugar, aparece um território onde sonho e vigília se confundem, onde a lógica cotidiana afrouxa, e onde o poema assume um compromisso raro: dar forma ao que é indizível sem domesticar o indizível.

O título cumpre o que promete. “Multidões” aqui não é apenas tema — é modo de existir. O eu poético não se comporta como um centro fixo, mas como um corpo poroso, atravessado por vozes, referências, símbolos, cidades, mares, astrologias, mitos e memórias. A leitura vai revelando esse movimento: um “eu” que se multiplica, se contradiz, se expande, e encontra na poesia uma forma de abrigar a própria complexidade.

Poemas das Multidões: poesia surrealista, de Arthus Mehanna

Um livro em três cadernos: maré, redes e fogo

A estrutura do volume é parte da experiência. Ele se organiza em três núcleos — Caderno Essencial, Caderno de Carretéis e Tarrafas e Caderno de Pirocinese — como se cada bloco acendesse uma zona do mesmo imaginário: água (e suas forças), redes (e seus emaranhados), fogo (e seus riscos).

No Caderno Essencial, a imagem dominante é líquida: maré, enchente, lua, redemoinhos, travessias. Há um erotismo úmido e cósmico, uma cidade que se dissolve, um tempo que não anda em linha reta — ele espirala. O poema parece querer alcançar o ponto em que a linguagem vira mar: não para “enfeitar” o mundo, mas para mudar o clima interno do leitor.

Já o Caderno de Carretéis e Tarrafas trabalha a ideia de emaranho: fios, cabelos, gavetas, redes, capturas, deslocamentos. O livro se interessa por aquilo que prende e também por aquilo que pode libertar. A tarrafa aparece menos como objeto e mais como gesto: lançar-se, pescar sentido, aceitar o risco de voltar com as mãos vazias — e, ainda assim, lançar de novo.

No Caderno de Pirocinese, a temperatura muda. O poema passa a operar no regime do incêndio: desejo, obsessão, manifesto, combustão, corpo em labareda, cidade queimando por dentro. É aqui que o livro explicita, sem simplificar, uma tensão essencial: o fogo como prazer e como ameaça; como criação e como destruição; como energia política e como vertigem íntima.

Surrealismo contemporâneo: o inconsciente como paisagem coletiva

O surrealismo de Arthus Mehanna não é um ornamento “onírico” — é uma ética de linguagem. As imagens não aparecem para decorar o verso, mas para abrir passagem: uma girafa em brasa, cabelos como rios de lava, corpos em constelações, mares que viram método, cidades que colapsam em metáforas físicas. O delírio, aqui, funciona como ferramenta de acesso: não ao “fantástico”, mas ao real que a lógica do dia a dia costuma censurar.

O que impressiona é que, mesmo quando o poema parece pessoal, ele nunca fica pequeno. Existe sempre um “fora” batendo: Brasil, mundo, violências difusas, mecanismos de controle, catracas (do corpo e da cidade), interditos. A multidão é também isso: a consciência de que o íntimo não se separa do histórico.

Linguagem: musicalidade, fôlego longo e imagens em sequência

A escrita tem fôlego — e isso é parte do efeito. Muitos poemas avançam em ondas, como se o verso precisasse de continuidade para sustentar o estado de transe. Há repetições, variações, espirais vocabulares, e uma musicalidade que às vezes soa como encantamento, às vezes como manifesto, às vezes como oração. É poesia que se movimenta mais por impulso do que por “moral da história”.

E há um dado bonito: o livro não teme a intensidade. Ele aposta no excesso como linguagem possível — não um excesso vazio, mas um excesso que tenta dar conta da própria experiência de ser muitos.

O que fica depois da leitura

Poemas das Multidões é um livro para quem gosta de poesia que desafia o leitor sem expulsá-lo. Mesmo quando as imagens parecem indomáveis, elas trabalham para criar um tipo de pertencimento: aquele instante em que você entende que também é feito de camadas, contradições e marés.

No fim, a obra deixa uma impressão forte: a de que a poesia pode ser um modo de existir com mais liberdade. Não uma liberdade “motivacional”, mas uma liberdade ontológica — a coragem de admitir o caos, atravessar o caos, e produzir beleza sem pedir desculpas.


Ficha rápida

Título: Poemas das Multidões: poesia surrealista
Autor: Arthus Mehanna
Editora: TAUP — Toma Aí Um Poema
Ano: 2025
Edição: 1ª edição, 1ª impressão; publicado em 24 de julho de 2025
ISBN: 978-65-83841-25-4
Formato: 14 x 21 cm; 108 páginas

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