Memórias de uma Mulher Morta, de Sandra Godinho

Capa do romance Memórias de uma mulher morta, de Sandra Godinho.

A imagem da capa antecipa em tom onírico o mergulho nas lembranças que o livro oferece: o rosto sereno de uma mulher submersa em tons de azul sugere a profundidade da memória e o limiar tênue entre vida e morte. Assim é a narrativa de Memórias de uma mulher morta – finalista do Prêmio LeYa 2021 – uma jornada lírica e dolorosa pelos fragmentos da vida de Maria, narrados pela própria protagonista após a sua morte. Ambientado no interior do Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do século XX, o romance atravessa a infância e a maturidade de Maria, desde uma colônia rural até a linha de montagem de uma fábrica metalúrgica durante tempos de guerra. Com delicadeza e crueza entrelaçadas, Sandra Godinho constrói uma história em que memória e ficção se confundem, e temas universais como crescimento, perda, opressão e afeto ganham contornos vívidos. A leitura nos envolve em uma atmosfera introspectiva, carregada de simbolismos, convidando-nos a revisitar junto com a narradora as dores e descobertas de uma vida comum e, ao mesmo tempo, extraordinária.

Memória como dispositivo narrativo

Desde as primeiras páginas, fica claro que a memória é o eixo central da narrativa – não como uma simples reconstituição cronológica dos fatos, mas como um dispositivo criativo que dá forma à história. Maria, já falecida, reconstrói seu passado a partir de lembranças fragmentadas, sensações e sentimentos que permanecem vívidos. Essa perspectiva pós-morte torna a narração íntima e reflexiva: a protagonista não está preocupada em quando exatamente algo aconteceu ou em relatar eventos com exatidão documental, e sim em como esses momentos foram vivenciados e assimilados em sua consciência. As memórias emergem como cenas oníricas, muitas vezes guiadas pela lógica emocional em vez da lógica temporal. Por exemplo, uma lembrança da infância pode surgir carregada do cheiro de terra molhada ou do som de sinos da matriz, detalhes sensoriais que flutuam na mente de Maria e nos transportam diretamente para a atmosfera daquela época. Ao invés de termos uma sequência linear de acontecimentos históricos, temos um mosaico poético de recordações: pequenas histórias dentro da grande história da vida de Maria. Esse mosaico memorial enfatiza que recordar é um ato de criação – Maria escolhe (ainda que inconscientemente) quais episódios destacar, quais silêncios manter. O resultado é uma narrativa em tom de confidência, quase como se a própria memória fosse personagem, moldando o que é contado e o que é deixado nas entrelinhas. Para o leitor, isso significa uma experiência de leitura em que avançamos e retrocedemos no tempo interno da protagonista, navegando por um labirinto de lembranças. Essa estrutura ressalta a subjetividade da memória: não há pretensão de objetividade ou de “verdade” absoluta sobre os fatos, mas sim a verdade sensível daquilo que Maria sentiu e viveu. Ao usar a memória dessa forma, Godinho transforma o romance num grande ato de resistência contra o esquecimento – a voz de Maria, vinda de além-túmulo, narra para não desaparecer, para afirmar a sua existência e a de tantas mulheres como ela na História.

Infância como território de violência simbólica

A infância de Maria, longe de ser um refúgio idílico, é retratada como um território permeado por violências simbólicas e despertar precoce para durezas da vida. Logo cedo, a menina se depara com situações que rompem a bolha de inocência típica da infância. Um episódio marcante envolve a cachorra de estimação, Leca, cuja morte acontece logo após dar à luz uma ninhada de filhotes. Maria, com apenas sete anos, experimenta aí um choque de realidade: “nem sempre ter filhos era algo bom”, ela descobre, ao ver que a alegria do nascimento pode vir acompanhada da perda e do sofrimento. A maneira como os adultos reagem também a marca profundamente – sua mãe a incumbe de cuidar dos filhotes órfãos, apelando a um senso de responsabilidade pesado demais para uma criança. Esse momento, carregado de simbolismo, representa a quebra de um paradigma infantil: Maria é forçada a crescer um pouco naquela manhã cinzenta, confrontando a morte e a obrigação de proteger vidas frágeis. Temos aqui violência simbólica porque não se trata de uma agressão física direta contra Maria, mas de uma violência mais sutil e estrutural: a vida lhe impondo, através dos valores dos adultos, um papel e uma dor para os quais ela não estava preparada. Da mesma forma, no ambiente familiar, Maria percebe as dinâmicas opressoras entre seu pai e sua mãe. O pai representa a autoridade patriarcal típica da época – rígido nos costumes, exigindo obediência e silêncio –, enquanto a mãe carrega nos olhos e gestos um ressentimento contido, resultado de anos de submissão. Embora Maria não compreenda racionalmente todos os pormenores, ela sente as tensões: nota os “bufos” de raiva engolida da mãe, o olhar perdido dela enquanto cumpre os afazeres ditados pelo marido. Essa percepção infantil de uma injustiça difusa – o pai mandando, a mãe calando – é outra forma de violência simbólica que deixa marcas em Maria. A fazenda onde cresce também impõe suas durezas: o trabalho cedo, a terra, os bichos, a religião com seus rigores. Maria menciona o desconforto com as missas e novenas, com a sensação de culpa e medo do pecado – elementos que pesam como pequenas violências cotidianas sobre o espírito de uma criança. Em Memórias de uma mulher morta, a infância é, portanto, retratada sem romantização: é um campo de batalha silencioso onde a menina Maria aprende a engolir o choro, a obedecer às regras impostas e a carregar saudades e traumas que a acompanharão. Essa base infantil marcada por perdas e submissões ajuda a explicar a personalidade resiliente e questionadora que veremos nela mais tarde. A memória desses primeiros anos, cheia de cicatrizes invisíveis, perpassa toda a narrativa – Maria adulta frequentemente retorna a essas cenas da infância, indicando o quanto elas informam sua visão de mundo. A autora parece dizer que dentro de cada mulher há uma menina ferida cujas experiências moldam silenciosamente sua trajetória.

