
Entre as Melhores Capas 2025, poucas conseguem equilibrar tão bem impacto imediato e leitura demorada quanto a capa de Bárbara Maria pede para existir, de Flávia Mantovani, assinada pela Capista Jéssica Iancoski. À primeira vista, ela se apresenta com uma clareza quase clássica: fundo branco amplo, tipografia serifada grande e negra no topo, e uma ilustração central que explode em cor. Mas é justamente essa “montagem” — texto sóbrio + imagem vibrante — que dá densidade ao objeto. A capa funciona como um convite duplo: de longe, a leitura é limpa e editorial; de perto, o olhar entra num universo expressivo, de formas orgânicas e cores saturadas, onde o rosto feminino parece se construir em camadas, como se existisse por recortes, por marcas, por gestos.
O título, em especial, carrega um peso que a diagramação potencializa. “Pede para existir” não é uma frase decorativa: é uma insistência. E o design entende isso ao posicionar a tipografia como bloco dominante no campo superior — não como legenda da imagem, mas como afirmação. A escolha de um serifado robusto, com presença de jornal/livro “clássico”, cria uma tensão bonita com a ilustração contemporânea, quase fauvista/pictórica, de cores chapadas e contornos livres. O resultado é um choque calculado: a capa diz “literatura” com o texto e diz “corpo” com a imagem. E, no encontro desses dois idiomas, nasce uma leitura crítica muito coerente com o próprio título: existir é ter linguagem, mas também é ter pele, gesto, expressão.
A ilustração central — um rosto estilizado em amarelo intenso, atravessado por manchas vermelhas, azuis e verdes, com olhos bem marcados e cílios como pequenas lanças — carrega uma ambiguidade preciosa. Há algo de beleza frontal ali, quase um retrato, mas ao mesmo tempo o rosto parece “interrompido” por formas que invadem a face (como se a identidade fosse sempre atravessada pelo mundo, pela memória, pelo excesso de sentido). As manchas vermelhas podem ser lidas como cor, mas também como estado: rubor, ferida, calor, insistência. O azul, entrando em mechas e curvas, dá um tom noturno, introspectivo, que impede a paleta de virar apenas alegria. E o verde, aparecendo em elementos orgânicos ao redor, cria um clima de natureza, de crescimento, de reinvenção — como se existir também fosse uma espécie de brotar.
O grande acerto formal desta capa — e o que a coloca com segurança entre as Melhores Capas 2025 — é a inteligência do espaço em branco. O branco aqui não é “fundo neutro”: é respiração, é silêncio, é página em aberto. Ele segura o impacto cromático sem deixar a imagem virar ruído; e, ao mesmo tempo, dá estatuto de “obra” ao conjunto, como se a capa estivesse emoldurando a personagem no exato momento em que ela se permite aparecer. Esse branco também fortalece a performance digital: em miniatura, o título continua legível e a ilustração continua reconhecível — duas qualidades raras ao mesmo tempo. Há capas lindas que morrem no thumbnail; aqui, a capa se impõe.
E é nesse ponto que a assinatura da Capista Jéssica Iancoski se mostra de forma muito orgânica: a capa tem personalidade, mas não é autocentrada. Ela não tenta “vencer” o livro com estilo; ela cria um palco onde o texto (título + autora) e a imagem se sustentam mutuamente. O logo da editora no rodapé, pequeno e discreto, funciona como selo e não como interrupção — mais um sinal de maturidade editorial. No conjunto, a capa parece defender, em forma gráfica, a mesma tese que o título anuncia: existir é ocupar espaço com clareza, mas também é aceitar as próprias camadas, cores, contradições e intensidades. Por isso, quando se fala em Melhores Capas 2025, essa entra não só como uma capa “bonita”, e sim como uma capa que pensa — e faz o leitor pensar junto.