Corpo, morte e aprendizagem

Conforme acompanhamos Maria da infância à vida adulta, notamos como o corpo e a morte se entrelaçam no processo de aprendizagem da protagonista. Cada vivência corporal – seja a dor física, a descoberta do prazer ou o cansaço do trabalho – traz lições embutidas, assim como cada encontro com a morte aprofunda sua compreensão da existência. Ainda criança, Maria aprende o significado do luto quando perde sua cachorra de estimação; sente na pele o que é ter o “peito encharcado de sangue machucado, empurrando os restos para fora” – nas palavras carinhosas (embora duras) de sua mãe ao consolá-la. Essa linguagem visceral, de coração ferido sangrando internamente, já aponta para a conexão entre corpo e emoção: o aprendizado da finitude e da dor é algo que se sente no corpo, um aperto de garganta, um vazio no estômago, lágrimas que correm como um “rio no fundo do olho”. À medida que cresce, Maria continua a aprender com as experiências corporais. Na adolescência, por exemplo, surge o despertar do desejo – sutilmente sugerido no texto quando Maria observa Pietra, uma moça de outra colônia, e sente o coração acelerar diante daquela figura livre nadando no rio. O corpo de Maria reage com curiosidade e encanto, ensinando-lhe sem palavras sobre a descoberta da sexualidade e da afeição fora do círculo familiar. É um conhecimento novo, quase secreto, que contrasta com os ensinamentos rígidos que recebera na infância. Mais tarde, já adulta trabalhando na metalúrgica, é o corpo exausto e sujo de graxa que lhe mostra os limites da labuta e da exploração. As jornadas intensas na fábrica de armamentos – entre pólvora, maquinaria barulhenta e risco constante – fazem Maria experimentar na própria pele o peso de ser uma engrenagem descartável na máquina da guerra. As mãos calejadas, os pulmões enchendo-se de fuligem, cada dor nas costas ao final do expediente contam uma história de aprendizado forçado: o de que a vida, para mulheres como ela, cobra um preço alto em carne e osso. Nesse contexto, a morte deixa de ser uma estranha e torna-se uma presença cotidiana. Maria testemunha colegas adoecendo, mutiladas por acidentes ou consumidas por desesperança. E então ocorre a tragédia na fábrica – uma explosão violenta que ceifa a vida de várias operárias, incluindo a própria narradora. Esse momento é o auge cruel da união entre corpo e morte: o corpo feminino, que já carregava tantas marcas de trabalho e dominação, é literalmente despedaçado pela explosão. Contudo, mesmo nesse ato final de destruição há aprendizado e significado. A morte de Maria não silencia sua voz; ao contrário, é a partir dela que compreendemos a amplitude de tudo que viveu. Há uma ironia poderosa aqui: somente depois de morta Maria pode narrar livremente, analisar seu passado com lucidez e extrair dele lições. Sua memória pós-morte transforma a experiência corpórea em sabedoria – cada cicatriz se converte em história, cada perda em insight. Além disso, ao longo do romance vemos pequenas grandes revoltas em que Maria usa o corpo ou os conhecimentos “mundanos” adquiridos para resistir. Um exemplo simbólico é quando ela se vale da própria pólvora com que lida na fábrica para retaliar um abuso sofrido: numa vingança silenciosa, ela causa mal-estar físico ao opressor, mostrando que até mesmo a violência pode virar contra quem a exerce. Esse ato arriscado ensina sobre justiça de uma forma que as leis nunca ensinaram a ela. Memórias de uma mulher morta sugere, assim, que o aprendizado da protagonista se dá tanto pelos caminhos do sofrimento quanto pelos da insurgência: a dor lhe ensina os limites do suportável, e a reação corporal – correr, gritar, lutar ou mesmo infringir uma pequena vingança – lhe ensina que ela não é apenas vítima do destino, mas agente dele também. O corpo, com suas sensações e fragilidades, é o livro onde Maria escreveu sua história, e a morte foi apenas o capítulo final que permitiu fechar esse livro com entendimento e, talvez, um senso de libertação.

Feminilidade, maternidade e transmissão

Em toda a trajetória de Maria, a feminilidade é retratada em suas facetas mais íntimas e coletivas – do vínculo entre mães e filhas às redes de solidariedade entre mulheres, passando pelo peso das expectativas sociais sobre o que é “ser mulher”. Desde cedo, Maria absorve lições (e cicatrizes) de feminilidade principalmente através de sua mãe. A mãe de Maria é uma figura complexa: ao mesmo tempo que reproduz certos papéis tradicionais (cuida da casa, acata às ordens do marido em público), ela também guarda uma força silenciosa e um senso crítico que transparecem nas brechas do cotidiano. É ela quem, num momento agridoce, apresenta à filha a dura realidade da maternidade sem romantismo – quando Leca, a cadela, morre após dar cria, a mãe de Maria praticamente inicia a menina num rito maternal improvisado, pedindo que cuide dos filhotes e insinuando que nem toda mãe dá conta sozinha de sua “cria”. Dessa maneira quase subliminar, uma sabedoria feminina é transmitida de mãe para filha: a de que ser mulher e mãe envolve dores e solidariedade, que a vida nem sempre respeita o ideal de felicidade materna pregado pelas histórias doces. Maria cresce com essa consciência sem nunca ter ouvido um discurso explícito sobre o assunto – é uma transmissão sutil, feita de gestos, olhares e silêncios eloqüentes. Mais tarde, no universo da fábrica, Maria encontra em suas colegas operárias uma espécie de prolongamento dessa linhagem feminina. Longe da família, é entre outras mulheres trabalhadoras que ela vivencia apoio mútuo e troca de conhecimentos práticos. As mais velhas ensinam às mais novas truques para suportar a fadiga, compartilham receitas de chá para acalmar os nervos ou histórias de vida que servem de consolo e alerta. Cria-se ali uma comunidade feminina em meio ao ambiente hostil da metalúrgica – mulheres unidas pela sobrevivência, pelo desejo de justiça e, claro, pela memória coletiva de injustiças sofridas. Quando discutem sobre sabotagem ou sobre os rumos da guerra que elas ajudam a alimentar sem querer, estão, na verdade, articulando uma transmissão de consciência política: é o legado de questionamento e coragem passada adiante, mesmo que nem todas concordem sobre os meios. O romance explora também a ideia de maternidade além do sangue. Maria não chega a narrar ter filhos biológicos (possivelmente não teve oportunidade, dado seu fim prematuro), mas exerce uma maternidade simbólica em vários momentos – seja ao cuidar dos cachorrinhos órfãos na infância, seja ao amparar uma amiga em desespero na fábrica, ou mesmo ao narrar suas memórias (num certo sentido, “dar à luz” sua própria história para o mundo). Essa última forma de maternidade – a narrativa – é especialmente comovente. Ao contar sua vida depois de morta, Maria atua como uma mãe que deixa um testemunho para os que ficam. Ela transmite ao leitor – geração presente e futura – a memória de mulheres anônimas de seu tempo: suas mães, irmãs, amigas. Torna-se ponte entre o passado e o presente, garantindo que as experiências daquelas mulheres não desapareçam no silêncio. Há, portanto, um forte componente de legado em Memórias de uma mulher morta. A transmissão ocorre em vários níveis: nas tradições e conselhos passados de mãe para filha; nos conhecimentos e afetos partilhados entre as operárias; e, meta-literariamente, na decisão da autora em transformar tudo isso em romance, entregando-nos essa história. Sandra Godinho, através de Maria, resgata histórias que nos formam – enquanto mulheres, enquanto sociedade – e as entrega como quem passa adiante uma chama que não pode se apagar. O feminino aqui não é apenas um tema, mas o próprio veículo da memória: é através das vozes femininas (mesmo caladas em vida, como a da mãe resignada, ou silenciadas tragicamente, como a da própria Maria) que a verdade emocional da história se preserva. No final das contas, Memórias de uma mulher morta celebra a força dessas transmissões: a dor que ensina, o carinho que consola, a lembrança que inspira.

Em tom ensaístico e profundamente subjetivo, a leitura de Memórias de uma mulher morta nos instiga a refletir sobre nossas próprias heranças de memória, violência e afeto. Maria, com sua voz serena vinda do além, guia-nos por um Brasil de outrora que reverbera ainda hoje – nos conflitos de gênero, nas desigualdades de classe, nas cicatrizes que cada infância carrega e no poder transformador que existe em narrar a própria história. Ao fechar do livro, fica a sensação de que acompanhamos não apenas a trajetória de uma mulher, mas um coro de vozes esquecidas encontrando redenção na palavra. É uma obra que emociona e inquieta: pela beleza com que reconstrói o passado, pela coragem com que denuncia as violências (visíveis e invisíveis) sofridas, e pelo amor com que honra a sabedoria transmitida de geração em geração. Sandra Godinho nos oferece, enfim, um relato ficcional que ecoa verdades universais – um convite para mergulhar no rio da memória e emergir dele compreendendo um pouco melhor o que significa viver, lembrar e resistir.

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